Cristina Côrtes
Na história da humanidade são inúmeras as iniciativas de cooperação mútua.
Seguindo o exemplo da natureza, que é um sistema integrado, onde cada partícula depende da outra para garantir sua própria existência, o homem desde a sua origem descobriu a vantagem da ajuda mútua, desenvolvendo atividades baseadas na cooperação em quase todas as civilizações.
No início essa cooperação aconteceu em âmbito tribal pela união de tribos próximas contra inimigos comuns (outras tribos, animais de grande porte, etc.) ou para trabalho conjunto, seja na coleta de frutas, na caça ou na pesca.
Na Babilônia, muito antes de Cristo, já existia um sistema de exploração, em comum, de terras arrendadas. Na Grécia antiga havia diversas formas de associações, entre as quais as que objetivavam garantir enterro e sepultura decente aos seus associados. No México, os indígenas organizavam-se em comunidades chamadas ‘‘ejidos’’, hoje transformadas em cooperativas integrais de produção agrícola. O mesmo aconteceu com os indígenas peruanos que, organizados em comunidades chamadas ‘‘ayllos’’, semeavam e colhiam suas lavouras com instrumentos de propriedade coletiva, repartindo os frutos do trabalho de acordo com a necessidade de cada um.
HistóricoNo início do século XIX começou a Revolução Industrial. Em 1808, os norte-americanos lançaram às águas o primeiro barco a vapor. Em 1914, o inglês Stephenson construiu a primeira locomotiva, transformando radicalmente o sistema de transporte. Walt provou a aplicabilidade da máquina a vapor nas fábricas e introduziu uma reforma profunda na indústria.
A economia, que desde a Idade Média era corporativista, ou seja, exercida por corporações profissionais, nas quais o artesão exercia sua atividade em casa ou numa dependência anexa, passou por uma mudança radical, em que as corporações perderam seu lugar a favor do capitalismo empreendedor.
Este, mediante salários, contratava profissionais para trabalhar na sua empresa, onde se instalavam máquinas industriais, mais rápidas e eficientes, com as quais o operário-artesão não podia competir. Crianças a partir dos nove anos de idade passaram a ter jornada de trabalho de 12 horas e os adultos chegavam a trabalhar 16 horas diárias, sem nenhum sistema previdenciário ou segurança no emprego.
A mecanização da indústria, ao mesmo tempo que fazia surgir a classe assalariada, promovia o desemprego em massa e, em consequência, a miséria coletiva e os desajustes sociais. A intranquilidade social tornou-se campo fértil para a formação das mais variadas oposições ao liberalismo econômico. As primeiras idéias cooperativistas surgiram, sobretudo, na corrente liberal dos socialistas utópicos franceses e ingleses do século XIX e nas experiências que marcaram a primeira metade desse século. Estava em voga, então, grande entusiasmo pela tradição de liberdade, confiando-se na possibilidade de atuação da vontade humana sobre a evolução, de modo a corrigi-la ou reformá-la. Ao mesmo tempo, esses intelectuais socialistas pregavam o ideal de justiça e de fraternidade.
É como expressão deste quadro intelectual, aliado ao movimento operário e reagindo às condições de extrema exploração então existentes, que são lançadas as primeiras sementes do Cooperativismo Moderno.
UtopiaSempre houve pessoas que, inconformadas com a sociedade em que viviam, aspiravam organizar uma sociedade ideal, onde reinasse a justiça, a paz, a ordem e a felicidade, eliminando as diferenças econômicas e implantando o bem-estar coletivo.
Assim podem ser citadas a obra de Platão ‘‘A República’’, a de Tomas Morus (1470 - 1535) ‘‘Utopia’’, a ‘‘Cidade do Sol’’, de Tomás Campanella (1568 - 1639) e ‘‘A Nova Atlântida’’, de Francisco Bacon (1561 - 1626). Todos eles tiveram influência direta ou indireta no surgimento do Cooperativismo.
É interessante ler também sobre as idéias e experiências dos precursores do Cooperativismo. Citamos alguns: Hohn Bellers (1654 - 1725). Nascido na Inglaterra, tentou organizar cooperativas de trabalho, para terminar com o lucro e as indústrias inúteis.
PrecursoresCharles Fourier (1772 - 1837), foi o idealizador das cooperativas integrais de produção, criando comunidades onde os cooperados tinham tudo em comum. Essas comunidades eram chamada de falanstérios. Nasceu na França.
Robert Owen (1771 - 1858), nascido na Inglaterra, é considerado o pai do Cooperativismo, pois dedicou a sua vida e investiu os seus bens para criar uma forma de substituir a competição e a ganância, pela cooperação.
William King (1786 - 1865), também inglês e amigo de Robert Owen, tornou-se um médico famoso e se dedicou ao cooperativismo de consumo. Engajou-se em prol de um sistema cooperativista internacional.
Felipe Buchez (1796 - 1865), nascido na Bélgica, buscou criar um cooperativismo autogestionado, independente do Governo ou da ajuda externa. Na França ele tentou organizar ‘‘associações operárias de produção’’.
Louis Blanc (1812 - 1882), espanhol, viveu na França e foi um grande político. Ele se preocupou com o direito ao trabalho, defendendo a liberdade baseada na instrução geral e na formação moral da sociedade. Esses homens prepararam o terreno e lançaram as sementes do atual sistema cooperativista.
Primeira CooperativaO surgimento do Cooperativismo como empreendimento sócio-econômico aconteceu na Inglaterra em 1844, na cidadezinha de Rochdale, perto de Manchester. Sob a crescente ameaça de serem substituídos pelas máquinas a vapor e com o agravamento do estado de extrema miséria da classe operária, 28 tecelões reuniram-se para buscar outra alternativa de trabalho e sobrevivência.
Baseados na experiência dos precursores do Cooperativismo e tentando evitar seus erros, esses pioneiros traçaram o seguinte plano de ação:
a. fundação de um armazém para fornecimento de alimentos e vestuários aos cooperados;
b. construção ou compra de boas casas para os cooperados;
c. montagem de uma linha de produção que garantisse trabalho aos cooperados sem emprego ou com salários irrisórios;
d. compra e arrendamento de terrenos para cultivo, pelos desempregados, para posterior divisão da terra em propriedades individuais;
e. destinação de parte das sobras à criação de um estabelecimento para a instrução e o desenvolvimento moral dos cooperados;
f. dentro das possibilidades, organização do trabalho e da educação, além de ajuda a outros grupos, visando a fundação de novas cooperativas.
O idealismo desses tecelões e, sobretudo, o realismo de adequar o projeto às suas possibilidades de execução, constituindo uma pequena cooperativa de consumo no então chamado ‘‘Beco do Sapo’’ (Toad Lane), foi que deu alicerce ao movimento cooperativista. Apenas dois cooperados atendiam na cooperativa. Um entregava os produtos e outro recebia o dinheiro.
Essa nova forma de organização foi motivo de deboche por parte dos comerciantes vizinhos, que previam vida curta para essa iniciativa. Para surpresa geral, a união dos operários em torno da cooperativa prosperou.
No final do primeiro ano de atividades, a cooperativa aumentou seu capital integralizado de 28 para 180 libras. Em 1855 ela já contava com 1.400 cooperados.
DesenvolvimentoAtualmente o cooperativismo atua na produção e distribuição de mercadorias, agropecuária, consumo, crédito, transporte, educação, bancos, seguros, habitação, pesca e toda ordem de serviços. Ele é aceito por todos os Governos, não encontrando nenhuma barreira ideológica, pois inegavelmente contribui para o desenvolvimento de todos os países. Por isso encontramos cooperativas no Brasil, na Rússia, no Japão, nos EUA, em Cuba, na China ... enfim, no mundo inteiro.

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