Na abertura de uma série de palestras e reuniões para discutir o tema ‘‘A Sociedade da Informação’’, promovidas pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), o diretor da divisão de Informação e Informática da Agência das Nações Unidas para Assuntos de Ciência, Educação e Cultura (Unesco) em Paris, Philippe Quéau, disse que o papel da entidade nessa ‘‘sociedade da informação’’ é proporcionar a troca de idéias e conhecimento entre os povos, bem como encontrar um meio de atingir a todos nesse processo.
Quéau é graduado em Engenharia e especializado em Ciência da Informação e da Comunicação, pela Escola Prática de Estudos Superiores em Ciências Sociais, de Paris. Em sua palestra em Brasília, ele lembrou-se do sociólogo Marshall McLuhan, pai da teoria da Aldeia Global. ‘‘Precisamos do conceito de Casa
Comum nessa aldeia’’, disse.
Segundo Quéau, isso significa, em outras palavras, que toda sociedade precisa
ter acesso à informação igualitariamente, respeitando as diferenças entre as
sociedades, unindo-as em função dessa diversidade. Para isso, é preciso discutir o bem-estar comum e adotar uma ação comum para alcançá-lo. ‘‘Nós
precisamos urgentemente de um Mundo Comum, em oposição ao Mundo Global’’, observou.
Ao citar a globalização como um efeito nem sempre benéfico para as
sociedades, Quéau referiu-se ao relatório de março de 98, publicado pela União Internacional das Telecomunicações, atestando que no mundo há vários bolsões ainda sem acesso a serviços básicos de telecomunicação. Mas isso se deve, segundo o relatório, muito menos a uma questão de fundos, e há uma tendência da indústria da telecomunicação se expandir cada vez mais - e o ano de 1996 foi o mais produtivo - e assim o problema da falta de acesso a esses serviços será sanado naturalmente.
Philippe Quéau contra-argumenta fortemente essa posição e diz o que pensa a
Unesco a respeito do assunto: ‘‘Haverá sempre vencedores e perdedores no
mundo emergente da Sociedade da Informação e o problema do acesso às
telecomunicações, por exemplo, não se resolverá miraculosamente por causa das
virtudes imanentes dessa indústria. Afinal, como as novas tecnologias em
informação e comunicação poderão ajudar 4 bilhões de pessoas que vivem com
menos de US$2 por dia?’’, questiona.
Em sua palestra, Quéau enfatiza por várias vezes a globalização como fator de distinção entre as sociedades, o que fica evidente no capítulo ‘‘Um globo, várias tribos e muitos guetos’’.
Ele observa que a Sociedade da Informação Globalizada não é vantajosa para todos os países. Para Quéau, a globalização parece encorajar mais o relativismo ao invés de promover valores universais e a universalidade como um valor. O Planeta como um todo, destacou o especialista, não está democraticamente representado, exceto por organizações internacionais, tais como as Nações Unidas.
Por isso, ele defende a popularização dos softwares e acha que os governos dos países precisam investir no desenvolvimento de softwares de domínio público. ‘‘Isso será absolutamente vital em poucos anos, quando for cada vez mais imprescindível que se equipem todas as escolas do mundo com facilidades
computacionais básicas. E, se nós não quisermos pagar uma taxa global para a
Microsoft, os computadores do setor público deverão usar o software de
domínio público’’, alertou.
Privacidade de informação é também uma estratégia importante, segundo
destaca Philippe Quéau. Ele observa ainda que os interesses comerciais não
estão dispostos a responder a questões sobre direito de propriedade sobre
informações pessoais; se devem ser de domínio pessoal ou daqueles que detêm
o processo de transmissão dessas informações. Quéau indaga, dentro deste
contexto, em que nível de anonimato e privacidade a proteção é desejável.
Segundo ele, a resposta é essencialmente uma questão filosófica e política.
No mercado das telecomunicações dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido,
por exemplo, apontou Quéau, buscou-se sempre regular e restringir o
comportamento anti-competitivo (cartel) das operadoras dominantes, sem
sucesso. Mas os usuários acabam correndo o risco, comenta ele, de estarem
sendo servidos por um mercado em que a política de competição oferece, na
verdade, muito poucas opções competitivas.
Por isso, Quéau defende que hajam reguladores que teriam o papel de garantir o máximo de bem-estar comum. ‘‘Eles devem redefinir o paradigma do acesso
universal, qual deve ser o nível mínimo do serviço oferecido aos usuários, entre outras funções’’, destaca. Quéau defende também uma política global de
fiscalização. ‘‘Por que não imaginar numa taxa de telecomunicação global, taxa
de computador global, taxa de energia global, que colaborariam para reduzir as
dificuldades ao acesso a informação?’’, sugere.
O diretor da Informática da Unesco em Paris cita ainda o caso da Internet.
Diz que os usuários com base nos Estados Unidos não pagam pelo acesso
internacional na rede mundial de computadores, pagamento que acaba sendo
feito pelos usuários e servidores não americanos, baseados fora dos Estados
Unidos. ‘‘É injusto’’, opina. Segundo Quéau, o retorno da prestação de serviços destinados ao mundo inteiro acaba indo apenas para os operadores americanos.
‘‘Atualmente, a Internet serve como um banco de informações onde os usuários
não americanos acessam websites vindos dos Estados Unidos’’, diz. Em
contraponto a essa constatação, ele defende o interesse geral dos usuários e
acha que a Unesco deve dar voz a essas questões, particularmente no que
tange às aplicações educacionais.
‘‘Em suma, precisamos de uma aproximação humana, e as novas tecnologias da
informação e da comunicação devem simplesmente nos servir e não devemos ser
escravizados pela informatização. Afinal, que tipo de civilização devemos tentar construir, que tipo de instrumentos são necessários para que tenhamos todos acesso à informação e, por fim, qual o papel da Unesco nesse processo?’’. A resposta ele mesmo já dera na palestra, ‘‘propiciar a troca de idéias e do conhecimento’’.
Resumidamente, Quéau considera a informação como uma arma que deve ser
usada a favor da Humanidade, não para segregá-la. ‘‘Muita informação é apenas
barulho’’, observa ao criticar o excesso de informação em que vive o mundo
globalizado. Por causa disso, a Humanidade está perdendo o contato com a
realidade, o calor humano. Ele considera importante, assim, que nos
questionemos sobre que tipo de cidadãos queremos que nossas crianças se
tornem.
Nota da Redação: o resumo da palestra do diretor de Informática da Unesco, redigido pela jornalista Lana Cristina, da Agência Brasil, é um alerta que não se resume ao mundo das comunicações informatizadas, mas sugere uma preocupação de todos, agropecuária incluída: quais serão de fato os maiores beneficiados pela globalização?

mockup