Mosca-branca ainda sem controle
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sexta-feira, 06 de março de 1998
Cristina Côrtes 
Reprodução/Dorico da SilvaPrejudicialEste bichiunho mínúsculo provocou prejuízo de dois bilhões de dólares no Estados Unidos e ameaça o ParanáPraga de difícil controle, que ataca mais de 500 espécies de plantas, a mosca-branca (Bemissia argentifolii) já apresenta alta incidência em várias regiões do Estado de São Paulo, e pode ser problema também no Paraná.
A praga vem sendo pesquisada em vários países, como os Estados Unidos, onde já provocou prejuízo de cerca de US$ 2 bilhões. Existem muitos estudos e informações sobre o comportamento do inseto, mas até agora nenhum prática eficiente de controle está sendo recomendada, comenta o pesquisador da Embrapa-Soja, Daniel Sosa-Gómez, que acompanha a ocorrência da praga no Paraná.
Na safra 95/96 a mosca-branca causou perdas em soja na região de Primeiro de Maio, no Norte do Estado, mas depois não voltou a atacar. Este ano foi notificada a ocorrência em algodão numa propriedade em Palmital, na região de Campo Mourão. Por enquanto não estamos tendo problemas com a praga aqui no Estado, mas a situação em São Paulo já preocupa os técnicos e produtores, diz Daniel.
CombateA mosca-branca é um inseto polífago, ou seja, alimenta-se de vários tipos de plantas, até mesmo plantas daninhas, e este é um dos fatores que contribuem para sua rápida proliferação. A única forma de retardar um pouco a disseminação da praga é a implantação de barreiras fitossanitárias. Podemos adiar, mas não impedir a entrada da praga no Paraná, diz Daniel.
Os inseticidas fisiológicos, assim como outros produtos improvisados que estão sendo usados pelos produtores, só funcionam com baixas populações e sobre os estágios jovens das pragas. Quando o ataque é maior, não há o que fazer, alerta. Devem ser aplicados produtos fisiológicos, organofosforados, carbamatos, detergente ou óleo, alternando sempre produtos com diferentes formas de ação. Não adianta aplicar um mesmo inseticida repetidas vezes, ressalta o pesquisador.
Com grande capacidade de adaptação a culturas e climas, a mosca-branca desenvolve facilmente resistência aos produtos químicos utilizados em seu combate. Daniel explica que, além disso, a praga costuma ficar na face inferior das folhas, concentrando-se nas partes mais baixas das plantas. Por isso, as pulverizações acabam tendo pouco efeito. E no caso dos piretróides o inseto apresenta resistência ainda maior. Estudos em outros países mostraram que a mosca-branca pode tornar-se até duas mil vezes mais resistente a inseticidas como a deltametrina.
PrejuízosNo Brasil, o Nordeste é a região mais atingida. O clima seco favorece o desenvolvimento da praga, que lá é endêmica, causando danos no tomate, abóbora, melão, melancia e feijão, entre outros produtos. O inseto já causou danos de R$500 milhões nas lavouras do Nordeste, principalmente em hortaliças e frutíferas, conforme dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento.
Em São Paulo foram registrados ataques severos da mosca-branca em lavouras de soja nos municípios de Miguelópolis e Guaíra (Norte do Estado). Estima-se que as perdas devem atingir 50% da produção, chegando a 70% em alguns casos. Lavouras de algodão também foram atingidas.
A improvisação tem sido a principal arma de agricultores paulistas para tentar conter o avanço de sub-raças da mosca-branca em lavouras de grãos e hortaliças. A praga já apresenta incidência alta em cinco regiões de São Paulo e foi detectado um surto em Miguelópolis, onde detergente de cozinha tem sido aplicado nas plantações.
Segundo a coordenadora da Assistência Técnica Integral (Cati), da Secretaria da Agricultura, a praga está presente em todo o Estado e registra incidência preocupante em Barretos, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, Jaboticabal e Catanduva. Por enquanto a única coisa que podemos fazer é alertar os produtores para esse problema, que se tem agravado, diz a pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), Maria Regina Vilarinho.
A principal forma de combate sugerida pelos técnicos não foi aceita pelos agricultores de Miguelópolis. Foi indicada a erradicação das plantações, para deixar a terra nua por três meses para acabar com os focos. No município, a praga já atingiu l0 mil hectares de soja, 30% da área plantada e 1.400 hectares de feijão (20%) estão comprometidos.
No caso da soja, o pesquisador Sosa-Gómez explica que os danos são mais severos quando a semeadura for feita tardiamente. Neste caso, o inseto ataca as plantas ainda pequenas, causando maior mortalidade. A recomendação é para que o controle químico da praga seja iniciado tão logo o ataque comece.
A pesquisa está buscando soluções para o problema. Foi detectado, em outros países, um fungo do gênero Paecilomyces que é inimigo natural da mosca. Mas a tecnologia de utilização em campo ainda está sendo estudada.
A mosca branca-tradicional (Bemisia tabaci) já existe no País há mais de um século, mas as sub-raças da (Bemisia argentifolii) foram detectadas há dois anos em culturas de flores da Holambra.
O ataque da mosca, que suga a seiva da planta e provoca seu ressecamento, é o fator menos nocivo, na opinião dos pesquisadores. A mosca é um vetor de doenças e pode espalhar o problema para outras culturas, avisa Vilarinho. Já estamos alertando os produtores de laranja porque, na Flórida, a mosca já está atingindo os pomares.


