Milagre da alta produtividade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Jota Oliveira 
Arquivo FRQuem quiser produzir mais, tem que ser empresárioUma empresa produtora de sementes está para iniciar, na próxima safra de verão (97/98), um projeto de integração com produtores rurais de Mauá da Serra, no Norte do Estado, destinado a elevar a produtividade da soja em lavoura comercial, de 120 para 200 sacas por alqueire (49 e 80,7 sacas por hectare, respectivamente). Mesmo a produtividade atual obtida naquele município é maior do que as produtividades médias do Paraná (em torno de 45 sacas/ha) e brasileira (35-36 sacas/ha). A possibilidade do milagre - produzir mais de 80 sacas/ha - já foi demonstrada em campos experimentais de pequeno porte cultivados pela firma como experiência.
Denominado Projeto de Alta Produção de Soja , o método pode - assegura Iwao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) e da empresa Sementes Mauá - ser utilizado em outras lavouras. Como milho, arroz e trigo, por exemplo. Trata-se do uso de tecnologia de baixo custo baseada, apenas, no emprego correto dos insumos e no manejo adequado. Para levar o projeto adiante, Miyamoto contratou um especialista, Dr. Tsuyoshi Yamada, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós (Esalq), de Piracicaba, SP. Yamada é especialista em nutrição de plantas e defende a preservação e manejo dos microorganismos, seres indispensáveis a altos rendimentos na agricultura.
Uma das estratégias de Yamada é analisar o solo para corrigir, se necessário, os níveis de micronutrientes como molibidênio, zinco e cobre, em vez de analisar apenas os macronutrientes representados pela fórmula NPK (nitrogênio, fósforo e potássio).
Jogando comida foraO presidente da Abrasem diz que, na região de Mauá, são comuns as produtividades de 120 sacas de soja e 250 sacas de milho por alqueire (49 e 103 sacas/ha, respectivamente). São boas produtividades que podem até dobrar com pouco esforço a mais do agricultor.
Temos meios de produzir mais, sem muitos gastos. É uma questão de manejo, afirma Miyamoto. Ele observa que, da maneira como é feita a adubação hoje, o lavrador está só jogando adubo, sem se preocupar com as pequenas porções de microelementos balanceados.
O costume é fazer análise de solo apenas para ver os níveis de NPK. Não se presta atenção à fisiologia da planta, para ver de quanto adubo ela precisa, e se precisa de algum tipo de nutriente. O lavrador está dando comida errada, na hora errada. É preciso fazer um balanço também dos micronutrientes. Se isto for feito, este salto de produtividade será alcançado, espera o agrônomo.
Ele nota que até agora a fórmula dos adubos é genérica, quando precisaria ser específica para cada caso. Isto se consegue, fazendo uma análise de solo bem feita. Conforme os resultados da análise do solo e das plantas, pode-se chegar até a inverter as épocas de plantio, e o sistema de adubar. Aprendemos, por exemplo, que a adubação de cobertura de nitrogênio no milho deve ser depois do plantio, mas o milho absorve a maioria de suas necessidades de nutrientes até 60 dias. Após isto é jogar adubo fora.
Ainda defendendo uma nova postura em relação à análise dos nutrientes, Miyamoto comenta que na região de Mauá existe deficiência de manganês e, sme corrigir isto, não adianta adubar. Mas, afirma, seu consultor Yamada revolucionou épocas de plantio e de adubação do milho. A tecnologia se aplica em outras lavouras (soja, café, arroz e feijão). Em soja Miyamoto já comprovou nos campos experimentais. Agora levará a experiência para lavouras comerciais de soja, tendo a parceria de outros produtores, sob orientação técnica, para alcançar as 80,7 sacas por alqueire já obtidas experimentalmente.
O Sr. Yukimitsu Uemura é o presidente do Conselho do Projeto de Alta Produção de Soja, que reúne 28 agricultores. Ele é um campeão de produtividade e até recebeu recentemente, em São Paulo, uma comenda concedida por uma associação nacional da colônia japonesa no Brasil, por sua contribuição ao desenvolvimento da região onde vive há mais de 30 anos. Uemura é prova de que existe tecnologia para altas produtividades agrícolas no Norte do Paraná, e mostrar isto é um dos objetivos do projeto. Iwao Miyamoto comenta que na primeira etapa do projeto - alcançar 200 sacas/alqueire - não haverá grande lucro, pois o objetivo é dominar a tecnologia. A segunda meta será tornar a atividade mais econômica e no terceiro estádio o maior objetivo será divulgar a tecnologia para a comunidade.
Os produtores estão sendo convidados a participar e terão que assumir compromisso com o projeto, comenta Miyamoto, garantindo que o salto que se dá em produção e qualidade é muito bom.
Como fazerEm primeiro lugar, diz Miyamoto, corrige-se a capacidade da terra. Depois, faz-se só a adubação de reposição dos elementos que a cultura gastou para produzir. E tudo precisa ser bem feito, com análise de solo, recomenda. O produtor integrado ao projeto precisa dominar a tecnologia nutricional das plantas, fazer a análise foliar e dos microelementos do solo; fazer a correção total do solo (depois só corrigir conforme a necessidade de repor os elementos gastos no cultivo. E só conforme a necessidade de reposição.
Neste nível de tecnologia a lavoura dá mais retorno financeiro, justifica o presidente da Abrasem. Ele recorda que o plantio direto em alta escala começou em Mauá da Serra e agora o município será pioneiro, no Paraná, na produção de 200 sacas de soja por alqueire. Yamada está revolucionando o conceito de adubação completa no Brasil, salienta Miyamoto, acrescentando: Aprendemos que nossas parcelas com potássio perdiam com erosão pluvial; aplicava-se uréia a lanço e perdiam-se 80% no plantio direto. Agora sabe-se que é preciso enterrar a uréia. Uréia precisa enterrar, mas nitrato de sulfato não. No que mais ele bate é nos microelementos, mas é como remédio: quando é muito, prejudica.
No NPK pode-se errar eventualmente e não acontecer nada ruim, diz o empresário. Mas, nos microelementos, se o lavrador errar terá problema de desequilíbrio nutricional. Quem quiser produzir mais, tem que ser empresário, ter conhecimento técnico. É um desafio que vamos passar para o lavrador, salienta Miyamoto. Ele informa que sua empresa fez parceria com a Monsanto, para um trabalho do qual a Coamo também participará, em menor escala, para produção de sementes destinadas ao plantio com essa técnica.


