O rebanho do Brasil para produção de carne a pasto tem genética e boa sanidade. Mas os problemas começam a aparecer agora, na época da seca, entrada do inverno, com a falta de alimentação adequada. A pastagem entra num período de menor produção, afetando quantidade e qualidade de alimento a disposição do rebanho, e o desempenho dos animais depende de um suplemento alimentar.
‘‘A alimentação na seca é hoje um dos grandes gargalos da pecuária brasileira,’’ afirma o superintendente técnico da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Luiz Antônio Josakian. Segundo ele, um animal na seca, sem alimentação adequada, perde cerca de 50% do que conseguiu ganhar na safra das águas. ‘‘Geralmente esta fase coincide com a recria (o boi magro), uma fase da produção que o pecuarista deveria tentar eliminar da sua atividade. Eliminando essa fase conseguiríamos encurtar o ciclo de produção em dois anos.’’ No período de inverno, mesmo que ocorram chuvas, não há rebrota nos pastos que entram em estado de dormência.
Prevenir é melhor A fase de recria vai de junho a outubro, no período seco, quando não existe qualidade ou quantidade de pasto. Boas alternativas de alimentação dos animais nesse período têm surgido como a rotação de pastagens, ou a vedação. Mas a maioria dos pecuaristas ainda não despertou para a necessidade de procurar alternativas à esse período, muitas devem ser adotadas a partir do verão, como prevenção para o inverno.
Segundo Josakian, hoje quase a totalidade da produção brasileira de carne é feita no sistema pastoril, com uso restrito de suplementação, o que dificulta a manutenção ou mesmo o ganho de peso durante o inverno.
De acordo com Josakian, quando o pecuarista encontrar alternativas viáveis para alimentar os animais nesse período; ‘‘para que os animais deixem de perder parte do que engordaram nas águas ou pelos menos se mantenham melhor, será possível encurtar o ciclo de produção e, consequentemente lucrar mais com a atividade.’’
Lição de 2000 Dependendo da região e clima onde está o rebanho, muitos pecuaristas não fazem a preparação de alimentos para fornecer ao gado no inverno. Este alimento pode ser em forma de feno ou silagem, ou ainda uma capineira, como a cana-de-açúcar.
Nas grandes extensões do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, por exemplo, onde há também grandes rebanhos, normalmente os pecuaristas se previnem menos, já que a ocorrência de geadas e inverno mais intenso são mais raros. Não foi o que aconteceu no ano passado, quando geou em todo o País, inclusive nos dois Estados.
‘‘Tanto no inverno rigoroso quanto em situação de inverno ameno há necessidade de fazer suplementação alimentar se o objetivo é promover ganhos de peso nos animais durante o inverno’’, lembra a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), Valéria Euclides.
‘‘No mínimo será necessário um sal proteinado’’, ressalta Valéria. O tipo de suplemento a ser fornecido e a quantidade a ser suplementada, segundo Valéria, fica na dependência do desempenho desejado. De acordo com a pesquisadora, para sistemas de produção baseados em pasto são necessários alguns cuidados a fim de manter boa produtividade durante o período de inverno.
‘‘Dentre esses sistemas podem ser mencionados os seguintes: conservação do excesso de forragem produzida durante o período das águas na forma de feno e/ou silagem, vedação de pastagens para produção do feno-em-pé, produção de silagem de milho ou sorgo, produção de cana-de-açúcar, plantio de pastagem de inverno. É importante notar que todas essas alternativas devem ser implementadas durante o período das águas’’, avisa a pesquisadora.
Para quem não tomou nenhuma providência, segundo Valéria, restam agora poucas alternativas. Uma delas seria o confinamento com a compra do volumoso de terceiros. ‘‘Fazendo o confinamento o pecuarista pode liberar o pasto para outras categorias de animais, reduzindo a lotação. Em algumas regiões, onde as condições são favoráveis, pode-se usar a irrigação no pasto. Uma outra alternativa é o fornecimento de concentrado no cocho; que não tem se mostrado economicamente viável. Restam ainda o arrendamento de pasto ou a venda de animais.’’
Para qualquer suplementação em pasto, mesmo para a situação de manutenção do peso dos animais durante o inverno, há necessidade de ter disponibilidade de forragem. O pecuarista e veterinário Alexandre Kireff, de Londrina, que mantém criação de nelore no Paraná e no Mato Grosso do Sul, conta que depois do ‘‘susto’’ do ano passado, quando a geada queimou os pastos e, depois a seca, não possibilitou uma boa recuperação das áreas, muita gente se preveniu para este ano.
‘‘Ainda bem que tivemos um bom verão e houve condições de fazer um volume de pasto maior. A massa da pastagem ainda está em condições satisfatórias para o gado. Daqui para frente será preciso fornecer o sal proteinado, ou, dependendo do clima, um volumoso extra,’’ afirma. Precavido, Kireff, que sempre forneceu o sal proteinado aos animais, este ano fez também uma boa estocagem de aveia.

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