A pesagem oficial de um novilho que aos 24 meses atingiu 1.002 quilos, realizada no último dia 9 de novembro em Pontes de Lacerda (MT), 430 quilômeros a oeste de Cuiabá, poderá ser a comprovação de que uma nova raça zebuína está surgindo no Brasil, a mocho guaporé. O macho Paiakan, resultado de duas décadas de estudos genéticos do zootecnista Luiz Gonzaga e do veterinário Armando Leal, aos dois anos atingiu mais de uma tonelada e já é hoje, garantem os técnicos, o bovino com maior ganho de peso e precocidade do País.
Ao atingir 1.002 quilos, Paiakan bateu o recorde brasileiro, deixando para trás o nelore Baú da Santa Nice, de Sorocaba (SP), que aos dois anos pesou 998 quilos. O melhor exemplar dos mochos guaporé já havia batido outra marca no ano passado, com 12 meses, quando superou 600 quilos, chegando aos 603 quilos.
O ganho de peso diário de Paiakan é de 1.690 gramas em média. A engorda foi feita à base de pasto nativo, que propiciou ganho de massa muscular e evitou acúmulo de gordura; mineralização e confinamento, às vésperas da pesagem.
Alta fertilidade Da solenidade do dia 9 participaram, além do Secretário Estadual de Agricultura e Assuntos Fundiários, Wilson Santos, representantes de empresas de comercialização de sêmen interessadas no novo produto. Segundo Luiz Gonzaga, o objetivo agora é controlar o ganho de peso de Paiakan, para investir na sua fertilidade.
Um touro guaporé, segundo os técnicos, pode ser colocado com 40 fêmeas, enquanto um touro nelore cobre entre 20 e 25 vacas. ‘‘Em março ele será levado para a Central de Inseminação Artificial Lagoa da Serra, em Sertãozinho (SP), onde terá início a coleta de sêmen para comercialização’’, informou o zootecnista.
Paralelamente, a Agropecuária Cinco Estrelas, proprietária do animal, doará por um ano doses do guaporé Paiakan ao Governo do Estado, que utilizará o material em programa de incentivo à pecuária de corte.
‘‘Já alcançamos peso e precocidade ideais. Nosso objetivo agora é investir no reconhecimento do guaporé como raça’’, afirmou Gonzaga. Para tanto, o Ministério da Agricultura tem sido regularmente informado sobre a situação do rebanho. Em 1997 começará o cruzamento de Paiakan
com as matrizes de elite guaporé. Após duas gerações, se os ganhos em precocidade continuarem os mesmos, a nova raça poderá firmar-se com destaque no rebanho brasileiro.
Duas décadas O sonho do zootecnista Luiz Gonzaga, de consolidar uma raça zebuína, teve início na cidade mineira de Carlos Chagas, em 1974. Sempre usando inseminação artificial, ele chegou à composição genética ideal que mesclasse limousin ou chianina, tabapuã e nelore, com predominância de sangue zebu.
Os 22 anos de estudos geraram animais de pelagem branca ou azulega (pêlo escuro, entremeado de pintas miúdas brancas e pretas), de couro fino, macio e flexível, peito largo e boa cobertura muscular. Hoje, em Pontes de Laceda, no Vale do Guaporé, Gonzaga conta com 800 fêmeas já do plantel de elite, consideradas aptas para serem cruzadas com guaporés.
A estação de monta, de 120 dias, está concentrada entre os meses de dezembro e março. As matrizes só podem desmamar bezerros com 210 quilos e novilhas com 190 quilos. As fêmeas que não se adaptam a esse padrão, que se mostram agressivas no manejo e descuidam a cria na parição, são descartadas e somadas às 1.200 vacas que recebem a monta natural.
Entre os machos a seleção para a categoria ‘‘tourinhos’’ também é rigorosa. Aos 18 meses são avaliados peso, qualidade de carcaça e fertilidade. A vermifugação é feita aos 24 meses. Os escolhidos vão para o plantel top, enquanto o restante é descartado para comercialização. A média de tourinhos com 20 arrobas limpas aos 22 meses já foi atingida, assim como a média de 270 quilos de peso aos sete meses.
Os animais são criados exclusivamente com pasto (capim braquiária, decubens e colonião) e suplementação mineral. Como no Vale do Guaporé chove 10 meses por ano, o rodízio de pastos não tem sido necessário. A exceção deste tratamento fica por conta de Paiakan. Para testar seu potencial máximo de engorda, depois dos cinco meses ele foi submetido a semiconfinamento em estábulo, das 18 às 6 horas, com feno de tifton, mistura de uréia e melaço para lamber e água enriquecida com fosfato monoamônico. O machoApache (29 meses, 1.406 quilo) e a fêmea Kayaman (24 meses, 652 quilos) também são destaques da raça.

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