Dezessete pequenos sitiantes de Santa Isabel do Ivaí, a 80 quilômetros de Paranavaí, produziam individualmente, com dificuldade, abacaxi e outras frutas. Eles uniram-se e arrendaram área de 22 hectares, na Fazenda Santa Filomena, para instalar uma lavoura de propriedade comum. O condomínio está fazendo a primeira colheita, tem mercado para suas frutas e já entra no negócio de mudas de qualidade.
Pedro Branco: no começo, fruticultura deve ser acompanhada de lavoura anualA Fazenda Santa Filomena pertence ao engenheiro-agrônomo Pedro Branco, diretor-técnico da Sociedade Rural do Paraná e presidente da Sociedade Rural de Santa Isabel do Ivaí. Ele é um dos integrantes do grupo de condôminos e foi o primeiro plantador de laranjas no município que, com 471 hectares, é o segundo maior produtor de cítricos daquela região - o maior é Paranavaí, onde se localiza a única indústria de sucos cítricos do Estado.
Recursos somadosCultivar abacaxi não é tarefa fácil. Precisa, como toda lavoura comercial, de atenções especiais, desde a escolha do terreno ao preparo do solo, assistência técnica permanente, uso de insumos. Para facilitar a produção que vinham conduzindo em suas pequenas propriedades, profissionais liberais, comerciantes e até lavradores, decidiram formar o condomínio, idéia que já era aplicada no Rio Grande do Sul.
No condomínio na Fazenda Santa Filomena, apenas um técnico agrícola, Manoel Messias Pereira Cândido, que antes trabalhava para a Coopagro, de Nova Londrina, atende a plantação única dos 17 produtores. E cuida de tudo, da lavoura ao mercado - não só das frutas mas também das mudas, que vende a RS$0,08.
‘‘Há 12 anos eu já pensava que era preciso por uma fruta na bandeira do município’’, lembra Pedro Branco, o primeiro plantador de laranja no Extremo Noroeste do Estado, quando era diretor da Coopagro. A cooperativa estimulava a citricultura, tendo em vista a futura instalação de uma indústria de sucos para exportação em Paranavaí.
Produção de abacaxi exige permanência de mão-de-obra no campoEle considera a produção de abacaxi mais complicada do que das demais frutas. Por isso, cedeu uma parte de sua fazenda para o consórcio, do qual também participa. A maioria das propriedades rurais de Santa Isabel do Ivaí tem aproximadamente 10 hectares. Média pequena, mas pode ser diversificada com introdução de fruticultura, além de outras atividades.
QualidadeUma das preocupações dos condôminos na produção de abacaxi, destaca Pedro Branco, é a qualidade, não somente a quantidade e tamanho dos frutos, que chegam a pesar mais de três quilos (espera-se média de 2,5 kg). Até há pouco, a região era abastecida apenas por abacaxis de Goiás, Minas e São Paulo. Agora, o abacaxi de Santa Isabel está abrindo seu mercado. ‘‘Não adianta dominar o mercado, sem qualidade. Por isso, temos um padrão de qualidade acima da média’’, afirma Pedro Branco.
O principal responsável pela qualidade da lavoura e dos frutos é o técnico agrícola Manoel Messias Pereira Cândido. Ele explica como deve ser plantado e conduzido um abacaxizal de boa qualidade: o preparo do solo é o comum, usado para as demais culturas agrícolas, mas os tratos culturais (calagem, fosfatagem e adubação - sete aplicações - de cobertura) são especiais para abacaxi, nas condições do solo de arenito caiuá.
Entre os tratos culturais, além da adubação, e tratamentos fitossanitários, é preciso eliminar as coroas em excesso; ensacar as frutas - nas épocas mais quentes do ano cobrem-se parcialmente os abacaxis com jornal, para o Sol não queimar os frutos, o que os deixaria manchados e com menor qualidade; controlar a cochonilha, que é a praga mais comum causadora de danos econômicos no abacaxizal; e combater o fusarium, doença que ataca mudas, plantas em todos os estágios e os frutos. De todo o processo de produção, o controle das doenças é o mais caro.
Para o plantio, fazem-se murunduns, que permitirão irrigar a plantação nos períodos de estiagem; as mudas são distribuídas com um carrinho que marca onde se deve colocar cada uma. Elas são intercaladas, no espaçamento de 50 cm entre plantas e 1 metro entre linhas. Abacaxi precisa de solo bem drenado, porque não suporta solo encharcado. O clima em Santa Isabel do Ivaí tem umidade relativa do ar superior à das demais regiões do Estado, devido à proximidade do Rio Paraná. Além dessas condições, gosta de mais luminosidade, o que é importante para o grau brix, que define o nível de açúcar na fruta.
Custo e mercadoManoel Messias estima o custo de produção em R$0,18-R$0,22 o fruto, enquanto o preço de venda tem sido em torno de R$0,30 o quilo, ‘‘com tendência a alta’’. Nesse preço, o fruto de 2,5 kg sai por R$0,75.
Os primeiros abacaxis colhidos pelo consórcio foram vendidos para Maringá. Os condôminos estão sondando outros mercados, como os de Santa Catarina, Sul do Paraná, Cascavel e Foz do Iguaçu. Eles esperam colher em toda a safra, até março do ano que vem, 900 mil quilos da fruta.
DiversificaçãoO presidente da Sociedade Rural do município afirma que o clima da região, seco e quente, com muitas horas diárias de insolação, é bom para a fruticultura tropical. Porém, ressalva que o lavrador não pode dedicar-se, no começo, apenas à fruticultura, porque ela demora para dar retorno. Caqui, por exemplo, leva 10 anos para atingir uma produção comercial; abacate, 7 anos; laranja, poncan e mexerica, de 3 a 4 anos.
‘‘A maioria dos sitiantes não tem condições de esperar tanto tempo sem ter renda; por isso eles precisam dedicar-se também a uma atividade que dê retorno rápido, como os grãos’’, justifica. Ele sugere que em princípio, nas menores propriedades, frutíferas sejam plantadas nos cordões de contorno e nas curvas de nível. O abacaxi tem resposta mais rápida, está dando sua primeira safra significativa após um ano e seis meses do plantio. No consórcio é usada a variedade Smoot cayene.
Branco diz que, a exemplo da região de Umuarama, onde a soja está entrando no arenito, com bons resultados, em Santa Isabel do Ivaí e demais municípios da região de Paranavaí essa também pode ser uma boa opção, desde que seja feito o plantio direto, que protege do desgaste contínuo o frágil solo do arenito caiuá.
Como a fruticultura exige a presença constante do homem, muitas vezes até no meio da noite e de madrugada, ela ajuda a fixar mão-de-obra no campo, diminuindo o problema do esvaziamento demográfico do Noroeste paranaense, região que mais sofreu emigração nos últimos 20 anos. Em 1975 o município de Santa Isabel do Ivaí tinha 36 mil habitantes; hoje tem cerca de 10 mil - calcula o técnico agrícola da Emater, Antônio Roberto Gonçalves.
Aquela atenção permamente é exigida, por exemplo, na desbrota do abacaxi quando a fruta apresenta mais de um broto, ou quando é preciso ensacar parcialmente cada fruta, para evitar queima pelo sol. Somente na área do condomínio, está prevista a produção de 450 mil frutas nesta safra.
Rui Aparecido Cardoso, sócio do Posto BR, em Santa Isabel do Ivaí, é um dos condôminos. Ex-funcionário do Banco do Brasil, há três anos fez um acordo para sair do banco. Tornou-se comerciante de combustível e sitiante. Tem café adensado (17 mil pés em 3,63 hectares); começa a colher urucum, em seu sítio de 19,36 hectares, e abacate. Seu sócio, Benedito Sérgio Patron, igualmente foi bancário e é um dos condôminos. Patron produz também urucum, café adensado, abacate e outras frutíferas.
Pedro Branco, além de abacaxi no consórcio, cultiva melancia (irrigada) e outras frutas. Produz ainda feijão, que teve produtividade média de 65 sacas/alqueire na última safra, e milho (220 sacas ou 12.300 quilos).

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