CAFEICULTURA CONDUZIDA POR MULHERES -

Mulheres são protagonistas na produção de café

Projeto conduzido por agricultoras do Norte Pioneiro consegue elevar 30% o resultado na área de cafés especiais

Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

O projeto Mulheres do Café, promovido pelo Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural), surgiu em 2013 e tem gerado bons resultados, principalmente no segmento de cafés especiais. O Norte Pioneiro foi a primeira região a formalizar o Sub Capítulo da IWCA Brasil (Aliança Internacional das Mulheres do Café) e ganhar o reconhecimento do projeto como referência entre os trabalhos desenvolvidos nos países onde a Aliança está presente. “As Mulheres do Café surgiram porque meus colegas, que trabalhavam há muito tempo na área, perceberam que a transformação da propriedade acontecia com mais facilidade quando as mulheres participavam das qualificações técnicas”, afirma Cíntia Mara Lopes de Souza, economista doméstica e coordenadora do programa criado pelo Emater de Pinhalão.


Participam do projeto do Emater cerca de 250 mulheres de 11 municípios
Participam do projeto do Emater cerca de 250 mulheres de 11 municípios | Divulgação
 




“Antes, quem estava cuidando da tulha e tendo os cuidados com armazenamento do café era a mulher, mas quem participava da qualificação era o marido. Quando criamos o projeto falaram que a gente estava dando mais trabalho para as mulheres, mas na realidade criamos para qualificar e dar mais visibilidade para o trabalho dessa mulher”, ressalta a coordenadora. “Aconteceu o que a gente previa. Acredito que o volume de produção de cafés especiais da região tenha aumentado mais do que 30% desde 2013, quando começamos”, relata Souza.






Ela diz que a adoção da produção do café especial é um processo de transformação e mudança de hábito. “Os resultados estão aí. No concurso de café Qualidade Paraná, desde 2015 as mulheres têm ocupado pelo menos alguma das três primeiras posições entre os melhores cafés em cada categoria. Eu me sinto muito satisfeita e feliz, porque eu percebo o resultado do meu trabalho”, destaca.  “Embora eu seja da área social, acompanho todas as reuniões da área técnica produtiva. Elas se sentem acolhidas em ser atendidas por uma mulher e eu consigo ajudar. Elas estão evoluindo e se tornando pessoas mais independentes”, destaca.


Mulheres são protagonistas na produção de café
 




Ao todo são atendidas aproximadamente 250 mulheres divididas em 12 grupos de Mulheres do Café de 11 municípios da região do Norte Pioneiro: Curíúva, Figueira, Ibaiti, Japira, Jaboti, Pinhalão, Tomazina, Siqueira Campos, Salto do Itararé, Joaquim Távora e Carlópolis. A Emater promove reuniões técnicas, encontros, visitas técnicas, cursos e colabora na valorização do café produzido pelas cafeiculturas. 




PEQUENAS PROPRIEDADES


“O perfil das mulheres é composto principalmente por proprietárias de terra com área de produção que varia de um a 15 hectares, mas a maioria está na faixa que mantém entre um e quatro hectares de café, o que equivale de cinco mil a 20 mil pés de café.  Não são grandes propriedades e a maioria não é mecanizada e usa majoritariamente a mão de obra familiar. Essa característica torna mais fácil determinar alguns pontos que favorecem a qualidade”, declara.



Segundo Cíntia de Souza, a mulher tem um olhar criterioso para identificar o ponto correto de colheita, o ponto de maturação. Isso faz com que a colheita seja mais seletiva. “As mulheres desenvolvem melhor que os homens essa observação mais criteriosa. Os cuidados pós-colheita também são importantes na produção de um café especial. A mulher geralmente cuida mais do terreiro em relação aos homens, separando os lotes adequadamente, mexendo o café de forma adequada e no momento certo”, destaca.

Mulheres são protagonistas na produção de café
 



Com a visibilidade que a região está tendo na produção de cafés especiais, no mercado interno muitas cafeterias começaram a entrar em contato com as produtoras. “Com isso elas já tem um relacionamento comercial estabelecido. Isso é bastante importante. As produtoras sabem que anualmente podem produzir uma determinada quantidade de cafés especiais e vão ter para quem vender. E são vários estabelecimentos e micro torrefações. Isso abre um leque de oportunidades para toda a região.”, analisa.




MERCADO EXTERNO

Os cafés especiais produzidos por essas mulheres já atingiram países como a Austrália, o Japão e o mercado europeu. “Os compradores exigem a rastreabilidade e vêm visitar as produtoras de café para se certificar da origem. Eles exigem que a nota fiscal seja em nome da mulher e a conta bancária também, para ter certeza de que elas terão acesso aos recursos. Isso faz com que o preço da saca de café atinja um valor de três a quatro vezes mais do que a saca de café comum”, enaltece a coordenadora do programa criado pelo Emater de Pinhalão, Cíntia Mara Lopes de Souza.




Souza ressalta que a demanda crescente de consumo de café especial gera a necessidade de aumentar o número de mulheres produtoras. “Ao dizer que temos 250 mulheres na associação parece bastante, mas nem todas produzem no patamar de produção de café especial. Precisamos aumentar as porcentagens de café especial das famílias que já produzem o grão. Isso pode ser feito com investimento na propriedade na separação do café verde do maduro, na melhoria do processo de secagem com estufas e terreiros suspensos, ou até mesmo com a implantação de terreiro de cimento, algo que algumas nem isso possuem. Precisamos de equipamentos de beneficiamento e padronização desses cafés, porque é uma exigência de qualquer mercado de qualidade de torrefação. É um ciclo de investimento que pode chegar em um patamar interessante para essas famílias, mas isso tem que ser conquistado de forma coletiva, mas deve haver políticas públicas que incentivem isso. Pelo fato das propriedades serem pequenas não há condições de investimento individual nesses equipamentos.”

Mulheres são protagonistas na produção de café
 



Souza expõe que a exportação do café produzido pela associação é feita por uma trading do interior de São Paulo. “Ela exporta o café das mulheres em um patamar de exportação bem maior, com os grãos com classificação acima de 85 pontos”, destaca. A coordenadora explica que o café tem uma classificação com base em uma associação internacional de cafés especiais, que é a SCA (Specialty Coffee Association), essa pontuação é feita mediante um protocolo de bebidas de café e é feita por profissionais especializados. Isso gera uma pontuação entre 0 e 100 pontos – os cafés que atingirem uma pontuação mínima de 80 pontos são aqueles que podem ser considerados especiais. Todo e qualquer café que seja considerado especial de acordo com o protocolo da SCA, precisa obrigatoriamente ser constituído em 100% por grãos da espécie arábica. 




“Eles fazem essa classificação por pontuação. Quanto maior a pontuação, melhor o café”, explica. Ela também explica que o árbitro conhecido como Q-Grader (classificador de qualidade) também estabelecem as notas sensoriais. “Eles estabelecem os índices de qualidade dentro de cada característica analisada, como por exemplo fragrância e aroma, sabor, finalização, acidez, corpo, uniformidade, balanço, doçura, ausência de defeitos. Eles dão atributos que a gente conhece como as notas sensoriais de chocolate, açúcar mascavo, mel, enfim, toda a roda de sabores estabelecidas pelo SCA”, destaca.



RECONHECIMENTO DO TRABALHO



A presidente da AMU Café (Associação das Mulheres do Café do Norte Pioneiro), Nira de Souza, possui 42 anos e é de Tomazina. Ela afirma que a associação é um sonho realizado. “É uma conquista. Representa liberdade, autonomia e dignidade para nós mulheres, porque é o reconhecimento do nosso trabalho”, salienta. “Temos pouco tempo de associação, mas já evoluímos bastante. A visibilidade da associação está cada dia maior, e a busca pelos nossos cafés não param, assim como convites para participarmos de eventos para incentivar outras mulheres a buscar o reconhecimento pelo seu trabalho”, informa.



No início, a principal dificuldade foi lidar com a desconfiança das pessoas. “Para eles era mais um grupo de mulheres que não tinham o que fazer, por isso se reuniam. Havia falta de incentivo das pessoas de nossas próprias famílias de que nós, mulheres, seríamos realmente capazes de fazer cafés especiais”, destaca. 

Mulheres são protagonistas na produção de café
 



Ela afirma que a maior dificuldade da associação atualmente é a falta de recursos para manter a associação. “Tudo envolve dinheiro. A Emater ajuda dentro do possível. Correm atrás de recursos, mas está tudo muito difícil”, destaca.



Ela espero e acredita em um futuro promissor, de muitas conquistas. “Estamos lutando diariamente, incentivando essas mulheres para que não desistam da cafeicultura, junto de suas famílias. Também buscamos ajuda do governo, para que olhe pela nossa cafeicultura  e pela agricultura familiar. Entre as 250 associadas temos semelhanças na maneira de cultivar e no processo de manejo dos grãos, mas cada uma produz dentro de sua particularidade, com sabores, notas e especiarias próprias”, explica.



“Sempre morei aqui, trabalhando com o café, mas nosso trabalho era apenas para o sustento. Com o projeto abriu uma nova visão em minha vida. De cafeicultora passei a ser uma apaixonada pelo café em todos os ciclos, desde o plantio até a degustação, passando pela torra e pela prova. Hoje sou muito feliz com o que faço. Tenho muito orgulho em dizer que sou cafeicultora e faço parte dessa associação. Minha vida mudou muito e para melhor. Sou valorizada pelo que faço e isso não tem preço”, diz a presidente. Para ela, este amor pelo café vem de muitos anos. “Minha família sempre trabalhou com café. Meus bisavós chegaram aqui nesse bairro, Matão, onde moro, em 1915. Pelas escrituras  que tenho das compras da terra, provavelmente plantaram os primeiros pés de café em 1917. Somos centenários no café. Tudo que temos vem do café. Meu pai é um apaixonado por essa cultura desde sempre.”



EMPODERAMENTO DAS PRODUTORAS


A produtora Rosana de Azevedo Felet, 48, de Carlópolis, afirma que a produção de cafés especiais tem garantido uma vida boa para ela. “Ajudou um pouco financeiramente, mas o que mais melhorou mesmo, na minha opinião, foi a questão social e pessoal. Eu vivia fechada e com o projeto fui tomando conhecimento das técnicas e fui me empoderando. Fizemos viagens para conhecer outras plantações. Isso despertou o meu interesse pela atividade da lavoura. Agora a gente sabe fazer”, garante. 



“Antes do projeto, a gente ajudava o marido trabalhando na lavoura, mas não tinha conhecimento. Com o projeto participei das reuniões que os técnicos fazem e passam informações sobre como fazer o manejo correto da lavoura, adubação, a colheita e a secagem do café. A gente faz cinco reuniões por ano e em cada uma delas é passada a orientação sobre como conduzir a lavoura”, destaca.

Mulheres lideram os primeiros lugares em concursos, como o Qualidade Paraná
Mulheres lideram os primeiros lugares em concursos, como o Qualidade Paraná | Divulgação
 



Questionada se ela consegue sentir essa diferença no sabor, ela respondeu efusivamente. “Nossa vida. Esse café especial não precisa nem colocar açúcar. É a doçura do café mesmo, com a acidez boa dele. O ponto da torra eu aprendi em um curso no Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) há cinco anos. Antigamente, nos tempos dos meus avós, os cafés ficavam com os grãos bem pretos, queimavam muito e isso dá diferença. Hoje a torra deixa o grão marronzinho para não perder a qualidade do café.” 



APRENDENDO A CULTIVAR CORRETAMENTE

A produtora Ana Maria Garcia José Correia, 38, do município de Figueira, entrou no projeto desde que ele foi implantado. “No início foi difícil eu me comunicar porque eu tinha vergonha. Desde então melhorei bem a minha comunicação com os outros. Tinha muita coisa que eu não sabia, mas com o tempo a gente foi aprendendo a cuidar do café da maneira correta. Agora sei coisas como preparar a adubagem da maneira certa e como identificar pragas e doenças”. 

Mulheres são protagonistas na produção de café
 




Na sua infância, seu pai e sua mãe já mexiam com café. “A técnica é bem diferente da que eu uso hoje. Antigamente eles jogavam o café no chão, na terra mesmo”, relembra. Os frutos eram derriçados no solo e eram secos sem lavar. “Hoje colhemos no pano e o ponto de colheita é diferente. Antigamente colhiam os frutos verdes e maduros juntos. Agora tudo é separado. Só colhemos o café cereja”, destaca.  Esses frutos ainda passam por um processo de limpeza antes da secagem no terreiro. “Lavamos os frutos e separamos os que boiam, que estão mais maduros”, destaca. A secagem também deve ser feita de maneira bem especial, mexendo a cada 15 minutos e deixando a camada bem fininha no terreiro. Conforme o café for secando, essa camada vai engrossando. Nesse processo os frutos não podem tomar chuva, caso contrário a qualidade cai muito.



“Hoje, quando bebo café dos outros, eu sinto a diferença, percebo os defeitos. Consigo identificar isso apenas provando o café. Fiquei mais exigente com o cafezinho”, destaca. Ela afirma que ainda é arrendatária da plantação de café, mas pelo projeto pretende ter sua própria plantação. “Mesmo pagando pelo arrendamento dá um lucro bom. Mas um dia eu quero ter a minha própria plantação de café. Quero cultivar somente café gourmet.”





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