Traje completoA campeira prende os cabelos, antes de pôr o chapéu que completará seu traje de trabalhoAna Paula Sivieiro Leite costuma acordar bem cedinho, num horário em que geralmente o sol ainda nem nasceu. Antes de pegar o carro para vencer os 20 quilômetros que separam a sua residência da Fazenda Modelo, seu local de trabalho, na zona rural de Campo Grande, a Capital do Mato Grosso do Sul, ela toma um café da manhã reforçado, aqui conhecido como quebra-torto (que pode ser um arroz à carreteira, ou apenas arroz com ovos; ou ainda arroz, feijão e carne seca, seja lá que virado for).
‘‘A gente perecisa estar bem preparada, pois a lida diária não é fácil, não’’, explica. Na Fazenda Modelo, Ana Paula cumpre um ritual praticamente sagrado na profissão que exerce: preparar com carinho o animal para a montaria. Ana Paula é campeira, ou ‘‘peao’’ (feminino: peã, peoa), na definição dos mais antigos.
Peoa e peão contêm animal no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte
Conhece do ramoAos 21 anos, Ana Paula é funcionária concursada da Embrapa-Gado de Corte, sediada em Campo Grande. Em 1994, nos testes teórico e prático para contratação de três campeiros, ela ficou em segundo lugar. Ana Paula estava com 18 anos e era a única candidata concorrendo com 246 candidatos homens. Dois professores foramos responsáveis pela aplicação dos testes.
No dia 30 de deembro de 94, ela era contratada pela Embrapa-Gado de Corte e, no dia 2 de janeiro do ano seguinhte, Ana Paula passaria a cuidar do rebanho da Fazenda Modelo, juntamente com outros quatro campeiros - ou quatro peões.
Rogério Pacheco da Silva, único peão que venceu Ana Paula no concurso de 94, é um dos que aprovam o desempenho dela como campeira. ‘‘A dona aí sabe montar bem mesmo, moço’’, assegura Silva.‘‘Desde pequena eu gostei de mexer com animal e o cavalo sempre foi a minha paixão’’, fala, com orgulho, a jovem campeira.
Warren NabucoPeao, ou peoa, tem que saber manejar o laço
A convivência com os outros campeiros não foi nada fácil no começo. ‘‘É que logo que eu passei no concurso, surgiram os boatos de que eu iria colocar os outros peões no chinelo, mas não era nada disso e hoje acho que eu já ganhei o respeito deles’’, acredita Ana Paula.
Ela conta também que as amigas da cidade admiram a profissão que escolheu: ‘‘Elas dizem que acham muito bonito o que eu faço’’. A campeira afirma uwqe até já se acostumou a derrubar bois no laço, mas tem coisas, como dominar o animal no muque, que só o homem ainda é capaz de fazer.
Ana Paula tem 1,73m e pesa 58 quilos. Ela cursa a terceira série do segundo grau. ‘‘Quero fazer a Faculdade de Veterinária’’, diz. O amor pelo campo foi despertado ainda na infância. O pai administrou fazendas em municípios do interior do Estado, por muitos anos, mas agora está doente e não pode mais trabalhar; a mãe tornou-se funcionária de uma escola, para também ajudar no sustento da família. Ana Paula é filha única.
‘‘Entrei na Embrapa ganhando R$275,00 e agora já estou com um salário de R$517,00’’, salienta a campeira Ana Paula Leite. O peão Rogério Pacheco da Silva, por exemplo, ganha o mesmo salário que Ana Paula.
Na Fazenda Modelo cada peão dispõe de três a quatro animais para que possa desempenhar suas funções. ‘‘Fantasia’’, ‘‘Gaivota’’ e ‘‘Vanda’’ são as éguas que Ana Paula dispõe para atuar como campeira da Embrapa-Gado de Corte oito horas por dia. Sem, no entanto, deixar de lado a vaidade de mulher, como o inseparável brinco em formato de ca alo no lado esqeurdo da orelha.

mockup