Nada substitui a água da chuva
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sexta-feira, 23 de maio de 1997
Cristina Côrtes 
Marcos BorgesProdutividadeO milho irrigado consegue maior produtividade, independente do período de estiagemA utilização da irrigação ainda é insignificante no Brasil e também no Paraná, Estado que responde pela produção de 25% dos grãos brasileiros. Dos seis milhões de hectares (ha) agricultáveis no Estado, estima-se que apenas 100 mil ha sejam irrigados. A tecnologia, que é amplamente difundida em outros países, começa agora a ser tornar mais acessível aos produtores brasileiros, pela redução de preço.
Segundo o agrônomo Miguel Afonso Vargas, que trabalha com projetos de irrigação há mais de 15 anos, o custo de implantação de um sistema de irrigação até na década de 80 variava em média de US$ 4 a US$ 5 mil dólares por hectare (ha), e hoje gira em torno de US$ 1,5 por ha.
Vargas explica que este custo é relativo, pois o projeto vai depender das condições de cada área.A concepção de irrigar não deve ser a de substituir a chuva, pois nada se compara com a água de chuva, mas sim de fornecer uma quantidade certa de água em determinado estágio de desenvolvimento.
VantagensO uso da irrigação é mais difundido entre os produtores de hortaliças e flores, porque sem esta tecnologia, simplesmente não é possível produzir competitivamente estas espécies. Mas alguns produtores já começam a despertar para a irrigação em outras culturas, como o café, milho, soja ou trigo.
As vantagens da irrigação são muitas. A primeira delas é que o produtor pode programar seu plantio e colheita para a época mais propícia, sem ficar totalmente na dependência do tempo. De acordo com o planejamento de cada área, o produtor pode chegar a ter três safras por ano, com boa rentabilidade e sem correr riscos, comenta o agrônomo Seiji Igarashi, da empresa Decisão - Tecnologia Agropecuária S/C Ltda., de Londrina.
O agrônomo alerta que a irrigação, considerada uma tecnologia de ponta, só dá bons resultados quando outras práticas de manejo e condução da cultura são adotadas também. Não basta jogar água de qualquer maneira. Tem que haver um planejamento e acompanhamento técnico para a implantação de um projeto de irrigação eficiente, diz Seiji.
A fertirrigação é outro benefício. Ao mesmo tempo em que se joga a água, aplica-se o fertilizante ou outros insumos necessários, na mesma operação, economizando tempo e mão-de-obra. O agrônomo lembra que a irrigação deve ser feita na quantidade certa, no horário adequado e na época que a planta necessita, para ter o melhor resultado.
AutomatizaçãoO conceito de irrigação mudou bastante nos últimos anos. A irrigação convencional com aspersores e canhões evoluiu para técnicas como gotejamento, microaspersão, e tudo isso automatizado através de pequenos microcomputadores que comandam as operações necessárias. Um pequeno microcomputador custa em torno de R$ 500,00 e pode programar a irrigação para a madrugada, que é o melhor horário para molhar a terra e também com menos custo porque utiliza a energia fora do horário de pico.
Vargas informou que a implantação de projeto deste tipo não sai caro. Recentemente instalaram equipamentos automatizados em l9 hectares (ha) de café adensado, a um custo aproximadado de R$ 1.800,00. Numa área de milho e feijão irrigado em São Paulo, o produtor está conseguindo colher 10 mil quilos/ha de milho e 50 sacas/ha de feijão.Isto representa 3 a 4 vezes mais do que a média do Paraná, comenta Vargas.
No Brasil, a irrigação tem sido mais utilizada em áreas onde os solos são mais pobres. Seiji cita como exemplo, no Paraná, a região de Mauá da Serra, que tem solos pobres, aplica tecnologia e consegue produzir mais do que muitas áreas nobres de alta fertilidade.
Em outros países, irrigar é uma prática bastante comum, sendo um dos fatores responsáveis pelas altas produtividades alcançadas, principalmente nos Estados Unidos.
InvestimentoO retorno do investimento feito em irrigação varia de acordo com a cultura que estiver sendo explorada. No café, por exemplo, leva uns quatro anos, mas em hortaliças é bem mais rápido. A vida útil dos equipamentos em média é de 20 anos para pivô central e 10 anos para gotejamento.
Segundo Seiji Igarashi, o produtor não deve pensar em implantar irrigação apenas para uma cultura, mas para um sistema em que ele possa explorar também outras alternativas. No caso do trigo, o agrônomo diz que o retorno da lavoura não compensa um investimento exclusivo para sua produção, mas se pode viabilizar com outras culturas. O produtor pode plantar soja em outubro, colher em janeiro, depois plantar feijão e depois o trigo, tendo uma receita mensal, diz.
Para o trigo é fundamental a irrigação no período de germinação, no perfilhamento, na elongação do colmo (que vai definir o tamnho da espiga) e no florescimento. Se a planta sofre estresse hídrico nesta fase, pode ter parte de sua produtividade comprometida, destaca.
Para um bom projeto devem ser considerados fatores como o tipo de solo, qualidade da água, distância da fonte até a lavoura, histórico da área e tipo da cultura.


