Minas lacradas, água protegida
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sexta-feira, 09 de outubro de 2009
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
Água de melhor qualidade para a produção e consumo próprio dos moradores da área rural estão entre os principais objetivos de um projeto que protege as nascentes e recupera a mata ciliar. A iniciativa, em andamento há mais de 20 anos na região centro-oeste do Paraná, dá seus primeiros passos em propriedades do norte do Estado.
''O meio rural sempre teve problemas com a qualidade da água o que acaba prejudicando a produção de alimentos e ocasionando doenças. Com o projeto de recuperação de minas d'água, nossa proposta é garantir o abastecimento de água potável'', destaca Altair Luiz Jede, técnico agropecuário da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), em Cafelândia, e precursor do programa Proteção de Fonte Solo e Cimento.
A ideia consiste em proteger as fontes e nascentes de água com pedra, solo e cimento. ''É como se a mina fosse lacrada'', define o técnico. Com a medida, as nascentes ficam ''guardadas'', ''isoladas'' e protegidas de elementos que provocam a contaminação. Entre os principais fatores que causam a contaminação estão substâncias tóxicas - como óleos, graxas e detergentes -, coliformes fecais e defensivos agrícolas.
Lacrar a mina, contudo, significa fechá-la, canalizando essa água: faz um piso de cimento, paredes, laterais e na frente, com saída da água através de canos. ''Estando fechada, a fonte fica protegida de animais, folhas, lixos que por ventura possam cair no local e provocar a perda da qualidade da água'', diz o técnico da Emater. Além disso, segundo ele, com esse mecanismo é possível realizar a limpeza - dentro da mina - a cada três meses, com cloros e outros produtos. Jede esteve em Londina, na semana passada, para repassar seus conhecimentos e disseminar a técnica entre produtores locais. Nas regiões oeste e centro-oeste, segundo ele, já foram protegidas perto de 5 mil nascentes. A intenção, agora, é espalhar a técnica em outras regiões do Paraná.
''A gente trabalha em cima da qualidade de vida das pessoas e a água está diretamente ligada a isso'', reforça Jede. Ele aponta, por exemplo, que estudos mostraram que 80% das doenças que atingem a comunidade rural têm relação com a água contaminada. E mais do que realizar a ação direto na mina, o projeto de Proteção de Fonte Solo e Cimento atua em toda a área em volta da nascente, recuperando a mata ciliar. ''O reflexo da ação se vê com a volta dos animais silvestres, pássaros, peixes. Além da melhoria da produção da agroindústria'', revela. Fica evidente ainda os bons resultados quando se vê que a erosão e os desníveis de terra são eliminados.
Novos focos
A assistente social da Emater Londrina, Genny Seifert Santos, reforça que a intenção é realmente divulgar o projeto e capacitar técnicos locais para aplicar o programa na região. ''Pelas experiências de outros locais percebemos o quanto a iniciativa traz resultados positivos e queremos isso para nós também'', destaca Genny, frisando que muitos produtores têm ligado na Emater para saber mais sobre a iniciativa de proteção de minas.
Segundo ela, esse projeto será aplicado dentro dos programas de saneamento que a Emater já realiza na região. Ela ressalta que poderá haver certa resistência por parte dos produtores em um primeiro momento, principalmente, por conta dos custos para ''lacrar'' a mina - em torno de R$ 150 com a compra de materiais. Porém, a Emater mostrará a influência da água na produção e para o consumo próprio e o quanto a preservação da mina poderá melhorar a qualidade de vida deles. ''Já estamos conversando com alguns produtores para que coloquem essa despesa no orçamento e possam realizar o projeto em suas propriedades'', diz. Conforme Genny, ainda não há levantamento do número de fontes de água na região.
Esperança de vida
Para o agricultor Odair José Gonçalves, proprietário do Sítio do Táta, em Tamarana, onde foi protegida a primeira nascente de água na região de Londrina por meio do programa de Proteção de Fonte Solo e Cimento da Emater, realizar essa ação significa acreditar na vida, no futuro.
Vejo a proteção da mina como esperança de vida. Sem água, e de boa qualidade, não existimos, não sobrevivemos. Ela é elemento fundamental para nós, define o produtor, afirmando que não havia protegido a mina existente no seu sítio antes porque desconhecia o projeto da Emater.
Gonçalves conta que ele e a família utilizam a água da fonte para consumo próprio e para a produção. Segundo ele, nunca tiveram nenhum problema efetivo de saúde, mas relata que era possível ver a olho nu as impurezas que havia na água. Pensando na família, nas crianças resolvi fazer a preservação e ter mais qualidade de vida, diz o agricultor, que tem três filhos. Ele acrescenta que além da saúde própria também pensou nos benefícios que a medida vai gerar ao meio ambiente. Agora, afirma ele, pretende ser um elemento disseminador da tecnologia por toda a região. (E.Z.)
Trabalho feito em parceira
O programa de Proteção de Fonte Solo e Cimento é realizado em grupo, em conjunto, em parceria. Não é um trabalho que dá para fazer sozinho, a colaboração da comunidade é muito importante, ressalta Altair Luiz Jede, técnico agropecuário da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).
Segundo ele, cada fonte lacrada é sinônimo de festa. As tarefas para limpar e lacrar a mina duram o dia todo e quem ajuda a realizar as atividades acaba participando de momentos de confraternização. A gente faz churrasco, se confraterniza, se diverte. Mas o mais importante é que os produtores retomam alguns valores, como o companheirismo e a colabo-ração, pontua Jede.
Para definir em qual fonte será implantado o projeto, técnicos da Emater visitam a propriedade e avaliam as condições do local. Existem minas diferentes que nascem no chão, na parede nem todas podem ser lacradas. Além do trabalho nas nascentes, os voluntários fazem a limpeza da propriedade, recolhendo o lixo, dando orientações sobre reciclagem e saneamento básico. A gente já percebeu que o lado social dos produtores melhorou muito, acrescenta. (E.Z.)


