Ministro americano quer parceria
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de maio de 2004
Cláudia Barberato<br> De Washington 
O primeiro secretário de Fazenda, Negócios e Serviços para a Agricultura dos Estados Unidos, J.B.Penn, acredita que Brasil e Estados Unidos, como grandes produtores e exportadores de produtos agrícolas, podem se tornar parceiros importantes no mercado internacional.
De acordo com Penn, em entrevista a este jornal em seu gabinete em Washington na semana passada, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é a grande oportunidade para consolidar essa parceria.
Mesmo com a produção em comum de alguns produtos agrícolas, Penn, que tem um cargo equivalente a Ministro da Agricultura, avalia que numa parceria Brasil e Estados Unidos podem dividir acessos a mercado para produtos em que não seriam concorrentes diretos.
Os Estados Unidos proporcionaria maior acesso ao seu mercado para produtos brasileiros, que não são produzidos naquele País. Ao Brasil, por outro lado, segundo Penn, existe a alternativa de permitir acesso de produtos americanos, cuja produção interna não é suficiente para abastecimento.,
Caso da soja - No caso da soja a situação é diferente. Mesmo produzindo soja os Estados Unidos tem interesse em comprar o farelo brasileiro para atender a demanda de seus compradores e também o seu mercado interno.
Em função de problemas de doenças e, especialmente de seca durante o cultivo, houve queda no volume produzido na última safra. Segundo relatório do USDA, a estimativa era produzir 75,01 milhões de toneladas na safra 2003/2004, número igual ao de 2002/2003. Mas, o resultado ficou em 65,796 milhões de t.
A produção americana, embora o ministro Penn diga ser estável, vem caindo nas últimas três safras. Nos últimos três anos o maior volume foi em 2001/2002 com 78,762 milhões de t. Para a próxima safra, 2004/2005, que está sendo plantada, ainda não há números oficiais.
O Brasil, segundo maior produtor mundial de soja, atrás apenas dos Estados Unidos, responsável por 26% da produção mundial, em 2003 assumiu a liderança nas exportações: foram 19,9 milhões de t de grãos e 13,6 milhões de farelo, num volume 25% superior em relação a 2002.
Pela eficiência na produção o Brasil tem tudo para tornar-se o primeiro produtor mundial. Enquanto os Estados Unidos mantém uma produção que vai de estável a tendência de queda, ou pelo menos sem ampliação, o Brasil ainda tem 90 mil ha a serem cultivados e boas perspectivas de aumento de produção.
Além da queda na produção que afeta mercado interno e as exportações americanas, há maior demanda interna também pelo farelo da soja, que agora está sendo usado para a alimentação animal.
A demanda mundial pela soja tem aumentado e na divisão do bolo, de acordo com o ministro americano, o Brasil acabou ''pegando'' mercado de muitos países em desenvolvimento e, em muitos casos, ocupando um espaço que antes era do próprio Estados Unidos.
Apesar disso, Penn acredita numa parceria. Há, segundo ele, mais coisas em comum do que diferentes e Brasil e Estados Unidos deveriam estar lado a lado, não se tratando como oponentes.
Com a assinatura da Alca - que permitiria maior acesso a mercados liberados entre os 34 países que compõem o bloco -, o ministro americano acredita que países como Brasil e Estados Unidos, que produzem muito mais do que podem consumir poderão ampliar seus mercados.
Subsídios só na OMC - Penn admite que existem áreas e pontos sensíveis a serem acertados entre os dois países como subsídios domésticos e tarifas para alguns produtos agrícolas.
No caso da produção agrícola comum entre Brasil e Estados Unidos, segundo J.B. Penn, como algodão, carnes, açúcar, cítricos, entre outros, a discussão sobre subsídios devem ser junto à OMC, que também deverá tratar dos subsídios europeus e japoneses.
O subsídios adotados na Europa e no Japão para a agricultura são segundo o governo americano um empedimento para discutir o tema agricultura no âmbito da Alca. Os EUA gastam US$ 100 bilhões por ano de suporte aos seus produtores rurais. No Japão os subsídios são de US$ 200 bilhões e na Europa chegam a US$ 300 bilhões.
A retirada de subsídios, mesmo que escalonada como foi discutida durante uma reunião entre os dois países em Miami, no ano passado, parece impraticável. Até porque, segundo uma fonte parlamentar dos Estados Unidos, dificilmente o congresso americano aprovaria este tipo de coisa que representaria a total fragilidade dos produtores americanos perante a Europa e o Japão.
Na agricultura a parceria entre Brasil e Estados Unidos pode ser feita para reduzir impedimentos de acesso a mercados e fomentar o crescimento econômico dos dois países. Penn, no entanto, prefere não adiantar quais seriam esses empedimentos, talvez cotas menores em barreiras alfandegárias.
Segundo o ministro americano é preciso entender que a agricultura não é o tema mais problemático da Alca. Todas as áreas são difíceis. Mesmo assim ele garante que o acordo poderia ser benéfico ao Brasil em setores como acesso a mercado, propriedade intelectual e serviços, áreas de produtos manufaturados e intercâmbio de tecnologias.


