Música, muita música. De qualquer ritmo ou estilo. Depois de uma boa alimentação, esta é a regra básica para a boa produção de leite no curral do sítio dos produtores Eugênio e Salete Schwertz, do assentamento Antônio Tavares Pereira, em Querência do Norte. ''A música acalma as vacas e assim, nada atrapalha a ordenha'', justifica Salete, apontando para o ponto fixo do rádio na parede do estábulo.
O casal faz parte das famílias de pequenos pecuaristas beneficiados com recursos do programa Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS), do Banco do Brasil. O programa chegou ao município em 2005 e, por decisão de um conselho de lideranças, foi montado exatamente para diagnosticar as necessidades e planejar as ações pela melhoria de renda na agricultura familiar (veja matéria nesta página).
''Decidimos nos dedicar exclusivamente para a produção do leite'', explica Eugênio. ''Até agora a lavoura só nos deu prejuízos'', completa a esposa. O casal, que é só sorrisos, lista os benefícios que a atividade vem trazendo e que tem influência direta na melhoria da qualidade de vida. O principal deles é poderem custear o estudo do filho adolescente em um colégio agrícola em Campo Mourão. ''Com certeza vamos poder pagar a faculdade também'', dizem com convicção, estendendo a expectativa também para a filha de 12 anos.
Investimento produtivo - No início do ano eles receberam do banco R$ 36 mil que foram investidos na compra de vacas holandesas, uma ordenhadeira e materiais para a construção de uma esterqueira e do novo curral.
Do rebanho de 34 animais, 23 estão em produção e respondem por 450 litros de leite por dia, em duas ordenhas - antes do investimento na produção a retirada diária era de 150 litros. A renda mensal, na atual boa fase do leite, chega bem próxima a R$ 10 mil. No dia em que a equipe da FOLHA esteve na propriedade, o casal finalizava a compra de mais três vacas ''puras''. ''Já com o dinheiro do leite'', informa Salete sobre a origem dos recursos para o pagamento dos animais.
''Independentemente do preço, o leite sempre garante uma renda'', diz o casal. A propriedade de 20 hectares tem os pastos divididos em piquetes, com áreas tanto prontas para pastoreio como em recuperação e formação, além das linhas de eucalipto. ''Sem sombra para as vacas também não há produção de leite'', completam. Na divisão dos piquetes a opção foi pelo uso de cercas elétricas. ''Não exige tanta madeira e tem um custo baixo'', explica o produtor.
As árvores, plantadas há mais tempo, são classificadas como ''poupança verde''. ''Se não tívessemos lucro com a produção, teríamos a madeira para garantir alguma renda'', justifica Salete. O plantio segue as orientações do sistema de produção silvipastoril.
Mobilidade com cochos-trenós - A qualidade do leite é prioridade no sítio. Por isso, o reforço na alimentação dos animais com suplementos e silagem. A utilização de cochos-trenós garante a alimentação mesmo em troca de piquetes. ''O esterco dos animais no entorno do cocho reforça a adubação da pastagem'', diz Salete. Entre os cuidados com a produção a higiene na retirada do leite também é destaque. A área de coleta foi calçada e os resíduos da limpeza são levados para um fosso. ''Ainda não está como gostaríamos, mas com a construção do novo estábulo, isso aqui vai ficar chique'', brinca.
Até a coleta pelos caminhões do laticínio, o leite fica guardado em um freezer. A compra do resfriador é outra meta na lista de investimentos. Apesar da satisfação com a entrega do produto in natura, o casal sonha com a instalação de uma pequena fábrica de queijos. E já se prepara para isso participando dos cursos de capacitação oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-PR).
A vocação para a produção de leite o casal herdou dos parentes que residem em Capanema, sudoeste do estado. O sonho de ter o próprio sítio os trouxe para Querência do Norte, há 9 anos, com um grupo de outros produtores militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Há seis anos a propriedade foi regularizada, informa Salete. ''Trouxemos três vaquinhas leiteiras que nos garantiam a comida do dia'', recorda sem nenhuma saudade. ''Lá ninguém acredita o quanto estamos bem''.

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