Meu pai, eu e um velho violão saudoso
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sábado, 12 de setembro de 2020
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Meu pai era uma pessoa simples que veio da roça, assim como minha mãe, e embora tivesse até apenas o quarto ano primário (que naquela época , década de 1930, 1940 ensinava muito com suas sabatinas), gostava muito de comprar livros e ter um dicionário Aurélio na estante. Gostava de escrever e guardava suas poesia e histórias sobre o trabalho no campo e algumas músicas caipiras- era assim que se chamava a música sertaneja antigamente.
Escrevia tudo à mão depois que vinha do trabalho noturno na padaria.Era uma maneira de aliviar o cansaço e as tensões do dia a dia. Em seus pequenos cadernos, passava para o papel pensamentos que lembravam coisas antigas. Com o tempo, alguns escritos foram se perdendo. Alguma coisa ainda tenho em casa e sinto saudade de suas recitações na sala de casa quando declamava alguma poesia e tocava alguma música no violão.
Eram momentos inesquecíveis. Às vezes pegava o violão e cantava uma música com meu tio Aluísio ,irmão mais novo dele,quando o tio ia lá em casa ver minha avó Tereza. Meu tio tocava "Abismo de Rosas" quase como o Dilermando Reis. Pelo menos era o que eu achava quando criança.
Às vezes quando iam parentes em casa, o violão saía do canto e iam aparecendo valsas, serestas e umas músicas mais antigas que as outras. A gente chama de música sertaneja, mas antigamente falava-se música caipira. Hoje o termo já não soa mais pejorativo, mas houve época em que algumas pessoas tinham vergonha das músicas do campo.Principalmente na década de setenta, quando muitos cantores brasileiros cantavam músicas em inglês e tinham os nomes americanizados.
Hoje a música caipira é a chamada música de raiz e é muito admirada. As músicas falavam sobre amores, lições de vida, trabalho na roça e natureza, principalmente. E os cantores mais famosos eram o Tonico e Tinoco. Claro que havia outros também. E na atualidade há muitos cantores famosos que revisitam o gênero musical, inclusive dando uma roupagem nova às antigas modas de viola.
As músicas hoje em dia são mais alegres e emprestam da tecnologia o som e o ritmo que os jovens gostam. Inventaram até um termo novo, sertanejo universitário. E as músicas, além de atualizar costumes, criam novos.
Em cada época há uma mudança, novas gerações de cantores e músicas. Antigamente, o que predominava era o disco de vinil, aquele discão que tocava em radiola. Muitas delas eram verdadeiros móveis e eram muito caras. Depois vieram os toca-discos com os toca-fitas também, depois os cds –compact disc- e logo mais os pen-drives e mais à frente sabe Deus o que virá.
Toda essa tecnologia vai levando as pessoas a ouvir uma qualidade de som cada vez melhor. Já a qualidade das músicas depende muito do gosto de cada um.
Lembro que meu pai e eu às vezes cantávamos na sala de casa, ele tocando seu antigo violão e eu fazendo a segunda voz, músicas de uma nostalgia profunda de épocas em que as músicas tinham sentimento e melodia. Para mim era uma grande alegria poder usufruir da sua companhia. Bons tempos. Hoje ele deve estar tocando seu violão lá no céu e alguns anjos devem estar fazendo coro, afinal todo bom caipira vai para o céu.
Dailton Martins é leitor da FOLHA


