Natural de corpo e alma
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sexta-feira, 29 de julho de 2005
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Em meio à crise, o agricultor londrinense Ely Moritz é exemplo de esperança. Mesmo sofrendo os reveses que limitam o avanço da agropecuária nacional, como o aumento nos custo e a baixa remuneração, sua maior preocupação é garantir qualidade de vida à sua família e amigos e, quem sabe, contribuir para a mudança na mentalidade da população brasileira. Neste Dia do Agricultor, tudo o que o homem do campo precisa é de estímulo para saber que o trabalho não é em vão. Que a terra ainda é o bem mais precioso da humanidade. ''É só estudarmos a história dos povos. Nenhuma civilização sobreviveu sem a agricultura'', ensina.
Ao adentrar a Chácara Vale Verde, onde Moritz vive com a família, a sensação é de paz. Com um gramado cercado de árvores e flores cultivadas com gosto pelo próprio agricultor, o prazer de estar em meio à natureza e saber que tudo na propriedade é produzido com extrema dedicação e sem danos ao meio-ambiente nos faz querer ficar e aprender mais sobre uma filosofia de vida inspiradora.
De origem alemã, a família Moritz transferiu-se de Canoinhas (SC) para Londrina em meados da década de 1930. Os avós, o pai e os sete tios do produtor precisaram de 17 dias para chegar ao novo destino, exaltado pelos jornais como ''uma região de terras férteis e sem saúva''. ''Eles vieram em dois carroções de madeira puxados por dois cavalos'', conta.
No início, a família dedicou-se ao cultivo do café em uma área onde hoje localiza-se o Jardim Alto da Boa Vista (Zona Norte). A geada de 1975 dizimou os cafezais e eles tiveram então de diversificar a produção. Investiram na fruticultura com o plantio de uva niagara e morangos.
A paixão pelo campo motivou Moritz a cursar agronomia na Universidade Federal de Viçosa (MG) e com os conhecimentos adquiridos na faculdade, ele voltou para Londrina com uma visão diferente da agricultura. ''Nessa época surgiram as primeiras idéias de produzir alimentos sem uso de produtos químicos'', diz.
A transformação da propriedade de cinco alqueires, localizada no Distrito da Warta (Zona Norte de Londrina), começou há 15 anos. Há cinco, ele já produz amoras e morangos orgânicos, vendidos na região. ''A comercialização é praticamente personalizada para casas de produtos naturais e clientes antigos que ligam pedindo o produto. Algumas vezes a venda é tanta que falta produto'', comemora.
Para o agricultor, a alimentação natural é prerrogativa de uma vida saudável. ''Como o peixe, o homem está morrendo pela boca. O grande mal da sociedade atual, tão violenta, é a má alimentação. Ninguém sabe o que está comendo e como o alimento pode influenciar as atitudes pessoais'', declara.
Para ele, o campo empobreceu. Hoje, o que se vê são grandes fazendas mecanizadas, que expulsaram o homem da terra, causando o inchaço das cidades. Sem trabalho, o lavrador precisa morar em favelas e viver em meio à violência. ''O agricultor de hoje é imediatista e se preocupa apenas com o lucro, deixando de lado a qualidade do alimento que colocará na sua própria mesa'', aponta.
Exemplo de conscietização, Moritz sugere a criação de cursos voltados à agricultura orgânica nas universidades, além da realização de campanhas que estimulem os consumidores. ''É preciso esquecer essa cultura de querer levar vantagem em tudo e começar a procurar o que é melhor para a gente'', finaliza.


