Cláudia Barberato
De Londrina
A Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) pretende ampliar o uso da raça na produção do novilho precoce e criar uma marca específica de carne para atender o mercado interno e de exportação. O primeiro passo já foi dado, segundo o presidente da ACNB, Carlos Viacava, com avaliação e abate de animais no mês de setembro no 1º Julgamento de Carcaças de Novilhos Nelore do tipo comercial.
A prova contou com a participação de 679 cabeças de nelore (625 castrados, 36 novilhas e 18 machos inteiros, com idade entre 18 e 30 meses), pertencentes a 20 produtores de São Paulo. A avaliação final escolheu as 20 melhores carcaças, para detectar a porção comestível, que é o rendimento de carne limpa, sem ossos e sem gordura.
Todas as 20 carcaças apresentaram porção comestível acima de 70% da carcaça do animal vivo (que é a média do nelore) e a carcaça campeã pesou 273,6 quilos, com 74,27% de porção comestível.
Carne de qualidadePara definir a carcaça campeã, o critério adotado foi uma porção de área de olho de lombo (porção de carnes nobres) de cada uma delas. A partir daí, foi obtido o cálculo matemático da porção comestível. O resultado final foi divulgado no final de setembro, em Uberaba (MG), durante a 28ª Exposição Internacional de Nelore (Expoinel/99).
A divulgação foi feita pelo professor da Universidade de Campinas (SP), Pedro Felício, que coordenou a avaliação. O projeto da ACNB tem apoio da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), do Fundo de Desenvolvimento Pecuário de São Paulo (Fundepec) e deverá estender-se por outros Estados, com abates periódicos para avaliar a qualidade do nelore que está sendo criado no País.
Qualidade‘‘O uso do nelore para fazer o novilho precoce de qualidade já é uma realidade, mas precisamos comprovar suas qualidades através de provas técnicas como essa, diz Viacava. Segundo ele, a raça nelore é a maioria do rebanho de bovinos no Brasil (151,2 milhões de cabeças no total) e também atende às exigências dos consumidores internacionais, através da exportação de cortes tradicionais do traseiro.
Viacava lembra que o ajuste da taxa cambial, que estava defasada depois da alta do dólar, fez o Brasil voltar a exportar mais carne. ‘‘Este ano a exportação deverá fechar em US$500 milhões, com perspectivas de US$1 bilhão no ano que vem. É preciso aproveitar este momento’’, analisa Viacava.
Avaliação técnicaO primeiro abate para avaliação de carcaça e porção comestível de carne do nelore precoce foi feito no início de setembro, no frigorífico Bertin, em Lins (SP). A prova foi executada em duas etapas.
Na primeira etapa, segundo o gerente executivo da ACNB, Eduardo Pedroso, cinco jurados escolhidos pela ABCZ, ACNB, Frigorífico Bertin, varejistas de carne e um criador avaliaram os animais, como é feito em uma pista de julgamento.
Os critérios de avaliação foram homogeneidade, caracterização racial e acabamento visual das carcaças. Na etapa seguinte os animais foram abatidos para análise de frigorífico. Com ajuda de um computador, o professor da Universidade de Campinas (SP), Pedro de Felício, com ajuda do professor Bento da Costa Carvalho Júnior, também da Unicamp, selecionou as 20 melhores carcaças, que apresentaram peso entre 250 e 280 quilos.
‘‘O objetivo da ACNB é divulgar essas informações, mostrando as melhorias e os ganhos em qualidade dos novilhos da raça, resultado do investimento em genética, realizado nos últimos anos’’ avisa Pedroso. Segundo ele, o propósito é estimular a realização de eventos deste tipo em outros Estados, além de atrair intressados em conhecer as qualidades do nelore.
A ACNB criou recentemente a categoria de sócio produtor, em que qualquer pecuarista com algum tipo de envolvimento (cria, recria e engorda), com a raça nelore pode se associar. ‘‘Muitos dos pecuaristas que participaram do abate para avaliação da precocidade não eram nem sócios da ABCN, que soma 500 associados, mas quer chegar a 30 mil’’, afirma Viacava.
Profissionalização ‘‘O criador tem que produzir bois mais jovens. A realidade econômica exige que o pecuarista seja profissional’’, afirma Viacava. Ele acredita que esta realidade já está se modificando entre a classe produtora. ‘‘Acabou aquele pecuarista que não sabia nem quantos bois tinha no pasto’’, garante.
A modernização na pecuária pede, segundo Viacava, abate precoce e uso de tecnologias para ganho de peso como suplementação na seca, quando necessário; mineralização dos animais; pastos piqueteados com cerca elétrica e adubados, entre outros manejos.
Para chegar a carne de marca nelore a ACNB, segundo Viacava, pretende trabalhar não só com criadores de animais de elite, mas de todo o gado nelore. O objetivo é fazer o chamado boi verde, aquele que come só capim, mas tem genética e é econômico. ‘‘O nelore produz carne precocemente e barata. Essa carne tem grande aceitação na Europa,’’ afirma.
Viacava acredita na viabilização da marca da carne nelore em um ou dois anos. Segundo ele, será necessário um volume de abate semanal de cinco mil animais. ‘‘O objetivo não é fazer uma butique de carne ou trabalhar somente com cortes nobres. Queremos fazer uma carne para o povo em geral. E não somente lançar um produto e depois sair do mercado. Para isso é preciso volume para manter a oferta de animais criados em bom pasto, bem manejados, de genética garantida e saudáveis,’’ avalia Viacava.

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