Entre as ações acenadas para a agricultura no governo Lula, a liberação de recursos para o Moderfrota, programa que permite ao produtor comprar tratores e colheitadeiras a juros subsidiados de 8,75% ao ano, foi colocada em pauta pelo ministro da agricultura, Roberto Rodrigues.
O pesquisador na área de engenharia agrícola do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Ruy Casão, afirma que o programa é bom, mas alerta para o fato de que o governo ainda não acenou com uma política para agricultura.
''Nós não temos uma política agrícola, temos ações de intervenção e o Moderfrotas é uma delas'', afirma. ''É preciso uma política definida que contemple pesquisa em desenvolvimento de máquinas, avaliação de qualidade, assistência técnica e extensão rural, capacitação do produtor para escolher, regular e usar o maquinário''.
O pesquisador do Iapar, afirma que algumas indústrias oferecem treinamento ao produtor para uso das máquinas, ''mas o alcance é insignificante''. Quanto à pesquisa, Casão explica que hoje as máquinas agrícolas são desenvolvidas apenas pelas indústrias. Para garantir melhor qualidade, segundo ele, é preciso unir o ''conhecimento científico ao conhecimento das indústrias''.
A avaliação de qualidade também acontece minimamente, de acordo com Casão. ''O Iapar avaliou 75 semeadoras de plantio direto de soja, mas nosso poder é pequeno. Esta ação tem que acontecer em nível nacional'', afirma.
Casão afirma que nos últimos cinco anos as indústrias de máquinas agrícolas estão vivendo um boom, com aumento anual da capacidade de produção. ''As vendas aumentaram em 30% de um ano para outro''. Para o pequeno produtor capitalizado, isto pode se reverter em prejuízos, na avaliação do pesquisador.
''As indústrias vendem tudo, até máquinas sem qualidade que o produtor acaba engolindo, ou máquinas maiores que para ele não seria necessário'', diz. Ele explica que o Moderfrotas disponibilizou dinheiro fácil no mercado, os preços das máquinas aumentaram, mas as vendas não caíram.
''O produtor compra além do que precisa porque não tem apenas a perscpectiva de sobrevivência, mas de fazer a América'', afirma. Cada caso é específico, ressalta Casão. Segundo ele, alguns destes produtores deveriam comprar máquinas usadas, mas como não há financiamento para estas máquinas, ele prefere comprar uma maior, da qual não precisa.
''Este produtor acredita que vai alugar esta máquina para seus vizinhos. Se conseguir ótimo, senão ele sai perdendo. Outro tem planos futuros de comprar uma terra que vai precisar desta máquina'', explica.''Esta atitude pode gerar prejuízos futuramente se os produtores não conseguirem pagar suas dívidas''.
A agricultura, segundo Casão, vive um momento de euforia com os preços bons dos produtos agrícolas e de esperança de que estes preços se mantenham. Já o camponês (o pequeno produtor descapitalizado), na sua avaliação, como não tem acesso à linhas de crédito, ao Moderfrotas, cresce com seus próprios recursos ou abandona a agricultura.
''O Moderfrotas é bom, mas é preciso um processo educativo. A área de maquinário agrícola não se potencializa só com financiamento, mas com pesquisa, capacitação''.

mockup