Neloristas defendem uso do puro
Criadores da raça acreditam na produção do novilho precoce, a pasto, sem precisar do cruzamento com gado europeu
Cláudia Barberato
Arquivo FREficiência
Touros nelore puros, criados a campo, também podem resultar, na cruza com vacas da mesma raça, no novilho precoceO Brasil tem condições de clima, rebanho e pastagens para fazer o chamado ‘‘boi verde’’. A afirmação é do presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Jaime Santos Miranda, sobre a produção do novilho precoce. O precoce é um animal abatido aos 24 meses ou dois anos. A média brasileira de idade para o abate ainda é de quatro a cinco anos. Miranda afirma que o precoce pode ser feito com a raça pura, o nelore apurado, criado totalmente no pasto.
De acordo com o dirigente, o nelore proporciona uma carne macia e de qualidade. ‘‘A Associação está iniciando um projeto de valorização da carne bovina nacional, que representa 3% do Produto Interno Bruto. A raça representa 85% do rebanho bovino nacional. São 90 milhões de animais puros e mestiços, responsáveis pela produção anual de 4,5 milhões de toneladas de carne bovina.’’
Pasto em carneA produção do ‘‘boi verde’’ precoce, segundo Miranda, visa transformar pasto em carne ‘‘muito mais que outras raças, utilizando menos medicamentos, e oferecendo uma carne de qualidade superior, com gordura externa no ponto certo.’’ Miranda faz o novilho precoce a pasto no Mato Grosso, com abate aos 24 meses de idade e peso entre 16 e 17 arrobas. Ele aproveita o incentivo fiscal que aquele Estado dá ao abate precoce.
Nos Estados Unidos, segundo Miranda, 95% dos animais produzidos no sistema precoce, são alimentados com grãos no cocho. ‘‘Com a nova mentalidade ecológica, hoje, tem-se a certeza de que o Brasil é o único País que vai conseguir produzir animais precoces somente a pasto. Além das condições climáticas favoráveis no País e da alimentação farta, o nelore é rústico.’’
Pecuária e agriculturaAntes de pensar em fazer o nelore para o abate aos 24 meses, lembra Miranda, o pecuarista tem que encarar a pastagem como cultura. É preciso adubar, trocar capins antigos, entre outros manejos. Com os animais, usar a melhor genética da raça. ‘‘Desde que se dê as mesmas condições que se dá aos cruzados, é possível que o nelore renda a mesma precocidade para o abate’’.
Miranda garante que o criador que tenha vacas nelore ou aneloradas pode usar reprodutores de comprovado ganho genético no cruzamento entre os animais da mesma raça. ‘‘Quando se trabalha com reprodutores melhoradores é possível conseguir o desfrute do animal aos 24 meses, com peso entre 16 e 17 arrobas’’.
No manejo alimentar o criador terá que proporcionar ao gado pasto de boa qualidade. No manejo sanitário, planejar boas condições de saúde para as vacas, que sejam boas mães e amamentem bem os bezerros. E no uso de reprodutores, escolher os machos melhoradores, que proporcionem aos filhos a herdabilidade genética.
Volta às origensOs objetivos de criação da raça nelore e seu uso na reprodução de animais foram sendo desviado ao longo dos anos’’, afirma Miranda. Hoje tem-se a falsa idéia, segundo ele, de que com a raça nelore só é possível produzir fêmeas, para serem cruzadas com raças européias. ‘‘O que é um erro.’’
O criador, de acordo com Miranda, tem que procurar melhorar cada vez mais seu rebanho; tanto os machos quanto as fêmeas, buscando animais de melhor acabamento de carcaça, animais mais pesados em idade mais jovem, fêmeas com habilidade materna capazes de desmamar bem os bezerros. ‘‘Tudo isso a raça nelore já tem. Está faltando usar e dar condições de alimento e sanidade aos animais. Um rebanho puro pode produzir crias com os mesmos resultados obtidos em animais cruzados (zebu com europeu); desde que se dêem as mesmas condições de manejo.’’
Falta de reprodutoresAlguns pesquisadores em pecuária reafirmam a possibilidade de se fazer o novilho precoce sem usar o cruzamento. Os criadores, no entanto, na sua maioria, reclamam da falta de reprodutores para isso, além dos gastos com alimentação.
Na opinião de Miranda a falta de reprodutores, entre outras coisas, pode ser creditada também à acomodação dos próprios pecuaristas. ‘‘Muita gente compra um lote de bezerros, por exemplo, separa a ‘cabeceira’ (os melhores animais) e usa como reprodutores, em vez de procurar genética dentra da raça. Não se preocupam em ‘fazer’ bons reprodutores na propriedade. Tecnologia para isso já existe através da compra de sêmen de bons animais.’’
EficiênciaMiranda acredita que ‘‘a nova pecuária, em que a eficiência é que manda’’, deverá mudar essa situação. Segundo ele, quem não pensar em conseguir animais precoces, usando tecnologias necessárias para aumentar a sua eficiência, ‘‘está fadado ao insucesso’’. É preciso, recomenda o dirigente, mudar alguns conceitos na cabeça dos pecuaristas. Quem já tem o animal puro não precisa se arriscar, pode fazer investimentos no melhoramento do seu rebanho e produzir um animal precoce.
De acordo com dados da ACNB, o Brasil tem um rebanho de 140 milhões de cabeças, das quais estima-se que 80% sejam aneloradas, o que representa aproximadamente 100 milhões de animais. A partir dos registros de animais controlados pela Associação Brasileira de Criadores de Zebu, com sede em Uberaba (MG), a estimativa é de 115 mil animais controlados em todo o País.

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