Água de melhor qualidade para a produção e consumo próprio dos moradores da área rural estão entre os principais objetivos de um projeto que protege as nascentes e recupera a mata ciliar. A iniciativa, em andamento há mais de 20 anos na região centro-oeste do Paraná, dá seus primeiros passos em propriedades do norte do Estado.
''O meio rural sempre teve problemas com a qualidade da água o que acaba prejudicando a produção de alimentos e ocasionando doenças. Com o projeto de recuperação de minas d'água, nossa proposta é garantir o abastecimento de água potável'', destaca Altair Luiz Jede, técnico agropecuário da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), em Cafelândia, e precursor do programa Proteção de Fonte Solo e Cimento.
A ideia consiste em proteger as fontes e nascentes de água com pedra, solo e cimento. ''É como se a mina fosse lacrada'', define o técnico. Com a medida, as nascentes ficam ''guardadas'', ''isoladas'' e protegidas de elementos que provocam a contaminação. Entre os principais fatores que causam a contaminação estão substâncias tóxicas - como óleos, graxas e detergentes -, coliformes fecais e defensivos agrícolas.
Lacrar a mina, contudo, significa fechá-la, canalizando essa água: faz um piso de cimento, paredes, laterais e na frente, com saída da água através de canos. ''Estando fechada, a fonte fica protegida de animais, folhas, lixos que por ventura possam cair no local e provocar a perda da qualidade da água'', diz o técnico da Emater. Além disso, segundo ele, com esse mecanismo é possível realizar a limpeza - dentro da mina - a cada três meses, com cloros e outros produtos. Jede esteve em Londina, na semana passada, para repassar seus conhecimentos e disseminar a técnica entre produtores locais. Nas regiões oeste e centro-oeste, segundo ele, já foram protegidas perto de 5 mil nascentes. A intenção, agora, é espalhar a técnica em outras regiões do Paraná.
''A gente trabalha em cima da qualidade de vida das pessoas e a água está diretamente ligada a isso'', reforça Jede. Ele aponta, por exemplo, que estudos mostraram que 80% das doenças que atingem a comunidade rural têm relação com a água contaminada. E mais do que realizar a ação direto na mina, o projeto de Proteção de Fonte Solo e Cimento atua em toda a área em volta da nascente, recuperando a mata ciliar. ''O reflexo da ação se vê com a volta dos animais silvestres, pássaros, peixes. Além da melhoria da produção da agroindústria'', revela. Fica evidente ainda os bons resultados quando se vê que a erosão e os desníveis de terra são eliminados.
Novos focos
A assistente social da Emater Londrina, Genny Seifert Santos, reforça que a intenção é realmente divulgar o projeto e capacitar técnicos locais para aplicar o programa na região. ''Pelas experiências de outros locais percebemos o quanto a iniciativa traz resultados positivos e queremos isso para nós também'', destaca Genny, frisando que muitos produtores têm ligado na Emater para saber mais sobre a iniciativa de proteção de minas.
Segundo ela, esse projeto será aplicado dentro dos programas de saneamento que a Emater já realiza na região. Ela ressalta que poderá haver certa resistência por parte dos produtores em um primeiro momento, principalmente, por conta dos custos para ''lacrar'' a mina - em torno de R$ 150 com a compra de materiais. Porém, a Emater mostrará a influência da água na produção e para o consumo próprio e o quanto a preservação da mina poderá melhorar a qualidade de vida deles. ''Já estamos conversando com alguns produtores para que coloquem essa despesa no orçamento e possam realizar o projeto em suas propriedades'', diz. Conforme Genny, ainda não há levantamento do número de fontes de água na região.


‘Esperança de vida’  
Pa­ra o agri­cul­tor ­Odair Jo­sé Gon­çal­ves, pro­prie­tá­rio do Sí­tio do Tá­ta, em Ta­ma­ra­na, on­de foi pro­te­gi­da a pri­mei­ra nas­cen­te de ­água na re­gião de Lon­dri­na por ­meio do pro­gra­ma de Pro­te­ção de Fon­te So­lo e Ci­men­to da Ema­ter, rea­li­zar es­sa ­ação sig­ni­fi­ca acre­di­tar na vi­da, no fu­tu­ro.
  ‘‘Ve­jo a pro­te­ção da mi­na co­mo es­pe­ran­ça de vi­da. Sem ­água, e de boa qua­li­da­de, não exis­ti­mos, não so­bre­vi­ve­mos. Ela é ele­men­to fun­da­men­tal pa­ra ­nós’’, de­fi­ne o pro­du­tor, afir­man­do que não ha­via pro­te­gi­do a mi­na exis­ten­te no seu sí­tio an­tes por­que des­co­nhe­cia o pro­je­to da Ema­ter.
  Gon­çal­ves con­ta que ele e a fa­mí­lia uti­li­zam a ­água da fon­te pa­ra con­su­mo pró­prio e pa­ra a pro­du­ção. Se­gun­do ele, nun­ca ti­ve­ram ne­nhum pro­ble­ma efe­ti­vo de saú­de, mas re­la­ta que era pos­sí­vel ver a ­olho nu as im­pu­re­zas que ha­via na ­água. ‘‘Pen­san­do na fa­mí­lia, nas crian­ças re­sol­vi fa­zer a pre­ser­va­ção e ter ­mais qua­li­da­de de ­vida’’, diz o agri­cul­tor, que tem ­três fi­lhos. Ele acres­cen­ta que ­além da saú­de pró­pria tam­bém pen­sou nos be­ne­fí­cios que a me­di­da vai ge­rar ao ­meio am­bien­te. Ago­ra, afir­ma ele, pre­ten­de ser um ele­men­to dis­se­mi­na­dor da tec­no­lo­gia por to­da a re­gião. (E.Z.)


Trabalho feito em parceira
  O pro­gra­ma de Pro­te­ção de Fon­te So­lo e Ci­men­to é rea­li­za­do em gru­po, em con­jun­to, em par­ce­ria. ‘‘Não é um tra­ba­lho que dá pa­ra fa­zer so­zi­nho, a co­la­bo­ra­ção da co­mu­ni­da­de é mui­to ­importante’’, res­sal­ta Al­tair ­Luiz Je­de, téc­ni­co agro­pe­cuá­rio da Em­pre­sa de As­sis­tên­cia Téc­ni­ca e Ex­ten­são Ru­ral (Ema­ter).
  Se­gun­do ele, ca­da fon­te la­cra­da é si­nô­ni­mo de fes­ta. As ta­re­fas pa­ra lim­par e la­crar a mi­na du­ram o dia to­do e ­quem aju­da a rea­li­zar as ati­vi­da­des aca­ba par­ti­ci­pan­do de mo­men­tos de con­fra­ter­ni­za­ção. ‘‘A gen­te faz chur­ras­co, se con­fra­ter­ni­za, se di­ver­te. Mas o ­mais im­por­tan­te é que os pro­du­to­res re­to­mam al­guns va­lo­res, co­mo o com­pa­nhei­ris­mo e a ­colabo-ração’’, pon­tua Je­de.
  Pa­ra de­fi­nir em ­qual fon­te se­rá im­plan­ta­do o pro­je­to, téc­ni­cos da Ema­ter vi­si­tam a pro­prie­da­de e ava­liam as con­di­ções do lo­cal. Exis­tem mi­nas di­fe­ren­tes – que nas­cem no ­chão, na pa­re­de – nem to­das po­dem ser la­cra­das. ­Além do tra­ba­lho nas nas­cen­tes, os vo­lun­tá­rios fa­zem a lim­pe­za da pro­prie­da­de, re­co­lhen­do o li­xo, dan­do orien­ta­ções so­bre re­ci­cla­gem e sa­nea­men­to bá­si­co. ‘‘A gen­te já per­ce­beu que o la­do so­cial dos pro­du­to­res me­lho­rou ­muito’’, acres­cen­ta. (E.Z.)

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