Na ponte do rio Caxias
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de maio de 2019
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR, leitor da FOLHA 
As tecnologias que hoje entretêm não existiam antigamente. Ainda assim, diversão era algo que não faltava. Ao findar o dia de labuta nos cafezais, Mauro, o mais velho da família Barussi, subia o carreador que dava acesso à estrada principal e descia até o rio, onde se encontrava com os colegas. Na ponte do rio Caxias, a garotada ficava horas conversando, rindo de coisas miúdas, palpitando sobre a vida e o futuro. A ponte era o lugar de encontro, quase que diário, daqueles jovens acostumados a uma vida pacata e de poucos acontecimentos. Vez ou outra, a contar nos dedos, passava um veículo envolto numa nuvem de poeira que parecia tragar os seus ocupantes. Em dias de chuva, ao contrário, os veículos deslizavam na lama.
Num final de tarde – com o sol tímido deslizando o poente, depois de alguns dias seguidos de chuva –, um acontecimento colheu a atenção de todos. Um caminhão de bebidas derrapou na cabeceira da ponte e atolou a roda traseira no charco que margeava a estrada. Algumas pedras evitaram que o caminhão derrapasse por inteiro e fosse engolido pelas águas do rio, de modo que o acidente não colocou em risco a vida do motorista e de seu ajudante.
A notícia correu rápida por toda a vizinhança. Quando a informação chegou a casa dos Barussi, Mauro correu para a cabeceira do sítio em direção a estrada e dali seguiu a passos largos até a ponte, certo de que os amigos já estavam todos lá. No caminho, encontrou uma multidão, igualmente apressada, ávida para ver o ocorrido.
Ao chegar na ponte, Mauro viu o caminhão quase deitado no leito do rio. As rodas dianteiras estavam empinadas no ar e a carroceria afundada na lama. Todos opinavam sobre a forma mais acertada de arrancar o possante daquele lamaçal. Com recursos escassos, a saída razoável foi descarregar a carga e aliviar o peso do bruto. Os mais jovens se dispuseram a ajudar. Foram deitando na margem da estrada os engradados de guaraná e de cerveja. Já havia escurecido e a rapaziada se divertia com tudo aquilo.
O caminhão só foi retirado no dia seguinte, quando o sol já havia secado parte da estrada. Os engradados foram novamente depositados na carroceria. O motorista e seu ajudante notaram a falta de muitos vasilhames. Acreditaram, porém, que haviam se perdido no rio. Alguns chegaram a dizer que a correnteza havia levado as bebidas rio abaixo e que provavelmente os ribeirinhos do rio Ivaí já estariam tomando guaraná que misteriosamente surgiam das águas.
Mauro ficou sabendo, depois, que um dos colegas havia escondido muitas garrafas entremeio ao cipoal cravado nas pedras que margeavam o rio. Por muitos dias, sempre aos finais da tarde, a rapaziada se encontrava na ponte do rio Caxias para conversar e tomar guaraná geladinho retirado das pedras do rio. Apesar de ter criticado a atitude do amigo na época, Mauro ri ao relembrar a história e diz que aquilo foi fruto de aventura pueril.
“Por muitos dias, a rapaziada se encontrava na ponte do rio Caxias para conversar e tomar guaraná geladinho retirado das pedras do rio”


