Muitas terras nas mãos de poucos
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2002
Carolina Avansini 
A desigualdade na divisão de áreas rurais também caracteriza a ocupação no Sul do País, onde impera a falsa idéia de que não há concentração de terras
A concentração de grandes áreas rurais nas mãos de poucos proprietários, característica predominante na distribuição de terras no Brasil, se repete também na ocupação da terra no Sul do País. Para o doutor em sociologia Paulo Bassani, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é falsa a idéia de que no Sul houve um modelo de colonização diferente, com predominância de pequenas propriedades. Isso é um mito, afirmou.
Segundo o sociólogo, também nessa região a terra foi distribuída com fins especulativos, e não produtivos. As pequenas propriedades, informa, concentram-se em áreas pontuais, cercadas por grandes latifúndios. Ele lembra que o fato de movimentos sociais como o MST terem surgido no Sul coloca em cheque o mito da região como modelo de colonização. O que houve na verdade foi uma grande resistência das populações, formadas principalmente por imigrantes, em aceitar o modelo de latifúndios extensivos, analisou.
Realidade de Londrina
A divisão de terras em Londrina reflete a realidade do País. De acordo com o censo rural realizado em 1996 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no município apenas 36 estabelecimentos com mais de mil hectares (ha), que ocupam uma área total de 35.497 ha. Em contrapartida, o maior número de propriedades possui uma área média menor que cinco ha: são 744 estabelecimentos que ocupam a área total de 1.910 ha.
O IBGE também revela que 28% dos estabelecimentos não são familiares e ocupam 70% da área rural de Londrina. As unidades familiares totalizam 72% dos estabelecimentos e referem-se a apenas 29% da área total (ver gráficos). As pequenas propriedades predominam nos distritos da Warta (zona norte), Guaravera, Guairacá, Lerroville e São Luiz ( zona sul). As maiores áreas localizam-se próximas à rodovia que liga Londrina a Tamarana (62 km ao sul de Londrina), nos distritos de Maravilha, Irerê, Paiquerê e entre Lerroville e Guairacá (zona sul).
Colonização
A explicação para essa disparidade remete à colonização do município na década de 30. Segundo informações constantes no Atlas de Londrina, a Companhia de Terras Norte do Paraná adquiriu áreas do Governo do Estado na região e as vendeu em lotes inferiores a 30 alqueires, tendo sido a responsável por disseminar as pequenas propriedades em regiões férteis e propícias ao cultivo do café.
As grandes fazendas, por outro lado, foram comercializadas sem o intermédio da Cia. de Terras, conforme explicou o secretário municipal de Agricultura de Londrina, Nilson Ladeia. Os governantes venderam essas áreas a preços subsidiados para poucas famílias, atendendo a interesses políticos, comentou. O sociólogo Paulo Bassani complementa que a política da época era lançar pequenos proprietários para desbravar a região. Quando já havia uma certa estrutura, a terra passava a ter mais valor, atraindo os grandes proprietários, considerou.
A maioria das grandes propriedades de Londrina continua pertencendo às mesmas famílias. Não houve muitas compras e vendas, a estrutura se mantém, disse o secretário. Inicialmente ocupadas pelo café, hoje grande parte dessas áreas possui pastagens, atividade que gera poucos empregos. Os proprietários não moram nas fazendas. Alguns residem em Londrina e muitos moram em outros municípios, observou.
Pequenos
Segundo Nilson Ladeia, o número de pequenas propriedades em Londrina é cada vez menor. Impossibilitados de se sustentarem com a agropecuária, os pequenos acabam vendendo seus lotes para produtores médios, que possuem entre 100 e 200 ha e querem aumentar a área, principalmente para ampliar lavouras de soja e milho. Esses compradores já possuem máquinas e estrutura para plantar, só precisam de mais terras, disse. Diante dessa conjuntura, analisou, a tendência é haver aumento na concentração.
Consequências
O principal reflexo dessa alta concentração de terras atinge os pequenos produtores que vendem suas terras e vão para a cidade. Desempregados e sem condições de disputar vagas com a população urbana, eles acabam marginalizados nas periferias, aumentando as estatísticas da desigualdade social no País.
Outra consequência é econômica. Os grandes proprietários são os que mais ganham dinheiro na atividade, mas segundo o secretário, os recursos nem sempre são aplicados na agricultura. Muitas vezes, o dinheiro não fica em Londrina. Os produtores compram imóveis em outros municípios ou investem em propriedades no Mato Grosso, exemplifica.
Em regiões onde predominam pequenas propriedades, a situação é inversa. Nesse caso, as pessoas gastam na própria localidade, rendendo recursos e gerando empregos para o município, comentou. Em Tamarana, por exemplo, onde há 11 assentamentos que recebem recursos subsidiados, o desenvolvimento do comércio é crescente.
Empregos
As pequenas propriedades familiares também são responsáveis pela geração de mais empregos. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) com base no censo do IBGE, as unidades com área total inferior a quatro módulos fiscais ocupam 5.261 pessoas e geram renda total de aproximadamente R$ 10 milhões por ano. Já as propriedades com área superior a quatro módulos fiscais empregam 1.712 pessoas e geram renda total aproximada de 30,7 milhões.


