O futuro é preocupante e para amenizar os efeitos das mudanças climáticas, a Embrapa Soja iniciou, há duas décadas, um projeto que pretende indicar ao produtor como agir nas diferentes condições de chuva, vento, sol, solo, temperatura, entre outros fatores bióticos. A pesquisa batizada de Cenários Agrícolas já apresentou um importante resultado relacionado, primeiramente, à disponibilidade de água para a cultura da soja.
Segundo o pesquisador José Renato Bouças Farias, chefe adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Soja, os cenários estudados inicialmente tiveram como base a concentração de carbono no ambiente. ''Ficou comprovado que o incremento do carbono no planeta acarreta o aumento da temperatura e, consequentemente, o maior consumo de água pela planta.''
O pesquisador alerta que o cenário é de uma pior distribuição das chuvas e consequente falta d'água para a planta nos próximos anos. ''Teremos períodos maiores de veranico, por isso a tendência é a planta consumir mais água. No entanto, sabemos que quanto mais carbono, mais fotossíntese e maior produção de grãos'', comenta Farias, reforçando que apesar disso, o aumento de carbono no ambiente é negativo.
''A pesquisa quer provar até que limite o carbono compensa a falta d'água e vice-versa'', diz o pesquisador, que espera definir os primeiros cenários agrícolas nos próximos três anos. ''Estes estudos vão influenciar o desenvolvimento de novos cultivares, mais adaptados à perda de água e absorção de CO2, por exemplo.''
Para Farias, se o produtor não se cuidar, certamente enfrentará problemas mais rápido do que imagina. Conforme ele, investir em práticas conservacionistas ainda é melhor saída para amenizar os efeitos do clima, já que as perdas serão inevitáveis. ''Eventos de seca se tornarão mais frequentes no Sul e Sudeste, onde o prejuízo é sempre maior, pois no Norte e Nordeste os produtores já sabem lidar com a falta de água'', compara. Ele reforça que como a soja, o milho e o girassol, que também são culturas de verão, serão das mais afetadas pela seca.
Ele lembra ainda que a última grande seca que atingiu o Rio Grande do Sul, em 2004, provocou uma perda de mais de 70% nas lavouras de soja: de uma média histórica de 2 mil quilos por hectare, os produtores colheram 750 kg/ha naquele ano. No Paraná, a perda chegou a 34%. ''É importante ressaltar que além da perda econômica, houve um impacto social muito grande, pois o produtor investiu e não colheu. Com a seca, não há o que fazer: tudo já está plantado e não há sequer irrigação. Diferente das perdas por doença, que podem ser amenizadas com a aplicação de produtos.''
Conscientização do produtor
Conscientizar o produtor a adotar práticas que melhorem a estruturação do solo, a planejar a lavoura com escalonamento de culturas e a usar cultivares com ciclos diferentes é o modo encontrado pela pesquisa para amenizar os efeitos da escassez de água. ''Mas muitos agricultores ainda têm aquela visão imediatista ou não têm condições de mudar o manejo'', lamenta Farias.
Ele destaca um grupo de produtores do Oeste paranaense que desistiu do Plantio Direto. ''O produtor está sempre preocupado com a alta produtividade, diferente da pesquisa, que pensa na sustentabilidade do agronegócio: custo baixo e colheita suficiente para garantir renda, aliados à conservação do meio ambiente, para manter a boa produção por mais tempo.''
Para Farias, apesar de conseguir estimar perdas, elas ainda variam muito conforme os anos. Para criar diferentes cenários agrícolas, o projeto da Embrapa irá trabalhar com base na modelagem, por meio da simulação de sistemas produtivos. ''Como não sabemos o que acontecerá no futuro, vamos simular situações, em ambientes controlados, e modelar a resposta da planta aos diferentes ambientes'', explica o pesquisador.
O projeto vai auxiliar não só o produtor, com indicação de práticas mais sustentáveis, como a própria pesquisa, que continuará desenvolvendo experimentos durante as próximas décadas. José Renato Farias, que também participou do programa de zoneamento agrícola da Embrapa, ''quando foram realizadas mais de 8 mil simulações'', acredita que serão necessárias de 12 a 15 vezes mais simulações para chegar a dados concretos dos futuros cenários agrícolas brasileiros.
''Já estamos estudando os efeitos da água há 20 anos e agora começamos o monitoramento do carbono e da temperatura e creio que em quatro anos fechamos o projeto'', diz o pesquisador, afirmando que os países estão começando a projetar o futuro do agronegócio praticamente juntos.
''Paralelamente ao projeto de Cenários Agrícolas, a Embrapa também tem o programa Climapeste, que avalia os efeitos das mudanças climáticas no comportamento de plantas daninhas e pragas'', informa Farias. Segundo ele, estão envolvidos nas pesquisas 20 unidades da Embrapa, 40 instituições de pesquisa governamentais e não-governamentais e cerca de 90 pesquisadores.
''Num país carente de informação climática, esperamos orientar não só o produtor e a assistência técnica como, principalmente, o setor financeiro, que garante seguridade e financiamento.''

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