O Paraná tem condições privilegiadas, de clima e área, para a produção leiteira a pasto durante o ano todo, com bons custos de produção e rentabilidade ao produtor. O modelo seria buscar produção por área, a exemplo do que acontece com a carne, e não mais por animal, usando as pastagens como alimento, que é o item de mais caro nos custos de produção.
A alternativa é uma proposta do projeto de integração lavoura-pecuária dos professores da Universidade Federal do Paraná, Aníbal de Moraes, Adelino Pelissari e Amadeu Bona Filho, e do pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná, Sérgio José Alves. ‘‘O projeto de integração lavoura e pecuária possibilita produção a um custo inferior a R$0,15 por litro de leite’’, garante Moraes.
O professor Moraes será um dos palestrantes do Simpósio sobre Sustentabilidade Leiteira que está programado para o final do mês em Goiânia. Os pesquisadores já têm trabalho semelhante com gado de corte na integração e agora colhem resultados também com a produção de leite totalmente a pasto.
Novo modelo Durante alguns anos produtores ‘‘importaram’’ de outras regiões produtoras de leite no mundo modelos de sistemas de produção que exigiram altos investimentos e o rendimento do leite não trouxe o retorno necessário para pagar esses investimentos. Muitos tiveram que desistir da atividade e os que ficaram estão obtendo, segundo os pesquisadores, uma lucratividade que poderia ser maior se adotassem o sistema de produção a pasto.
A integração, garante Moraes, é mais do que usar ocasionalmente uma lavoura para reformar uma área de pastagem. ‘‘É um sistema planejado de uso racional do solo, em que participam lavouras e animais, com vantagens para ambos. Há aumento da rentabilidade; diminuição da dependência dos produtores dos cultivos de grãos de verão; diminuição de riscos de inviabilização do negócio agrícola e produção de carne e leite de forma altamente competitiva em relação a custo e qualidade.’’
O sistema proposto serve tanto para produtores de leite que queiram fazer a agricultura, quanto para agricultores que pretendam ter outra alternativa na propriedade produzindo o leite ou até mesmo a carne.
Bons animais Para produzir leite somente a pasto, avisa Sérgio Alves, o produtor terá que ter animais com potencial de resposta ao alimento. Usando bons animais é possível obter médias de produção de 18 a 20 litros/vaca/dia exclusivamente a pasto. Devem ser também animais de porte médio, com maior mobilidade e capacidade de ingestão, e de conversão da pastagem em leite.
‘‘A produção de leite com base em pastagens pode ser um modelo facilmente incorporado no sistema de integração lavoura-pecuária’’, afirma Aníbal de Moraes. No caso da produção de leite se usa pastagem no inverno nas mesmas áreas destinadas a lavoura de milho e soja durante o verão. Parte da propriedade pode ser utilizada com pastagens perenes de verão onde será feita a produção leiteira na primavera e verão. O produtor de leite deve saber que estes pastos serão os mais indicados para sua região, bem adubados e bem manejados.
Duas fontes de renda O sistema possibilita pelo menos duas fontes de renda: a mensal com o leite e a anual com a agricultura. Há ainda a possibilidade de vender animais, machos e novilhas por exemplo, como outra fonte de renda para o produtor.
No Paraná, de acordo com Moraes, consegue-se ter no verão pasto com alta produtividade, mas de menor qualidade em relação as pastagens de inverno. No inverno acontece o contrário. As produções são menores mas de alta qualidade.
Adubação total O esquema proposto pelos pesquisadores implica em que o produtor faça uma adubação do sistema completo, em toda a propriedade, permitindo um processo de melhoria constante na qualidade do solo, reduzindo os custos ao longo do tempo de implantação. Cada vez mais terá que corrigir menos e apenas manter a fertilidade do solo.
O sistema permite que o produtor utilize no verão pastagens já em uso na região para colocar o gado leiteiro, mas adubadas e bem manejadas, como a própria braquiária. No inverno é possível plantar, dependendo da região, o azevém ou a aveia, associadas aos trevos, em área onde antes foi cultivada a soja.
Exemplo do sistema O produtor pode dividir a propriedade assim: 80% com soja e 20% com pasto para produção de leite. Essa proporção vai depender da região e de outras variáveis e o pecuarista terá que procurar a orientação de um técnico para saber como proceder melhor.
O potencial de produção de leite a pasto pode, segundo os pesquisadores, ser avaliado no exemplo de uma propriedade de 20 hectares onde no verão, parte da área (10 hectares) foi cultivada com lavoura e outra parte (mais 10 hectares) com pastagem perene de verão. No inverno, toda área (20 hectares) seria utilizada para pastagem, com implantação de aveia, azevém e outros, no lugar da cultura do verão.
No verão, a área de 10 hectares com pastagem sustentaria 10 animais por hectare, num total de 100 animais. Considerando metade do rebanho em lactação, 50 vacas estariam produzindo leite.
Com uma produção média diária de 12 litros por vaca a propriedade renderia 600 litros diários de leite. Ao preço de R$0,30 o litro, em um mês a receita bruta seria de R$ 5.400,00. Se o custo de produção fosse de 70%, por exemplo, ou R$ 0,20 para produzir um litro (o que pode ser um exagero) o lucro líquido seria de R$ 1.620,00 mensais. Segundo o pesquisador Sérgio Alves, é possível, nesse sistema conseguir um custo de produção de R$ 0,10.
Viabilidade ‘‘Sistemas de recuperação de pastagens envolvendo integração permitem ainda a produção de alimento suplementar para o gado em épocas críticas, a geração de receitas com a diminuição dos custos da reforma, o aproveitamento de resíduos de adubos minerais, o controle de invasoras e maior eficiência do uso de máquinas e implementos com a racionalização no emprego da mão-de-obra’’, explica Moraes.
Segundo o professor, para a produção leiteira a pasto, a silagem ou feno seriam formas de guardar alimento para fornecimento estratégico, em razão de alguma intempérie climática. ‘‘A silagem ou o feno devem ser usados com este fim, e não como base alimentar, que deve permanecer sendo a pastagem por ser de menor custo.’’ A suplementação com concentrados também deverá ser utilizada apenas para aumentar produtividade e não como base do sistema.
‘‘Existe um tabu de que os animais não devem ficar mais do que duas horas em pastejo. No sistema de produção a pasto eles devem é sair apenas para a ordenha e voltar. Se restingir o tempo de pastejo poderá ser necessário o reforço alimentar no cocho para manter a produção de leite e aumentar o custo dessa produção.’’
Como fazer O sistema, alertam os pesquisadores, tem alguns conceitos básicos como o plantio direto e a rotação de cultivos. Dependendo do interesse do produtor por ser aplicado também para produção de carne, em pequenas ou grandes propriedades. No início a orientação é aproveitar as pastagens perenes pré-existentes, inclusive nativas, e intensificar gradativamente, de acordo com os recursos disponíveis.

‘‘Sistema é viável’’