Mitigar: mudar o rumo para garantir a sobrevivência
Responsável pela sobrevivência de bilhões de pessoas, a agricultura também é uma das vilãs do aquecimento global. De acordo com o IPCC, a atividade é responsável por 13,5% das emissões anuais de gás carbônico equivalente (CO2-eq - unidade-padrão em que todos os tipos de gases estufa têm sua capacidade de contribuir para o aquecimento global convertida em quantidade de CO2).
Em 2005, conforme o IPCC, o setor emitiu de 5,1 a 6,6 gigatoneladas (bilhões de toneladas) de CO2-eq. Como explicam os pesquisadores Eduardo Assad e Hilton Silveira Pinto, ''o número leva em conta somente as emissões diretas do setor, formadas principalmente pelo metano CH4, proveniente dos gases entéricos e das fezes do gado e dos alagados de arroz''. Considera também o oxido nitroso (N2O), emitido sobretudo pelo uso de fertilizantes e pela queima de biomassa.
As emissões de óxido nitroso pela agricultura equivalem a 2,8 bilhões de toneladas de gás carbônico, e as de metano a 3,3 bilhões de toneladas de gás carbônico, segundo cálculos do IPCC. O relatório não inclui as emissões de gases provocadas pela conversão de florestas em terras agrícolas. Mas destaca que a queima ou o apodrecimento das florestas libera o carbono que estava armazenado nos troncos, folhas, raízes e solo. Segundo o instituto, o setor florestas responde por 17,4% das emissões totais.
Apesar da superlatividade dos números, os pesquisadores defendem que a mudança de atitude do homem pode mudar o rumo dos acontecimentos. Segundo eles, algumas perdas são inevitáveis, mas os cenários só vão se concretizar se o modo de produção permanecer o mesmo.
Uma palavra resume a mudança necessária: mitigação, que significa atenuar efeitos nocivos de uma atividade ou ação. Assad afirma que existem diversas práticas agrícolas capazes de diminuir as emissões de carbono e ainda aumentar o sequestro de gás da atmosfera. ''É possível mitigar até 6 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente com a agropecuária'', diz o estudo.
Entre as atividades, os pesquisadores destacam a integração lavoura-pecuária, utiização de sistemas agroflorestais e incentivo ao plantio direto. O consórcio de culturas evita que a terra fique nua em alguns períodos, o que diminui riscos de erosão e aumenta a quantidade de carbono no solo. O plantio direto, segundo a pesquisa, promove a mitigação de 9 milhões de toneladas por ano.
Adaptação de materiais para as condições previstas pelos cientistas é outro importante caminho. O desenvolvimento de variedades resistentes poderá preservar a aptidão de áreas que serão afetadas pelo aquecimento. No caso do semi-árido nordestino, que será a região mais atingida e que perderá a aptidão para a maioria das plantas cultivadas, segundo as estimativas, a solução pode estar no próprio Nordeste. ''Em vez de lidar com milho, arroz, feijão, soja, é possível trabalhar com mandacaru, com xique-xique, com sorgo'', exemplifica o estudo.





