Multiplicação de produtividade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Cláudia Barberato 
Não uma ovelha, mas uma vaca. O primeiro clone produzido no Brasil deverá ser o de uma vaca nelore, raça que reúne o maior número de cabeças criadas no País. A pesquisa está sendo feita no Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília. Paralelamente, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo, também trabalha na clonagem.
A clonagem, afirma o líder do projeto do Cenargen, Rodolfo Rumpf, não deve ser vista isoladamente, mas articulada a outras tecnologias de multiplicação animal, como por exemplo, a inseminação artificial, a transferência de embriões e a fecundação in vitro, entre outras. Na produção animal atende tanto a programas de melhoramento genético como a regeneração de recursos genéticos em vias de extinção, afirma.
Ganho de tempoEstudos prevêem que o uso integrado dessas tecnologias poderá assegurar em um ano o ganho genético equivalente a 12 anos de seleção. Outra possibilidade de uso seria a produção de animais idênticos para experimentos de nutrição e imunologia, por exemplo.
O Cenargen está investindo há três anos na formação de recursos humanos e montagem do laboratório para a transferência de núcleo. Diferente do que foi utilizado no caso Dolly (clonagem de ovelha feita na Escócia), no Brasil a produção de clones está sendo feita a partir da transferência de núcleos celulares de embriões bovinos jovens, de alta linhagem genética, para óvulos de vacas comuns, cujos núcleos tenham sido previamente retirados.
De acordo com Rumpf, no ano passado foi possível a aquisição dos últimos equipamentos essenciais e, neste momento, estão sendo conduzidos ensaios preliminares para início dos experimentos propriamente ditos. A expectativa é obter, ainda este ano, os primeiros embriões e, quem sabe, as primeiras gestações a partir de embriões reconstruídos.
A clonagem dos animais pode ser feita pela separação das células do embrião (blastômetros) logo nos primeiros dias de desenvolvimento, ou pela técnica da transferência nuclear. A reconstrução de um embrião pela transferência nuclear consiste na fusão de um núcleo doador a um citoplastma receptor. O óvulo maduro, apto a ser fecundado, é usado como citoplasma receptor. Pode-se usar também um óvulo horas depois da fecundação (zigoto ou ovo).
Nos dois casos casos retira-se o DNA nuclear e se mantém o citoplasma com suas organelas. No primeiro caso a ativação do óvulo, que normalmente ocorre pela entrada do espermatozóide, é obtida por eletrofusão. Como célula doadora de núcleos usam-se blastômetros de um embrião no estágio mórula (cinco a seis dias após a fecundação), células do botão embrionário (células responsáveis pela formação do feto) ou células somáticas, como no caso Dolly.
No trabalho desenvolvido pelo Cenargen, inicialmente, de acordo com o pesquisador, serão utilizados óvulos maduros, previamente enucleados (sem núcleos), e núcleos de células de embriões (blastômetros) de cinco a seis dias (mórulas). Cada embrião neste estágio possui entre 40 e 60 células e o objetivo é identificar o sexo do embrião e obter de cinco a sete clones fêmeas por embrião doador.
Marco histórioDe acordo com Rumpf alguns métodos de produção de embriões clones vêm sendo usados há décadas. Inicialmente, a separação de células de um embrião nos primeiros dias de seu desenvolvimento, tentou-se copiar o que naturalmente ocorre com o tatu, e não raramente com a espécie humana (gêmeos idênticos). No entanto, do ponto-de-vista de produção, o número de descedentes produzidos por esta técnica é limitado.
Nos anos 50 os pesquisadores conseguiram clonar embriões de anfíbios por uma técnica denominada transferência nuclear. Eles usaram um embrião como a fonte doadora dos núcleos e vários ovócitos como citoplasmas receptores. Desta forma, primeiro retiravam o material genético dos ovócitos (enucleação), para em seguida fazer a fusão do citoplasma receptor com a célula embrionária doadora de núcleo. Assim foi possível produzir embriões geneticamente idênticos, pois as células embrionárias possuíam o mesmo material genético.
Só depois de duas décadas a técnica conseguiu ser repetida em mamíferos (em coelhos) e apenas em 1987 nasceu o primeiro bezerro clone. Mas o real avanço ocorreu no início da década de 90, com o estabelecimento da técnica e emprego em modelos comerciais. Os embriões reconstruídos são cultivados no laboratório por sete dias; depois são transferidos para mães de aluguel.
Atualmente, a obtenção de um clone de seis a sete indivíduos, a partir de um embrião de aproximadamente 64 células (cinco dias de idade), é um bom resultado, afirma Rumpf. Segundo ele, os clones obtidos por transferência nuclear não são 100% idênticos, pois as informações genéticas existentes no citoplasma receptor (herança citoplasmática) podem influenciar o fenótipo dos futuros indivíduos.
O nascimento de Dolly - analisa Rumpf -, clonada a partir de um animal adulto num trabalho da equipe de Ian Wilmut, do Instituto Roslin, da Escócia, foi um marco para a ciência. Até então nunca fora possível produzir em laboratório nenhum mamífero a partir de um animal adulto. Esta façanha deve-se ao fato de ter sido possível reprogramar uma célula adulta, altamente diferenciada e especializada, ao estágio inicial do desenvolvimento embrionário.
Novos campeõesNa experiência brasileira, mesmo usando pais de alta linhagem genética, será preciso esperar que os clones cresçam até a idade adulta para avaliar as qualidades genéticas. Isto porque se partiu de uma célula de embrião jovem e não se sabe como os genes dos pais se combinaram para formar o embrião que dá origem aos clones. No caso da experiência na Escócia isso não aconteceu, porque se partiu de um único animal (a ovelha mãe), cujas características hereditárias são perfeitamente conhecidas, para fabricar um clone que é uma cópia exata deste animal. Mas o trabalho, observa Rumpf, é muito difícil de se realizar.
No Brasil a pesquisa trabalha para desenvolver um método capaz de ser repetido em larga escala e multiplicar um rebanho de animais campeões em produção de carne ou leite. Enquanto a superovulação e a transferência de embriões faz uma vaca de alta linhagem gerar cerca de 10 filhos por ano, a clonagem por transferência de células embrionárias poderá permitir uma produção anual de 800 crias por vaca.


