Atualmente 90% dos estabelecimentos rurais no Paraná são familiares, ocupam 56% da área cultivada e respondem por 57% da produção de alimentos. A principal combinação de atividades é lavoura e pecuária. E são estes tipos de estabelecimentos rurais que vem desaparecendo a cada safra. Segundo o pesquisador da Área de Socio-economia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Moacyr Doretto, que desenvolveu a pesquisa ‘‘Tipificação dos produtores paranaenses’’, as principais causas para a redução são a concentração de terras, as mudanças de atividades agrícolas e a baixa renda destas atividades.
A utilização da denominação de estabelecimentos rurais engloba propriedades rurais, arrendamentos, parcerias e outros tipos de relações de exploração da terra. Segundo Doretto, na verdade estes estabelecimentos não deixaram de existir. ‘‘Esta terra não desapareceu e sim mudou de dono, através da compra ou do arrendamento ’’, comenta.
ProdutividadeA área cultivada no Estado continua estável, e as produtividades das diversas culturas têm aumentado. Para uma parte dos produtores, a atividade agrícola tem alta rentabilidade, pois investem em tecnologia e conseguem aumentar a cada ano suas produtividades. Os índices de produtividade de arroz, café, feijão, milho, todos cresceram apesar das áreas cultivadas terem permanecido estáveis, de acordo com dados levantados no período de 92 a 98. Doretto comenta que a soja foi a única exceção, porque teve sua área de plantio ampliada neste período.
Para outros produtores, a atividade tem ficado inviável. ‘‘A renda média nestas pequenas áreas é muito baixa’’, explica o pesquisador Mauro Eduardo Del Grossi, da Área de Socio-economia do Iapar, e que desenvolveu pesquisa sobre ‘‘Novo rural e pluriatividade paranaense’’, com a participação do pesquisador Antonio Carlos Laurenti que lançou recentemente um livro sobre a ‘‘Tercerização na Produção Agrícola’’. São várias pesquisas desenvolvidas pela equipe da àrea de Socio-economia do Iapar, que procuram dar uma nova luz a compreensão da realidade no campo.
Novo RuralOs números revelam, que a partir de meados dos anos 80, surgiu uma nova conformação do meio rural brasileiro, a exemplo do que já ocorre há tempos nos países desenvolvidos. Segundo o pesquisador do Iapar, Del Grossi, este ‘‘novo rural’’ é composto por três grandes grupos de atividades: uma agropecuária moderna, baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias; um conjunto de atividades não-agrícolas, ligadas à moradia, ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços; um conjunto de ‘‘novas’’ atividades agropecuárias, localizadas em nichos especiais de mercados.
‘‘Do ponto de vista econômico está havendo uma depuração na atividade agrícola, ficando no mercado os produtores mais competitivos e que utilizam mais tecnologia. Do ponto de vista social, é um problema porque as pessoas que deixam o campo engrossam as periferias das cidades’’, comenta Del Grossi.
Além do êxodo rural, o pesquisador comenta que a novidade que os números da pesquisa revelam é o crescimento do êxodo agrícola, motivada pela baixas rendas, e estimulando a mudança de atividades na áreas rurais.
‘‘Muitas destas ‘‘novas’’ atividades são, na verdade, seculares no País, mas
não tinham até recentemente importância econômica’’, explica Del Grossi. Eram atividades de fundo de quintais, hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais, etc.), que foram transformados em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes.
‘‘Antes pouco valorizadas e dispersas, estas atividades passaram a integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo, na maioria dos casos, não apenas transformações agro-industriais, mas também serviços pessoais e produtivos’’. comentou Del Grossi.
Nesse processo, a produção agrícola passa a ocupar cada vez menos o tempo total de trabalho das famílias rurais e a agricultura passa a responder apenas por parte do tempo de ocupação e da renda dessas famílias. Como consequência dessa queda da renda agrícola, observa-se uma crescente importância das atividades e rendas não-agrícolas entre as famílias rurais. Segundo estudos de Dell Grosso, ‘‘ esse fenômeno é tão forte e rápido que nossos dados apontam que em 1998 o total das rendas não-agrícolas já ultrapassou o montante das rendas agrícolas recebidas pelos moradores rurais. Isso significa basicamente que as atividades agropecuárias já não respondem pela maior parte da renda da nossa população rural nesse final de século’’, destaca.
Os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores da Área de Sócio economia do Iapar vão ser apresentados no Congresso Mundial de Sociologia Rural que será realizado de 30/7 a 5/8 no Rio de Janeiro.

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