Não se deve excluir alimentos, mas saber escolhê-los
A despeito dos riscos de contaminação por agrotóxicos, especialistas afirmam que a população não deve se privar do consumo de hortaliças, legumes e frutas. Mas alertam que é imprescindível o papel de órgãos governamentais em coibir o uso indiscriminado de produtos e, do seu lado, a população deve saber escolher os alimentos para diminuir os riscos de ingerir resíduos de agrotóxicos usados no cultivo das olerícolas.
Para o consumidor, o problema é que os efeitos dos agrotóxicos são cumulativos. Ao contrário do que ocorre com o trabalhador rural que sofre a intoxicação imediata quando aplica os produtos, ao consumir os alimentos as pessoas não sentem os efeitos tóxicos. Porém, o prejuízo vem com o tempo. Os resíduos dos agrotóxicos podem provocar distúrbios no sistema imunológico, o organismo fica mais suscetível a infecções e podem ocorrer casos de câncer.
A coordenadora do Centro de Controle de Intoxicações (CCI) do Hospital Universitário de Londrina, a farmacêutica Conceição Turini afirma que a utilização dos agrotóxicos é inerente ao cultivo convencional de olerícolas. ''O problema é que muitas vezes o produto é aplicado em doses inadequadas e em culturas para as quais não é indicado'', diz.
Conceição afirma que os produtores não respeitam as normas para a utilização dos agrotóxicos. Segundo ela, a legislação brasileira estabelece o Limite Máximo de Resíduo (LMR) para cada produto, que nem sempre é obedecido. O nível de resíduo é monitorado pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (Para), por meio de coleta de amostras nos supermercados. ''Os levantamentos demonstram muitas irregularidades'', diz Conceição, que cobra dos órgãos governamentais uma fiscalização efetiva.
Outra norma utilizada para o controle do uso dos produtos é a Ingestão Diária Aceitável (IDA), índice calculado por uma tabela de miligramas do princípio ativo do agrotóxico por quilo de peso corpóreo (mg/kg).
Os resíduos dos produtos podem ter ação de contato, quando ficam na superfície dos alimentos. Mas também há os produtos que agem no interior das plantas e parte deles não é eliminada. ''Esses resíduos acabam se acumulando no corpo humano'', explica a pesquisadora. E as complicações para a saúde são tardias.
Conceição afirma que a população pode diminuir os riscos da ingestão dos resíduos diversificando os alimentos que consome. Desta forma, não ficará sujeita a um só tipo de agrotóxico. Segundo ela, não há estudos que comprovem a eficácia de procedimentos para a remoção dos resíduos na hora do preparo dos alimentos. Uma alternativa é a escolha de produtos da época (ver quadro nesta página).
Quando a intoxicação acontece por exposição aos produtos, como no caso dos trabalhadores rurais, é mais fácil diagnosticar e tratar. De acordo com Conceição, o caso se agrava quando há exposição a múltiplas substâncias. Em muitos casos, a pessoa fica exposta a inseticidas, herbicidas e fungicidas. ''Cada um tem uma toxicidade diferente e há uma interação entre os produtos''. diz.
Os sintomas de intoxicação em pessoas que manuseiam os agrotóxicos na lavoura são dor de cabeça, náusea, vômitos, diarréia, distúrbios do sistema nervoso. Os organofosforados e carbamatos - que compõem os inseticidas - também provocam sintomas como transpiração e salivação excessivas, tremores, diminuição do diâmetro da pupila. A longo prazo a exposição excessiva pode provocar alterações hormonais e endocrinológicas e diminuição da fertilidade.
De acordo com a coordenadora do CCI, o número de casos de intoxicação por agrotóxicos tem se mantido estável. Em 2008, dos 189 atendimentos, 35 casos (18,5%) foram de intoxicações de trabalhadores rurais; 45 casos (23,8%) foram de acidentes com produtos; e 99 casos (52%) foram de tentativas de suicídio e homicídio. Conceição destaca que os casos de intoxicação de trabalhadores são subnotifcados. ''Muitas vezes a pessoa, conhecendo os sintomas e formas de tratamento, não procura o hospital'', afirma. No ano passado, o CCI atendeu um total de 1.332 casos.





