Não é de hoje que a produção agropecuária é tratada pela sociedade como trabalho para homens. A característica de atividade pesada e brutal não costuma coincidir com o perfil do ‘‘sexo frágil’’. Na prática, entretanto, a realidade é diferente. Dados divulgados no ano passado pela Organização das Cooperativas Brasileiras apontam que 12% dos cargos de diretoria em cooperativas são ocupados por mulheres. Do quadro de associados elas representam 25%.
Em Londrina, a presença feminina também vem crescendo especialmente nas profissões que prestam serviço ao setor rural, como engenheiras agrônomas e veterinárias. As mulheres ganham destaque também na produção pecuária. Entre os mais de mil associados da Sociedade Rural do Paraná (SRP), 70 são mulheres e com trabalho reconhecido pelo setor. Como é o caso das pecuaristas Regina Maria Marchese da Silva e Lilia Dias de Castro.
Regina está na atividade há 20 anos e, além de cuidar da propriedade herdada do pai, ela integra atual diretoria da SRP, onde cuida da pasta de Fomento e Formação Profissional, além de ter formação como juíza de raças. ‘‘A qualidade do meu trabalho me garantiu o reconhecimento e o respeito que possuo na pecuária’’, afirma. Regina cria gados de elite das raças Nelore e Marchigiana. Ela tem dois filhos, um deles está na atividade e são sócios de um condomínio de gado nelore, o Giva. ‘‘Gerenciamos nossas propriedades em separado’’, garante.
O gosto pelo serviço segundo ela é herança de família: ‘‘está no sangue’’. A rusticidade do serviço, para Regina, nunca foi um empecilho, mas admite que ‘‘é preciso gostar muito, senão não aguenta o desconforto’’. O relacionamento com os peões, para a pecuarista, é tranqüilo. Eles já se acostumaram a receber ordens de mulher: ‘‘é preciso saber se colocar’’, resume. Sem perder a feminilidade, ela faz questão de acompanhar as atividades no pasto como o período de vacinação. ‘‘É a melhor época para se avaliar todo o rebanho’’, diz.
Já a pecuarista Lilia Dias de Castro, entrou na atividade promovendo mudanças radicais numa estrutura administrativa familiar de mais de quatro décadas. Ela foi convidada pelo pai a assumir a criação de animais da fazenda, há 12 anos, quando a propriedade passava por uma separação de sociedade. ‘‘Tudo estava parado e mal cuidado. Parti para o aprendizado vivenciando experiências até adequar ao sistema que queria’’, afirma. Sobre preconceitos ela afirma que, além da condição de gênero, teve que vencer o tabu de ser ‘‘a neta que assumia o lugar do avô’’.
A propriedade de 700 hectares possui hoje duas mil cabeças de gado, sendo um quarto do rebanho de Nelore PO. Com uma administração bem organizada, Lilia possui pessoas treinadas para a operacionalização das tarefas, assim não precisa ir diariamente à fazenda. Do escritório ela acompanha tudo e o tempo que sobra, ela ocupa em pesquisas, estudos de genealogias, ou ainda na análise da produção de outros criadores. ‘‘A rede de computadores permite o acesso mais rápido à informação’’, elogia.
Ambas são categóricas quando falam da necessidade de atualização constante. Regina cita os vários cursos técnicos que já fez, entre eles o de julgamento de raças. ‘‘Precisava enxergar melhor o animal, não só a beleza, mas detalhes, como aprumo, caracterização e a morfologia geral’’. Lilia destaca ainda a contribuição dos congressos e seminários. Além disso, aconselha que é preciso ler muito e não poupar a troca de conhecimento com os técnicos.

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