O amido modificado a partir da fécula da raiz abre novas perspectivas para cultivo e consumo da planta nativa do País Carolina Avansini De Londrina Popularmente consumida na forma de farinha, principalmente em lares menos favorecidos do Brasil, a mandioca sempre foi tratada como uma cultura inferior e sem maior importância econômica. Mas nos últimos anos, com a abertura de novas possibilidades de uso, pesquisa e indústria estão mais interessadas no desenvolvimento de variedades, no estudo de novas técnicas de processamento e aproveitamento. A base para a enorme utilidade da mandioca é o amido modificado a partir da fécula da raiz, informou o pesquisador Carlos Estevão Leite Cardoso, da Embrapa Mandioca e Fruticultura em Cruz das Almas (BA). Disponível na forma de pó, cola e gel, o produto, em algumas ocasiões, substitui o amido de milho com vantagens. Sorvetes, xarope de glicose, pudins, sopas e outros alimentos industrializados, engomagem e estamparia de tecidos, fabricação de papel, papelão e derivados constituem algumas das possibilidades de aproveitamento desse produto brasileiro nativo. ''São mais de mil itens'', observou o pesquisador. A maior dificuldade da indústria para aderir à troca, porém, é a instabilidade do mercado, aliada à desorganização do setor produtivo. Organização Para o especialista, a participação seria maior se a cadeia produtiva fosse mais organizada. ''É preciso estabelecer, previamente, que volume de área plantar e o tipo de tecnologia a ser utilizada, para atrair a atenção de grandes grupos compradores'', comentou. O setor industrial, por sua vez, deveria reservar melhor tratamento aos agricultores, aspecto que, para ele, enfrenta mudanças positivas. ''A situação está bem melhor do que há cinco anos atrás. Hoje, observa-se uma aproximação maior entre produtores e indústria, com contratos formalizados e preço mínimo básico em torno de R$ 55 por tonelada de raiz'', informou. Competitividade Atualmente, o Brasil produz 25 milhões de toneladas de mandioca por ano. ''O setor é bastante competitivo, tanto no mercado interno como no externo, mas precisa ser valorizado'', opinou Carlos. De acordo com ele, os brasileiros não dão valor à mandioca por se tratar de um produto extremamente disponível no País. ''Tudo que é fácil acaba sendo desprezado'', afirmou. Para Cardoso, um dos caminhos para melhorar a imagem da raiz é ressaltar que se trata de um produto genuinamente brasileiro, cujo cultivo oferece baixo risco e agrega mão-de-obra. Outra vantagem é a pouca suscetibilidade a pragas e a possibilidade de esperar até dois anos para efetuar a colheita. ''Dá para aguardar oportunidades de melhores vendas.'' Pesquisa O desenvolvimento do setor também depende do desenvolvimento de tecnologias. De acordo com o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), José Osmar Lorenzi, ''a mandioca tem sido muito desprezada e é pouco estudada no Brasil, em relação a outras culturas''. Para ele, novas técnicas são fundamentais para que o produtor possa plantar variedades mais produtivas e resistentes às doenças, visando o aumento da produtividade e a redução dos custos de produção. ''Nós precisamos ainda de herbicidas com boa eficiência, melhores máquinas de plantio e colheita, que reduzam a mão-de-obra; e melhor controle de pragas e doenças'', disse. Projeto de Lei No dia 18 de outubro, a Câmara dos Deputados e a Embrapa promovem em Brasília o seminário ''A Importância Social e Econômica da Mandioca para o Brasil''. A iniciativa é do deputado Aldo Rebelo (PC do B). O evento deve servir como fundamentação a um projeto de Lei que prevê a introdução de 10% de fécula de mandioca na fabricação de pães. No Brasil a transformação de raízes de mandioca origina três subprodutos: raspas secas ao sol, farinha e fécula. Do total beneficiado, o fabricação de farinha utiliza de 30% a 35% da produção de raízes e a produção de fécula, 25%.

mockup