Muito além da produtividade
Qualidade do grão e teor de proteína da soja podem, em breve, integrar também as preocupações do produtor
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sábado, 03 de agosto de 2019
Qualidade do grão e teor de proteína da soja podem, em breve, integrar também as preocupações do produtor
Victor Lopes - Grupo Folha 

Quilos por hectare. Quando o produtor pensa no final da safra de soja, certamente o olhar está quase todo no rendimento da oleaginosa, afinal, é o número de sacas que determina muitas relações comerciais tratadas ao longo da temporada. A produtividade ainda é a métrica suprema que dita muito o comportamento de quem está na cadeia. O sucesso da safra, invariavelmente, está ligado a esses números. Basta um olhar rápido para os dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para perceber isso. A evolução da produção do grão é latente: em 2013/14 a safra fechou em 86,1 milhões de toneladas. Em 2017/18 atingiu 119,3 milhões de toneladas, um incremento de 38,5% em apenas cinco safras.
Mas se o produtor olha para o volume, a indústria de farelo e óleos vegetais também está atenta à qualidade do grão. O farelo de soja é insumo fundamental para nutrição animal, destacadamente de aves, suínos e bovinos confinados, em que é necessário um teor de proteína mínimo para que seja eficiente para a cadeia. Apesar do farelo ser um dos produtos que alicerça o preço do grão atualmente, o sojicultor mundial ainda não é remunerado em relação ao teor de proteína da oleaginosa e, portanto, não se importa muito com isso – salvo algumas exceções.
Com a especialização do mercado, inclusive em relação à alimentação humana e uso de produtos proteicos de soja no cardápio, além da pressão da indústria de farelo e óleo por melhores teores de proteína, esse foco na qualidade pode mudar. Hoje a atenção do produtor está ligada mais às perdas por grãos avariados (veja mais na página 6), mas no futuro um percentual maior de proteína pode ser um fator competitivo em relação a outros países, como os Estados Unidos.
Um trabalho realizado pela Embrapa Soja há quatro safras, o projeto Qualigrãos, em dez estados produtores e cerca de 900 amostras da oleaginosa (por safra) aponta que o teor de proteína na soja no Brasil sofreu leves variações, ficando com média 36,7%. Entre 2014/15 e 2016/17 o salto no teor foi de 36,07% para 37%. Na safra 2017/18, houve retração para 36,86%, uma variação normal, segundo a Embrapa, inerente ao sistema.“Os números brasileiros têm girado em torno de 37%, o que indica uma estabilidade do teor médio no país”, explica o pesquisador Irineu Lorini, líder do projeto.
Apesar do tema ser bastante delicado, afinal, o teor de proteína é uma variável ainda pouco analisada pelo mercado, é interessante apontar que na safra 2017 o teor na soja americana, segundo o órgão responsável pela elaboração do relatório da qualidade da soja estadunidense (USSEC), ficou em 34,1%, ou seja, bem abaixo em comparativos aos números levantados no Brasil. “Para a indústria, (variação de) 1% é algo considerável. Futuramente, podemos caminhar para pagamentos maiores por uma soja com maior teor de proteína. Já vi algumas empresas fazendo contratos específicos nesse sentido”, relata o pesquisador da Embrapa Soja, José Marcos Mandarino.
Mandarino explica que quando a soja chega na indústria, são feitos alguns processos para aumentar a concentração proteica. Por exemplo, uma soja com teor de 37% pode se tornar um farelo com 48% e um concentrado de 68%, muito utilizado atualmente para rações para peixe. “Hoje, para chegar no concentrado, retiram-se os açúcares (carboidratos) da soja, através de uma lavagem com álcool. No futuro, talvez já se compre uma soja com menos desses açúcares para fazer o concentrado proteico.”
Por fim, talvez em médio ou longo prazo, o produtor olhe para o teor de proteína durante o manejo da mesma forma que se atenta a outras avarias que influenciam direto na sua remuneração. “Os tratos culturais são importantes para manter as proteínas elevadas, a inoculação das bactérias fixadoras de nitrogênio, adubação, manejo de pragas e até a quantidade de chuva na época de enchimento de grãos para formar a proteína.”



