Morcegos ameaçam rebanho bovino
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Da Redação 
De janeiro a junho deste ano o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) registrou 337 casos laboratoriais positivos de raiva bovina. Durante todo o ano passado foram 690, mas segundo a literatura, em média cada exame positivo corresponde a 20 ocorrências de fato, segundo técnicos do IMA. A experiência comprova que, em Minas Gerais, essa proporção sobe para 50 cabeças.
Considerando-se aqueles parâmetros, os técnicos calculam que ocorreram, no primeiro semestre deste ano, 16850 casos, contra 34500 no ano passado. O coordenador de raiva do IMA, médico-veterinário Márcio Geraldo Ribeiro, diz que o atual surto da raiva bovina caminha em direção ao Triângulo Mineiro.
MigraçãoCom 8,5 milhões de cabeças, somando-se o rebanho do Alto Paranaíba (também livre da raiva), o Triângulo é a única região do Estado de Minas (20 milhões de bovinos) até agora poupada pela doença, que é causada por morcegos hematófagos - alimentam-se de sangue.
Se não houver um forte trabalho de prevenção na região, o surto migrará para as áreas vizinhas - Norte do Estado de São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul, que juntas possuem 50% do rebanho brasileiro, adverte o veterinário do IMA.
Ele sugere que os pecuaristas mineiros aproveitem o calendário de vacinação contra febre aftosa, para usar o manejo do rebanho e a mão-de-obra, aproveitando-se para vacinarem contra a raiva. Essa mesma medida foi adotada pelo governo do Estado de São Paulo em fins de julho.
Para o veterinário do IMA a raiva assumiu essas proporções devido à dificuldade em conscientizar o criador da necessidade de se vacinar o rebanho e adotar um processo de captura dos morcegos que transmitem a doença, e fazer a profilaxia em seus habitats - normalmente cavernas, túneis, cisternas ou casa abandonadas, pontes e ocos de árvores.
Márcio Geraldo Ribeiro acrescenta que os criadores, de uma forma geral, dificilmente comunicam casos de raiva para o IMA ou qualquer outro órgão de vigilância sanitária e que, por força deste comportamento, o verdadeiro número de animais contaminados talvez nunca seja determinado. No ano passado contamos 4319 animais mortos. Na verdade, embora não tenhamos como comprovar, sabemos que o número foi imensamente superior, garante o veterinário.
A doençaO animal que tem o sangue sugado por um morcego hematófago contaminado fica com a doença incubada entre 10 e 60 dias, em média. Por isso, muitos pecuaristas afirmam, erroneamente, que a vacina não produz efeito, pois um animal somente pode ser salvo se for vacinado em até 21 dias antes da mordida, período que ela demora para imunizá-lo. Caso contrário, a morte é praticamente certa.
Ribeiro conta que durante o ano passado o IMA promoveu 200 palestras e 7400 orientações técnicas em 850 município, envolvendo 12300 interessados. Além disso, firmamos acordos com as prefeituras no sentido de que elas disponibilizem mão-de-obra para a captura dos morcegos.
Apesar de todo esse empenho, os números aumentaram, pois o criador, talvez por uma questão cultural, ou medo de desvalorizar seu rebanho, dificilmente assume a ocorrência de casos. Não raro identificamos pecuaristas que perderam 10% a 20% de seu rebanho e mesmo assim não se preocuparam em vacinar o gado, diz o veterinário, para quem o início da difusão no Estado começou no final da década passada.
Efeito cascataExistem catalogadas no País 140 espécies de morcegos, dos quais apenas três espécies são hematófagas - alimentam-se de sangue, possuem orelhas pequenas, 30 cm de envergadura e 40 gramas de peso e se caracterizam pela mordida com dentes incisivos).
O animal normalmente é mordido pelo morcego na tábua do pescoço, lombo e garupa. No local da mordedura ficam uma ferida e uma mancha de sangue. Após o período de incubação os sintomas mais característicos são andar cambaleando, engasgo, salivação, dificuldade em engolir, paralisia dos quartos posteriores, berro triste e prostração. Por fim eles se deitam, e a partir daí as patas dianteiras imitam o movimento de um pedal, o pescoço vira para trás e em dois dias está morto.
Para capturar os morcegos, o pessoal treinado pelo IMA usa redes que são armadas no entorno do curral ou entrada de seus habitas. Os morcegos apanhados pelas redes recebem no dorso uma camada de pasta vampiricida. Este produto acaba matando boa parte da colônia, pois os hematófagos têm o costume de lamber uns aos outros e acabam lambendo a pasta que, quando ingerida, provoca hemorragia e morte.


