Monitorar mais para perder menos
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sexta-feira, 23 de julho de 2004
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
São cada vez mais preocupantes as perdas verificadas na cadeia produtiva de soja. Podem alcançar, em uma única safra, até 23% da produção total entre as fases de produção, colheita, transporte, pré-processamento, armazenamento, processamento, comercialização e consumo.
Para a safra 2003/2004, segundo dados da Embrapa, a perda nacional gira em torno de 2 sacas/ha, resultando na redução de 4,2% da produção, o que equivale a 42 milhões de sacas de soja perdidas ou mais de R$ 2 bilhões desperdiçados para uma área plantada de cerca de 21 milhões de ha.
''Com este valor seria possível comprar cerca de oito mil colheitadeiras e mais de 19 mil tratores'', calculou o pesquisador e coordenador do Programa de Redução de Perdas na Colheita de Soja no Brasil, Nilton Pereira da Costa.
Segundo ele, 80% das perdas na colheita são motivadas pelo mau manejo da máquina pelo operador e por desajustes nos mecanismos de corte e trilha das colhedoras.
A velocidade incorreta de trabalho e a falta de treinamento dos operadores das colhedoras também causam desperdício. Estudos indicam que a velocidade da máquina deve variar entre 4 e 6 km/h e a umidade do grão deve estar entre 13 e 15% para uma colheita ideal. Velocidades superiores a esses valores causam raspagem da haste, arrancando as vagens e induzindo perdas.
O manejo inadequado das lavouras, antes da colheita, também contribui para aumentar as perdas. O solo mal preparado e com desníveis provoca oscilações na máquina e desuniformidade no corte das vagens. Já a presença de plantas daninhas mantém a umidade alta, prejudicando o bom funcionamento da colhedora.
''Estas perdas ainda são uma realidade para a maioria dos produtores brasileiros e influenciam a oferta de alimentos no mercado, gerando impactos sobre os preços e, consequentemente, sobre a renda do consumidor, que destina a maior parte do seu dinheiro à alimentação'', explicou Costa.
Um levantamento recente apontou perdas de cerca de 4,5 milhões de t de soja na safra 2003/2004 em função da ferrugem asiática. Associando o que deixou de ser colhido aos gastos com o controle químico (fungicidas e despesas com aplicação), o custo ferrugem foi de aproximadamente US$ 2 bilhões.
''Esses valores representam praticamente o dobro de prejuízo levantado na última safra'', calculou o diretor presidente da Embrapa, Clayton Campanhola.
Os estados mais atingidos com a ferrugem foram Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, segundo a Embrapa. No Paraná, segundo produtor de soja, a progressão da doença foi impedida pela forte estiagem e altas temperaturas, em janeiro. De modo geral, os produtores controlaram adequadamente a doença.
Dados oficiais apontam que as perdas de grãos alimentícios nas diversas etapas dos processos produtivo e de comercialização chegam a 80%, o equivalente a US$ 2,34 bilhões, considerando-se apenas as culturas do arroz, feijão, milho, soja, trigo e os hortigranjeiros.
Cursos Os primeiros levantamentos de volume de perdas na colheita da soja, feitos no final dos anos 70, indicavam 4 sacas perdidas/ha. Este índice preocupante desencadeou um intenso programa de treinamento para técnicos, produtores e operadores de colhedoras, que resultou na redução para as atuais 2 sacas/ha. Este valor, por sua vez, ainda é considerado alto se comparado ao padrão adotado pelos norte-americanos - 1 saca/ha - e ao índice de tolerância, que é de 0,75 saca/ha.
Em mais de 20 anos de cursos de capacitação de mão-de-obra para a colheita, estima-se que o país tenha economizado cerca de R$ 4,5 bilhões. Mas as perdas inevitáveis de grãos também tiveram valores elevados, variando entre 30 a 200 kg/ha, o que representa, a cada safra, prejuízos desnecessários sempre acima de R$ 800 milhões.
Para que os operadores consigam o melhor proveito da máquina, o Senar oferece cursos de qualificação em parceira com a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). Um deles reuniu 25 trabalhadores no Centro de Treinamento Agropecuário (CTA) de Ibiporã (14 km a leste de Londrina) em junho.
A falta de informação dos operadores e a falta de manutenção preventiva das colheitadeiras são os fatores que mais causam perdas segundo o técnico mecânico, José Alcides Ferreira da Silva, instrutor do Senar. Para ele, é visível a mudança de comportamento dos operadores durante o curso. ''Eles chegam aqui achando que sabem tudo e saem com outra visão'', disse.
As aulas enfatizam também conceitos de segurança, já que o Brasil é o quarto país do mundo em acidentes de trabalho. ''A maioria dos alunos está ciente de que tem de se proteger e leva para o dia-a-dia o que aprende aqui'', assegura Silva.


