Mudanças começam no modo de ser
Robson José Curty
Não vou me ater a uma análise do desenvolvimento atual da pecuária em Maringá e sua macrorregião. Prefiro falar das perspectivas, até porque o rebanho do município ficou estagnado por muitos anos, com cerca de 630 mil cabeças, concentrados principalmente na região do arenito.
A perspectiva atual está na recuperação da fertilidade do solo arenito para o próprio retorno da pecuária de corte e leite. No lugar de um solo desgastado por uma pecuária tradicional e extrativista, o trabalho se direciona agora para a melhoria das condições de área. O mercado exige neste momento uma mudança de comportamento e não somente o uso da tecnologia mais avançada. A mudança, ao meu ver, deve ocorrer entre os produtores e também entre os técnicos.
A questão do leite é bem ilustrativa para nós. A moeda instável e a abertura de mercado levaram o produtor a mudar e o técnico a reformular sua assistência e orientação. Os modelos ‘‘importados’’, incluindo genética e até ‘‘mentalidade’’, se mostraram ineficazes. Isso porque, a tecnologia basicamente ‘‘tecnificada’’ não condiz com a exigência do dia a dia do mercado.
O produtor que insistir nos extremos da tecnificação ou do extrativismo está condenado ao fracasso. Ele deve ter preparo para lidar com a questão de custos na tentativa de livrar uma melhor renda possível. É a história de aliar alta produtividade com qualidade. Além disso, uma consciência plena da importância da cadeia produtiva pode representar sucesso ao produtor.
Acredito que o trabalho individualizado, tanto na pecuária de corte como na de leite, irá somente prejudicar o pecuarista. Ele necessita da associação, de um equilíbrio que lhe ofereça poder de barganha. A Sociedade Rural de Maringá (SRM) já está enxergando essa necessidade, mas ainda precisa encontrar mecanismos mais práticos para efetivar este trabalho.
Voltando ao assunto mais específico da pecuária de leite, ressalto que o produtor não pode encarar as orientações dos técnicos como sugestões milagrosas que irão eximir o pecuarista ao trabalho e à dedicação permanente. Pois na pecuária, as funções não devem ser delegadas. Devem ser acompanhadas de perto para a busca permanente da produtividade e qualidade.
Vamos agora aos números. O Paraná tem hoje 39 mil propriedades com tendência para reduzir a 12 mil. Apesar disso, está previsto o aumento na produção. Atualmente o Estado produz mais de 1,8 bilhão de litros de leite. A atividade emprega cerca de 45 mil pessoas diretamente e cada unidade produtiva gera outros 34 empregos. Outro dado interessante mostra que o leite in natura gera R$ 332 milhões, representando 7,26% do valor bruto estadual.
Estes números na região de Maringá revelam uma perspectiva muito boa, principalmente para a pecuária de leite. Na década de 80, a pecuária de corte representava em nossa região, 59% do abate estadual. Hoje este índice não ultrapassa a casa dos 16%. A política tributária e guerra entre os estados gerou esta queda.
Isso demonstra, que há em Maringá e região, uma ociosidade industrial com um grande potencial de retorno. Afinal, nossa indústria de abate se voltou apenas para a desossa e exportação. Apesar de expressivas, são poucas as unidades de produção em Maringá. Temos expoentes como a Leyner, uma das indústrias mais importantes do país e uma das únicas na produção de gelatina comestível, industrial e farmacêutica. Temos também curtumes, como do Central, com capacidade para o tratamento de 1.200 couros por dia.
Se repassarmos para a pecuária leiteira este potencial de transformação de produto, vamos verificar que as plantas industriais de nossa região são significativas. Vamos citar algumas, como a Lider, de Lobato, uma das únicas de leite longa vida, capaz de processar 350 mil litros por dia. Em Paranavaí, temos o Laticínios Iva e por toda a região Noroeste vamos encontrar a Leco/Vigor, a Coovape, a Centralnorte, a Colari e a Colmar, além das pequenas empresas.
Vamos verificar que os dados acima demonstram que a região é competitiva na captação de matéria prima. Além do rebanho regional com condições ideais de produção de leite, sendo considerada uma das melhores do Paraná, iremos confirmar a infraestrutura para o recebimento do produto in natura. E o principal, a região tem pago em média os melhores preços do país ao produtor.
No entanto, com todo este aparato, percebemos que os produtores precisam se adequar e melhorar sua postura, tendo como melhor caminho a associação. As mudanças são inevitáveis e não se limitam a transformações vindas do poder estatal. As mais importantes mudanças partem do modo de ser.
O autor é médico veterinário da Emater em Maringá.

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