Morte Anunciada do Álcool-Motor - J. Natale Netto
Morte Anunciada
do Álcool-Motor
J. Natale Netto
Recentemente, círculos oficiais de Brasília voltaram a se mostrar favoráveis a uma possível e ampla retomada do uso álcool-motor pela indústria automotiva nacional. Em apoio à manifestação, o governo de São Paulo chegou a garantir, inclusive, que na hipótese da medida tomar corpo, passaria a prestigiar esse combustível ecológico em todos os novos carros que o Estado vier a adquirir. No que foi publicamente seguido por uma importante multinacional que através de anúncios em vários jornais, confirmou a mesma disposição, em relação à sua frota.
Considerando, no entanto, que muitos leitores deste jornal talvez se interessem em saber um pouco mais sobre o porquê do eficaz combustível verde-amarelo ter sido abolido dos novos lançamentos da Indústria Automotiva e porque vem sendo, a cada dia, menos consumido nos postos de serviços, vamos tentar alinhar, ainda que resumidamente, algumas considerações pessoais sobre as principais e verdadeiras razões que determinaram o desinteresse nacional pela preservação do álcool-motor.
Tudo começou há pouco mais de 23 anos, no Instituto de Pesquisas do Centro Técnico Aerospacial (CTA), em São José dos Campos, quando o professor Urbano Ernesto Stumpf, numa cerimônia simples e despojada, apresentou ao então presidente Ernesto Geisel, dois carros cem por cento movidos a álcool etílico hidratado. Geisel entusiasmou-se e o trabalho, apoiado em 3.000 horas de ensaios em laboratório e mais de 8.500 km de testes em estradas transformou-se no ponto de partida para a implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), a resposta brasileira à crise mundial do petróleo que, então, assolava o Mundo e aos ambiciosos interesses dos produtores do Oriente Médio, interessados em demonstrar o poder que, graças aos acasos geológicos, detinham nas mãos.
Numa primeira fase, as vantagens do uso do álcool como sucedâneo da gasolina foram consideradas como exclusivamente econômicas pois, à medida em que o País deixava de dispender bilhões de dólares/ano na importação de grande parte do petróleo que consumia, poderia dar-se ao luxo de investir essas divisas poupadas, em importantes e necessárias obras de infraestrutura.
Por incrível que pareça, essa notável conquista de tão alto significado econômico-social para o nosso povo e elogiada no Mundo inteiro acabou sendo gradual e impiedosamente marginalizada, sem que nenhum de nós, 160 milhões de testemunhas mudas, caladas, fosse capaz de esboçar o menor gesto, a menor reação para preservá-la, de forma digna e com o mínimo de patriotismo.
Mas, por que um programa com a magnitude e a importância do Proálcool e que se constituiu no maior projeto agroindustrial do mundo, chegou a um fim tão triste e melancólico? Por que, afinal, deixamos que isso acontecesse e nos mantivemos passivos, sem a mínima reação contra os mandantes e executores desse verdadeiro crime de lesa-pátria? Teremos, por acaso, alguma explicação e dar aos nossos filhos e netos para justificar essa nossa inexplicável passividade?
Dizem os modernos historiadores que os jornalistas são os detetives da verdade, portanto dentro dessa qualificação e, principalmente, por termos participado ativamente destes 23 anos de vida do Proálcool, julgamos válido dar, neste momento, as nossas versões em favor da verdade.
Obviamente os culpados são muitos. Como na novela de Gabriel Garcia Marquez, a morte do álcool-motor sempre foi uma morte anunciada. Muitos a esperavam ou, melhor dizendo, a pretendiam. E ninguém fez nada para impedí-la...
Numa certa ordem de importância, a lógica dos fatos aponta inicialmente, para o grande e bem estruturado lobby internacional do petróleo, cujo movimento financeiro é de trilhões de dólares/ano e que há quase um século patrocina as conveniências políticas de meia dúzia de países e determina a submissão de todos os outros que compôem o impotente concerto das nações dependentes. No Brasil, todos sabemos, a Petrobrás é a gente avançada e atuante dessa poderosa famiglia.
Nesse jogo de fingimentos e em nome da famigerada globalização, era lógico e natural que a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) também formasse no pelotão de choque ao qual convinha a extinção do carro a álcool.
Alinhavando tudo isso, é esse, em verdade, o quadro que convém ao grande e poderoso lobby internacional do petróleo. Infelizmente, o presidente Fernando Henrique, seu simpático genro David Zilbersztajn que comanda a Agência Nacional do Petróleo e o Congresso Nacional parecem já ter aceitado o jogo e estão convivendo de forma muito fraternal com a grande famiglia. O recente leilão de privatização das áreas de exploração de petróleo colocou seus representantes de uma vez entre nós, com suas torres de prospecção e suas plataformas marítimas. Será possível, com tudo isso, pensar numa provável retomada do álcool-motor? Só mesmo os ingênuos ainda poderão acreditar nessa possibilidade.
O autor é jornalista, foi editor da Revista Álcool e Açúcar e é, atualmente, coordenador do Top da Agroindústria, da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).





