Nasce mais gente do que morre
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sexta-feira, 13 de julho de 2001
Jota oliveira 
Nos países desenvolvidos população se estabiliza e as mulheres têm no máximo 2,1 filhos por ano. Em algumas nações, como Alemanha, o nascimento tem crescimento negativo, isto é, em vez de aumentar os nascimentos, os filhos morrem mais do que nascem.
Por isso, em outubro de 1999, a população mundial chegava 6 bilhões de pessoas, segundo informe da ONU. E o crescimento da população global continua, a um ritmo de 78 milhões de pessoas, com o risco de escassez de recursos naturais e aumento da contaminação ambiental.
De 1,5 bilhão de habitantes do início do Século, no ano 2.050 serão 8,9 bilhões de pessoas sobre a Terra, onde atualmente pelo menos 1 bilhão vive em pobreza absoluta. Para a ONU, os 98% de aumento da população do Planeta se devem à explosão demográfica nos países menos desenvolvidos, sobretudo em amplas regiões da África e Sudoeste da Ásia, em que as mulheres têm em média 5,5 filhos cada uma.
A população da Europa, América do Norte e Japão, ao contrário, está diminuindo. Em 61 países dessas regiões, as mulheres têm em média 2,1 filhos. Os EUA são o único país industrializado que revela aumento da população, por causa da imigração. A ONU calculou também que metade da população mundial tem atualmente menos de 25 anos, enquanto 40% dos habitantes de 62 países da África, Ásia e América Latina têm menos de 15 anos.
Segundo os especialistas da ONU, o aumento da população da Terra coloca em risco os recursos naturais. As consequências mais evidentes nos próximos anos serão a escassez de água, de alimentos, a perda de florestas, a contaminação atmosférica e as mudanças climáticas. O uso dos recursos não é equilibrado, pois os cinco países mais ricos do mundo consomem 66 vezes mais recursos do que os cinco Estados mais pobres.
A fome e desnutrição ainda atingem 800 milhões de pessoas, em todo o mundo. Estas são as maiores preocupações da Terra. No último Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro, a FAO reconheceu, no ano passsado, a magnitude do problema, mas comunicou que será impossível reduzir o número de famintos à metade, até 2015. O compromisso, assumido pelos países que participaram da Cúpula Mundial da Alimentação, há quatro anos, fica adiado para 2030.
É na África e nos países mais pobres da Ásia e da América Latina que não se consegue vencer a fome. As causas seriam fenômenos climáticos, como inundações que destróem as plantações, secas que colocam a perder toda a safra dos países atingidos. Ou, ainda, as guerras entre nações, agravando o quadro de miséria e insegurança alimentar. De fato, existem os problemas climáticos e das guerras. A fome é inevitável nessas circunstâncias.
Recentemente, o bispo de Duque de Caxias e membro da coordenação do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar, dom Mauro Morelli, comentando a forma como a fome no mundo é interpretada, disse que se diviniza o problema. Transfere-se a responsabilidade para algo sobre o qual os homens não podem intervir.
A postura da FAO, quando atribui a fatores climáticos ou mesmo a guerras tribais às causas da fome, sem assumir os modelos de desenvolvimento hegemônicos, é de deificação. E sem ter coragem de dizer que, mesmo entre os países mais desenvolvidos, alastram-se os bolsões de miséria e cresce a insegurança alimentar.
Para se discutir o problema, o caso brasileiro é exemplar. O País não tem impedimentos para produzir alimentos na quantidade necessária para toda a sua população. No entanto, quase 30 milhões de pessoas passam fome. Esses milhões de brasileiros não têm acesso aos alimentos que necessitam, porque não têm como comprá-los ou não possuem acesso aos bens de produção, como a terra, a água.
Por trás da fome, o desemprego, as políticas concentradoras de renda, a ausência de uma reforma agrária que dê terra e recursos para produzir, para milhões de famílias sem-terra. Por trás da desnutrição, a ausência de prioridade à saúde, à educação, à dignidade das pessoas.
A fome não é uma maldição divina, mas o resultado de modelos de desenvolvimento, cuja lógica está fundada na exclusão de muitos para o enriquecimento de poucos. Ou na espoliação de nações inteiras e na destruição do meio ambiente, para quando nada mais haver para tirar; deixar esses povos exauridos se matarem. Como vem ocorrendo frequentemente na África.


