O agronegócio brasileiro perdeu um importante aliado na última terça-feira. Manoel Henrique Pereira, mais conhecido como Nonô Pereira, um dos precursores da implementação do sistema de plantio direto na palha no Paraná, faleceu, em Ponta Grossa (Campos Gerais), aos 76 anos, em decorrência de um câncer.
A saga de Nonô Pereira e dos demais pioneiros do plantio direto no Paraná, como os produtores Herbert Bartz, de Rolândia (Norte), e Franke Dijkstra, também de Ponta Grossa, foi resgatada em um livro lançado em 2012 pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em parceria com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A publicação destaca que a técnica deu nova perspectiva ao uso e manejo do solo e da água para os agricultores brasileiros.
O sistema de plantio direto (SPD) é essencialmente conservacionista: os agricultores não precisam arar e gradear o solo antes da realização do plantio. A palha que resta da colheita anterior transforma-se em matéria orgânica, que aumenta a fertilidade e conserva a umidade do solo. Hoje, o plantio direto abrange mais de 30 milhões de hectares no Brasil.
O envolvimento de Pereira com o plantio direto se deu em 1976, quando semeou 20 hectares de soja sobre a palha de trigo, na Fazenda Agripastos, em Palmeira (Campos Gerais), como alternativa para salvar a lavoura prejudicada pela erosão. A técnica ganhou visibilidade e a escolha de plantar sobre a palha foi seguida por outros produtores. A disseminação da técnica tornou a região de Ponta Grossa o berço do plantio direto no Brasil.
Com Dijkstra, Pereira teve ainda importante atuação no desenvolvimento de equipamentos adequados ao SPD junto às indústrias de máquinas. Abrindo as portas da Fazenda Agripastos, possibilitou a realização de inúmeros estudos que foram a base conceitual do sistema. Criou e difundiu a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, da qual foi presidente por três vezes, como forma de disseminar os avanços do sistema.
Durante sua primeira gestão na federação, desenvolveu um projeto pioneiro de adequação do SPD à agricultura familiar, em parceria com o Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), que foi a base da revolução ocorrida neste segmento e tornou-se modelo internacional de desenvolvimento rural em outros países.
Pereira também formou o maior e mais importante acervo documental e de equipamentos sobre o desenvolvimento do sistema de plantio direto, que hoje forma o memorial do Centro de Excelência em SPD da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). No último dia 4, ele foi homenageado pela própria UEPG com a entrega da Medalha do Mérito Universitário. Na cerimônia, o agricultor pediu o empenho da universidade em ampliar a pesquisa agrícola brasileira e o estudo do plantio direto, em defesa da saúde da terra. "Do jeito que era, estávamos com os dias contados, porque o solo é o nosso maior patrimônio e temos de conservá-lo", resumiu o pioneiro.

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