Além da sanidade, a pecuária brasileira precisa ter qualidade, preço, competitividade e isto implica uma mudança de mentabilidade do pecuarista. A conquista de novos mercados será para quem apresentar maior agressividade e souber explorar nichos.
Estados Unidos e Japão, por exemplo, não compram carne de países e regiões onde a febre aftosa não esteja erradicada e os rebanhos precisem de vacinação (caso do Paraná e dos outros estados do Circuito Centro-Oeste – São Paulo, Distrito Federal, partes de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso).
O certificado de zona livre de aftosa com vacinação foi uma conquista, mas não é tudo. Certificados são necessários, principalmente no caso da OIE que tem autoridade mundial para tomar decisões de peso econômico. O desafio agora é fechar acordos com a União Européia. Dependendo da oferta em outros mercados, as regras sobre sanidade podem ser ^^endurecidas’’. Fala-se até que países da União Européia são capazes de desviar a discussão para os carrapatos, que ainda são um grande problema no País, ou outras doenças, e esquecer que o Brasil pode fazer um boi alimentado de capim, com carne de qualidade.
A vacinação é apenas uma etapa no processo e depende da conscientização do produtor. O Governo do Estado quer envolver toda a cadeia produtiva da carne na vacinação contra febre aftosa que começou na última quarta-feira e vai até o próximo dia 20. A liberação do Paraná da condição de Estado livre da doença com vacinação não foi fácil; manter essa condição é mais difícil ainda. Não se quer que aconteça aqui o mesmo episódio do Rio Grande do Sul, onde houve descuido em manter a sanidade do rebanho.
Da porteira para dentro da propriedade é importante cobrar a postura dos pecuaristas. Ainda tem gente que compra vacina de menos; compra e não vacina, ou compra e joga fora. ‘‘Onde tem gente e animal, tudo pode acontecer’’, já alertou o secretário de Agricultura do Paraná, Antônio Leonel Poloni.
Da porteira para fora a conscientização de quem comercializa carne clandestina, à procura de sonegação ou de preço menor, ou dos dois, também é necessário manter o rigor de fiscalização e punição. Do contrário, o Paraná poderá perder o status de zona livre e a condição de aumentar a exportação de carne.
Frigoríficos e abatedouros têm o papel de adquirir e abater somente animais oriundos de rebanhos com controle sanitário; exigir condições higiênicas para os veículos que transportam o produto; o que vale também para os laticínios. Comerciantes, leiloeiros e expositores devem efetuar transações ou eventos com animais procedentes de rebanhos com controle sanitário.
A imagem do País já foi afetada com o episódio do Rio Grande do Sul, onde milhares de bovinos tiveram que ser sacrificados. A cidade de Jóia, onde apareceu a doença, vivia em função da pecuária e teve toda a sua economia afetada em devido ao problema.
No Paraná este ano, garantiu o secretário de Agricultura, a figura do vacinador oficial deverá ajudar a manter o índice de vacinação perto de 100%. O acordo assinado entre prefeituras e conselhos de sanidade animal permite solicitar o vacinador onde for preciso.
Poloni está cobrando também o envolvimento de toda a sociedade para fiscalizar e denunciar possíveis omissões. Não só aqueles pecuaristas que não fazem a vacinação, mas também quem compra ou comercializa carne clandestina sem inspeção, com ossos, ou provenientes de pontos do País ou fronteiras que possam comprometer a sanidade do rebanho paranaense.
O único instrumento eficaz para manter o status é continuar, vacinando. O Paraná quer pedir à Organização Internacional de Epizootias (OIE), a liberação sem vacinação, mas isso ainda é coisa para daqui dois anos ou mais.
Caiu apenas uma barreira, mas é preciso derrubar outras tantas (sanitária e políticas) que estão por vir. O status livre de doença é um dos fatores que facilitam, mas não asseguram, por enquanto, mercado comprador de países como Estados Unidos e Japão, entre outros.
Para manter ou ampliar as exportações, é preciso continuar o trabalho de controle sanitário do rebanho. As indústrias também terão que fazer o seu papel, com investimentos em modernização. O Paraná tem frigroríficos habilitados para exportação aos países da União Européia. Alguns deles já vendem carne bovina e miúdos também para Ásia, Israel e África do Sul, entre outros países. Pode vender carne cozida e congelada para os Estados Unidos, mas segundo os donos de frigoríficos o interessante seria vender in natura. Romper essa corrente da cadeia produtiva, apenas pela falta de vacinação, é no mínimo ignorância. E é bom não vacilar porque, esgotado o item aftosa, virão outras zoonoses. Tanto que o Governo brasileiro prepara-se para lançar em breve uma campanha de controle de duas zoonoses: tuberculose e brucelose.
A autora é repórter da Folha Rural.

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