Em Porecatu (85 km ao norte de Londrina, no Vale do Paranapanema), antigos cafeicultores decidem voltar a plantar café, mas utilizando mudas enxertadas, sem nematóides. A primeira precaução foi escolher um terreno livre da infestação dos vermes. Os produtores formaram viveiros, enxertando variedades mais produtivas sobre ‘‘cavalos’’ resistentes à praga.
Presentes nos solos, os nematóides atacam as raízes dos cafeeiros e ficam ali. Eles formam galhas e estrangulam as raízes, até matarem a planta por falta de nutrientes. As espécies mais prejudiciais à cultura do café são a Meloidogyne incognita e a Meloidogyne paranaensis. A pesquisa considera ‘‘praticamente impossível’’ erradicar os nematóides. Por isso, é preciso conviver com eles.
ConvivênciaPara manterem as populações da praga em níveis baixos, as pesquisadoras Alaíde Krzyzanowsk, nematicista, e Maria Cristina L. Lima Dias, especialista em sementes, sugerem: adubação verde, plantas resistentes, rotação com plantas (leucena, crotalária, mucuna, amendoim, guandu anão aratã e aveia IAC-7 precoce) que inibem a reprodução dos nematóides.
Além disso, deve-se manejar por 1,5 a 2 anos com aquelas espécies; deixar a área livre de plantas invasoras. Somente após esse manejo, pode-se plantar café de novo, mas com mudas enxertadas (‘‘nesse caso a cultura deve ser monitorada, com amostragem a cada quatro meses, para observar a redução populacional dos nematóides’’).
DesafioA família Fernandes perdeu seu cafezal na geada negra de 18 de julho de 1975. Há cerca de três anos o médico Celso Fernandes, que trabalha em Londrina, e seu irmão, o engenheiro-agrônomo Luiz Henrique Fernandes, decidiram plantar café na Fazenda Valparaíso, mas em novas bases tecnológicas, começando pelas sementes de melhor qualidade, livres de nematóides. Luiz especializou-se e se encarregou de montar o viveiro de mudas. Desde o ano passado ele atende pedidos de outros lavradores.
Celso e Luiz são orientados pelas pesquisadoras do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Alaíde Krzyzanowsk e Maria Cristina L. Lima Dias. Os Fernandes vêm produzindo suas próprias mudas enxertadas. Para isso utilizam ‘‘cavalo’’ de Coffea canephora, ou robusta, que tem resistência a nematóides, e de Coffea arabica, não resistente porém mais produtivo.
Para reiniciar sua cafeicultura e, assim, aproveitar também a antiga estrutura da fazenda, que ainda tem máquinas e terreirões, os irmãos tinham que vencer o desafio dos nematóides, pois a espécie café arábica, além de não ser resistente a esses vermes, é a preferida da praga, enquanto a robusta, cultivada no Espírito Santo, é resistente mas tem baixo valor comercial.
Devido a essas características, aliaram-se a produtividade do arábica à robustez do canephora (robusta). Foram obtidas mudas produtivas e ao mesmo tempo resistentes aos nematóides. A Valparaíso tem uma funcionária especializada em fazer enxertia: Elza Vilela, que produz de 4 mil a 4.500 mudas por dia.
A família Fernandes está no café há 40 anos. Em 1975 foi obrigada a diversificar a propriedade e buscar no gado e na produção anual de grãos a alternativa para o café destruído pelo frio. Há alguns anos os irmãos decidiram retomar a cafeicultura como atividade principal e, talvez, até voltar ao tempo da colônia que chegou a ter 64 casas e 250 moradores, lembra Celso.
Ele recorda que quis plantar café com sementes adequadas, livres de nematóides. Caso contrário, o café morreria em poucos anos. A região é de terra mista, com maior predisposição a abrigar nematóides do que a terra roxa.
Eles começaram a formar o viveiro há três anos e há dois já produziam. A capacidade atual é de 400 mil mudas por ano, mas pode chegar a 1 milhão de mudas.
Para preparar a terra dos canteiros de mudas, devem-se obedecer alguns passos: 1 - retirada de terra de vários locais, de preferência de mato; 2 - misturar material orgânico e químico; 3 - aplicar brometo de metila para tratar as sementes.
DisseminaçãoO nematóide ganhou mais importância graças ao desequilíbrio ecológico. Instalando-se nas radicelas, vai extraindo a seiva, isto é, o alimento da planta, que acaba definhando e morre por inanição. Para instalar seus viveiros, os Fernandes lembraram-se de uma experiência negativa feita anos antes pelo Governo do Estado, através da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), que distribuiu milhares de sacas de sementes para as prefeituras do Paraná fazerem mudas. Era para revigorar a cafeicultura do Estado, mas surgiram dezenas de viveiros, com milhões de mudas feitas a partir de pés-francos, sem preocupação com enxertias, e de espécies que poderiam resistir aos nematóides. Todas essas mudas eram sujeitas à contaminação e a população de nematóides multiplicou-se.
Quando os sintomas do ataque de nematóides começam a se manifestar, é comum os lavradores pensarem que está faltando fertilizante na lavoura. Os cafeeiros na verdade estão amarelando e definhando em consequência do ataque dos vermes. Os nematóides se instalam em qualquer tipo de lavoura, mas preferem o café. Eles se propagam com facilidade, indo de um lado para o outro nos grãos de soja, nos pneus dos carros, nas solas dos sapatos. Por isso um bom viveiro precisa ter um pedilúvio, na entrada dos canteiros, onde homem e automóvel passam sobre uma camada de cal.
As mudas de pés-francos são vendidas a R$0,15-0,20; as enxertadas, de R$0,40-R$0,50. Maria Cristina observa que, além disso, pode-se ter no pé-franco baixa qualidade. O Estado possui 300 viveiros de mudas de pés-francos. A produção de mudas começa em agosto. O plantio de lavouras, em março. Agora é o momento de colher sementes, para começar a semear mudas em setembro. Pode-se controlar a praga no campo, com algumas medidas como rotação de cultura, espécies antagônicas.
Cuidados básicos na entrada do viveiro: pedilúvio com cal (‘‘não vai impedir definitivamente, mas de alguma maneira dificultará que a praga entre no viveiro. Deve-se ainda colocar pedras britadas sob os canteiros de mudas, para evitar inundação por enxurradas que podem levar nematóides para as mudas, que podem ser feitas em balaio ou tubete. Quando as plantinhas chegam ao ponto de palito de fósforo e orelha-de-onça, faz-se a enxertia. Na enxertia elimina-se a parte aérea do ‘‘cavalo’’ e no arábica elimina-se o sistema radicular. Aí as mudas devem ficar protegidas do vento e sob controle de umidade e temperatura. Índice de pegamento varia de 20 a 30%, mas na Fazenda Valparaíso conseguem-se 70%.

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