DEDO DE PROSA -

Minha última lembrança de São João


Minha última lembrança de São João
Marco Jacobsen
 


Era dia Santo, rezava-se o terço e tinha festa. Uma fogueira na rua,cuidadosamente empilhada durante o dia com gravetos e lenha e aquela ansiedade para que viesse logo o anoitecer, quando ela seria acesa! Ainda consigo sentir o calor daquela fogueira e a sua luz iluminando nossos rostos de crianças. Às vezes, até a lua colaborava para a festa ficar melhor e aparecia, cercada de estrelinhas, todas brilhando, perfiladas em seus lugares no céu, como se fosse uma cobertura iluminada para a nossa noite de São João.


Agachados em volta da fogueira, ficávamos mexendo e remexendo os gravetos e as fagulhas espalhavam mais luzinhas no ar. Os comes eram a pipoca e o amendoim torrado, a batata doce assada ali mesmo na fogueira, no máximo um chá ou chocolate quente, mas nem precisava.



O melhor de tudo era ficar pulando em volta da fogueira, economizando ao máximo as bombinhas, os traques, os busca-pés e o mais maravilhoso de tudo: os fósforos de cor. Minha mãe costumava comprar para nós, claro, uma caixinha de cada. Eu tinha medo de busca-pés porque, conforme me disseram, ele “corria atrás das pessoas” e, para comprovar, um busca-pé quase atingiu minha irmã Maria, que era muito levada, e não duvido muito que foi ela a correr atrás dele, mas isso permaneceu um mistério que não desvendei até hoje. O fato é que ficava com medo.

Rojão, só os adultos. Contavam casos em que muitas pessoas se queimavam e causavam danos a si próprios, decepando dedos, tendo sérias queimaduras. Havia ainda crianças que colocavam bombinhas dentro de latas e causavam muitos desastres, por isso, o máximo perigo que podíamos correr era “passar sobre a fogueira” descalços e sem queimar os pés. Mas só não queimava quem tivesse muita fé. Nunca me arrisquei, limitando-me a pular a fogueira, uma delícia!

Mas certa vez meu irmão resolveu se arriscar e passar sobre a fogueira, achando que estava apagada, e se queimou. Muito dengoso, chorou muito e teve que ficar com o pé pra cima uns dias, de castigo. Lembro-me ainda das brincadeiras que chamavam de simpatias, tipo escrever nome de rapaz na faca e enfiar na bananeira, e, no dia de São João aparecia o nome do moço com quem a gente ia se casar.

Ou uns papeizinhos misteriosos que arrancavam risadas e suspiros das mocinhas. Ouvia umas primas e outras moças dizerem que dava certo, mas ainda não me interessava por isso. Aproveitando a roda em volta da fogueira também brincávamos de passar anel, um beijo, um abraço, um aperto de mão, e cantávamos a única música de São João conhecida na época: “ Com a filha de João, Antônio ia se casar, mas Pedro fugiu com a noiva na hora de ir pro altar...” O céu ficava piscando pelos rojões e foguinhos esparsos aqui e ali e a gente ficava tão feliz! 


Havia famílias que faziam festas grandiosas em louvor aos santos, com fogueiras enormes, música e arrasta-pés, além de muitos quitutes, mas não era o nosso caso. Lá era tudo muito simples, e a maior atração era a fogueira e os fósforos de cor que equivaliam ao show da Disney hoje...


Mas como tudo evolui, a Festa de São João virou festa junina, movimentando as escolas, as igrejas, trazendo as quadrilhas, as comilanças. Já não vivíamos o natural, representávamos através da imitação de um casamento caipira, uma comitiva andando atrás da carroça, rostos pintados, bigodes de carvão, roupas remendadas...


Como conta a lenda a fogueira acesa na noite do nascimento de João Batista era um sinal de que a criança, no caso, ele, havia nascido. Ao verem a luz da fogueira os parentes e vizinhos saberiam da grande novidade e viriam visitar. O restante ficou por conta da imaginação popular e de suas necessidades de festejar e se alegrar.


A festa de São João, embora tenha perdido um pouco a sua essência, não deixa de ser motivo de alegria porque, ao contrário dos outros santos que são lembrados no dia da morte, entrada para o céu, São João é festejado no dia do seu nascimento. E o mais bonito de tudo é que ele viria ao mundo com uma missão especial: preparar o caminho para que seu primo famoso, Jesus Cristo, pudesse nos trazer o maior presente:  a salvação!




Estela Maria Ferreira é leitora da FOLHA


Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo