A microvespa Telenomus podisi, que parasita os ovos de percevejo, é a grande expectativa dos produtores; volume de produção é o grande gargalo
A microvespa Telenomus podisi, que parasita os ovos de percevejo, é a grande expectativa dos produtores; volume de produção é o grande gargalo | Foto: Adair Carneiro/Embrapa

Não há como negar: existe uma pressão mundial em que a sociedade clama por sustentabilidade. Basta dar uma olhada como a discussão sobre a liberação de defensivos químicos ficou acalorada no Brasil nas últimas semanas – inclusive com a divulgação de muitas fake news que o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) teve que combater. Independentemente das polêmicas, percebe-se que a utilização dos agroquímicos com maior inteligência e consciência, associado ao MIPD (Manejo Integrado de Pragas e Doenças), tem fortalecido cada vez mais a cultura do controle biológico, e isso é uma realidade. Dois lados de uma mesma moeda, mas que podem caminhar juntas.

Se de um lado existe uma dificuldade gigantesca, por exemplo, de se desenvolver novas moléculas de inseticidas, que custam em torno de US$ 350 milhões a empresas do setor, do outro o controle biológico por meio de micro e macrorganismos ganha espaço, com um portfólio eficiente e mercado crescendo em ritmo acelerado no Brasil.

Números da ABCBio (Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico), que conta hoje com 20 associados, aponta movimentação em torno de R$ 500 milhões no País, podendo saltar para R$ 800 milhões facilmente. A maior empresa de controle biológico do mundo, a holandesa Koppert, já está no Brasil com forte atuação, sem contar que as grandes empresas do setor em produtos químicos, caso de Bayer e Syngenta, também estão entrando no mercado de biológicos, com divisões específicas de trabalho. Nesta semana, Londrina sediou o maior evento sobre o tema do País, o 16º Siconbiol - Simpósio de Controle Biológico, que contou com 700 participantes. A Folha Rural conversou com os maiores experts do assunto e mostra os caminhos e desafios do controle biológico no País.

“Antes, o controle biológico era visto como uma medida a longo prazo. Hoje, há técnicas modernas de criação e produção de patógenos”, diz o pesquisador José Roberto Postali Parra
“Antes, o controle biológico era visto como uma medida a longo prazo. Hoje, há técnicas modernas de criação e produção de patógenos”, diz o pesquisador José Roberto Postali Parra | Foto: Marcos Zanutto

MITOS

O pesquisador e professor da Esalq/USP (Escola Superior Luiz de Queiroz), José Roberto Postali Parra, é um dos maiores nomes do Brasil ligado ao tema. Ele não titubeia em dizer que o futuro chegou, mas que existe uma “cultura de químicos arraigada no País que precisa mudar”, além do combate a alguns mitos.

Um deles é que muitos produtores acreditam que o controle biológico tem que ser utilizado como a solução de todos os problemas, quando na verdade ele é um dos componentes do MIP (Manejo Integrado de Pragas). “Aliás, os produtos biológicos podem ser utilizados junto com inseticidas (químicos), desde que sejam seletivos. Outros, quando começam a utilizar o controle biológico, acreditam que é um método fácil e começam a fazer coisas amadorísticas, incompatíveis com a realidade, como por exemplo fazer uma fábrica de insetos parasitas dentro da fazenda e isso não vai dar certo.”

Por fim, Parra cita o desconhecimento. “Antes, o controle biológico era visto como uma medida a longo prazo, pois não se tinham técnicas de criação, era necessário esperar o inimigo natural aumentar sua quantidade para começar a agir, e isso em culturas perenes e semiperenes. Hoje há técnicas modernas de criação e produção de patógenos.”

PORTFÓLIO

O mundo conta atualmente, segundo o pesquisador, com cerca de 440 produtos disponíveis - o Brasil com “em torno de 5% a 10% disso”. Parra cita que hoje os produtos com microrganismos (fungos, bactérias e vírus) são mais utilizados que os macros no País, porque se assemelham mais à aplicação dos defensivos químicos. “No caso do controle com microrganismos, se mistura com água e aplica, além de ser possível deixar na prateleira por um tempo. Já os macrorganismos, quando eles nascem, já é preciso utilizar.”

Por fim, ele cita que dentro do País é preciso explorar mais a biodiversidade, hoje “mal explorada e estudada, em busca de novas agentes para controle”. A atuação em grandes culturas também é um desafio. “Hoje na soja por exemplo o grande problema é o percevejo marrom, para o qual existe um inimigo natural aos ovos do inseto. Mas ainda não temos produção para cobrir os 36 milhões de hectares de soja, é preciso aumentar a escala da produção do inimigo natural. Hoje, então, o agricultor quer usar, mas se não se não tem (a tecnologia) disponível, acaba se frustrando.”

16º Siconbiol - Simpósio de Controle Biológico contou com 700 participantes e grandes nomes da pesquisa do controle biológico
16º Siconbiol - Simpósio de Controle Biológico contou com 700 participantes e grandes nomes da pesquisa do controle biológico | Foto: Marcos Zanutto

Alexandre De Sene Pinto, do centro Universitário Moura Lacerda, é especialista em controle biológico e consultor de manejo de pragas envolvendo a tecnologia. Para ele, a demanda de micro e macrorganismos para grandes culturas é enorme atualmente, um potencial tão grande que as empresas do setor não conseguem atender alguns casos.

Ele relata que a chave para o controle biológico mudou em 2010, quando a tecnologia de liberação desses inimigos naturais passou do manual caminhando para a automatizada. Hoje, a cana-de-açúcar continua liderando como atividade que mais utiliza controle biológico. “O Trichoderma é um fungo que está sendo utilizado em áreas cada vez maiores de cana, crescendo em torno de 300 mil hectares por ano. Já no macro, a vespa Trichogramma atinge mais de 600 mil hectares por ano.”

Aliás, a soja já utiliza bem o Trichogramma para controle de mariposas, mas o que os produtores estão ansiosos mesmo é pela espécie de microvespa Telenomus podisi, que parasita os ovos de percevejo. “Se hoje tivéssemos o Telenomus podisi (em volume) certamente seria absorvido por dois milhões de hectares. Mas não teremos produção para mais de 200 mil a 300 mil hectares este ano.”

Para o pesquisador, sem dúvida, a questão de volume de produção é um grande gargalo. “Mais empresas vão ter que surgir e as que já estão por aí vão ter que trabalhar mais, dobrar ou triplicar a produção”. Outro ponto citado por Pinto é que faltam especialistas no assunto. Ele comenta, por exemplo, que ninguém sai das faculdades da área com esse conhecimento e são poucos técnicos especializados. “Produtor e equipe precisam ser treinados. Não é um produto difícil (de manejo), mas tem seus cuidados diferentes do inseticida, por exemplo, para que não se perca o produto. Com a produção 'on farm' agora (com os produtores fazendo por conta os parasitoides, por exemplo) temo um pouco pela qualidade, pode haver contaminação. Acredito que a expertise do agricultor é produzir alimentos e não biológicos. Hoje ele está fazendo as duas coisas.” (V.L.)

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