Não há espaço para machismo na agricultura familiar. Com pouca ou nenhuma ajuda de mão-de-obra externa à família, as pequenas propriedades não podem se dar ao luxo de prescindir das mulheres. Elas, por sua vez, se revelam fortes, batalhadoras, dispostas a aprender e, por que não, tomar as rédeas do sistema.
  Está aí para provar Aparecida Navarro Molina, 46, agricultora de Cruzeiro do Sul (64 km ao norte de Maringá) e personagem mais eloqüente que encontramos ao longo da excursão. Junto com o marido Izaías, 51, e um casal de filhos, ela toca a propriedade de 7,5 hectares na qual a produção leiteira e a olericultura são as principais atividades. ‘‘Acabou-se a história de que a mulher tem que ficar parada. Se eu ficar só fazendo tricô, a gente não chega a lugar nenhum’’, sentencia.
  A disposição de dona Cida foi fundamental para que a família conseguisse transformar a propriedade de apenas sete alqueires, adquirida em 1997, num negócio diversificado e rentável. Tudo numa região de solo arenoso e sem deixar dívidas para trás, lembra o extensionista Valter Martins Pessoa. Mas a produtora afirma que a família ‘‘ainda está engatinhando’’. ‘‘Estamos dando muito valor a essa ajuda (da Rede), porque quando começamos não sabíamos fazer muita coisa. É lógico, existem as quedas. Tem dia que dá vontade de chutar o balde. Mas se desistirmos, vamos fazer o quê? Morar onde?’’, pondera.
  A filha do casal, Denise, 22, completa a importante participação das mulheres no sistema. Junto com a mãe, ela faz o registro de dados e ajuda na fabricação de queijo e requeijão. Aparecida sustenta que a jovem é peça-chave na engrenagem da propriedade mesmo quando se dedica apenas às tarefas domésticas. ‘‘Se eu posso estar aqui lidando na lavoura é porque ela está lá dentro, na retaguarda’’, observa. Detalhe: Denise concilia as atividades com as aulas na faculdade de Nutrição, em Paranavaí.
  Titular de um extenso currículo no campo e na cidade, Nelci Lipreri, 46, é outra figura feminina que se destaca nas Redes. Ela e o irmão assumiram as atividades no sítio dos pais, em Ampére (57 km a oeste de Francisco Beltrão), e se desdobram para dar conta das pastagens e lavouras de soja e milho. Nelci desistiu dos planos de ser freira aos 15 anos, concluiu o Ensino Médio, foi doméstica e professora. Ao voltar para a roça, não se acomodou: estimulada pela Rede, fez vários cursos e continua buscando novidades.
  ‘‘Agora estou aplicando homeopatia no gado, já tivemos alguns bons resultados. Minha mãe sempre me incentivou a estudar. Fiz o curso de empreendedor rural e aprendi muito. A propriedade é uma empresa, você tem que negociar, tem que reivindicar’’, conclui.

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