Imagem ilustrativa da imagem Mestre canoeiro
| Foto: Marco Jacobsen

Seu nome é Juarez da Silva, porém ele é mais conhecido por Mestre Pituba. Ninguém sabe a origem do apelido. Algumas pessoas o chamam pelo nome e outras pelo apelido. Ele não se importa com isso e atende a todos com gentileza. Beirando os 70 anos, mora na região de Guaraqueçaba, no litoral paranaense. Aprendeu o ofício com seu pai, mestre Amarildo, que foi um exímio construtor de canoas da comunidade da Costa da Lagoa da Conceição, em Florianópolis.

Dizem que os mestres canoeiros aprenderam o ofício com os índios carijós, os quais com apenas um tronco de árvore construíam as “canoas de um pau só”, geralmente feita com a árvore conhecida como Guapuruvú, que em tupi-guarani significa “tronco de fazer canoa”.

Dependendo da mata existente em cada região, também eram utilizadas outras madeiras mais nobres como cedro, timbuíba, canela, ingá, jequitibá, figueira branca, entre outras. A fabricação da canoa caiçara é uma tradição que passa de geração em geração e para alguém ser considerado mestre canoeiro são necessários muitos anos de observação e prática para que o construtor domine por inteiro o processo de fabricação e obtenha o reconhecimento dos pescadores devido à perfeita navegabilidade da embarcação.

As canoas, também chamadas de “pirogas”, já eram utilizadas pelos índios na época do descobrimento do Brasil e até hoje atendem as necessidades de pesca e transporte ao longo dos rios, lagoas, beiras de praia e alto-mar. Mestre Pituba faz canoas desde a década de 1970 quando, com vinte e poucos anos, deixou o litoral catarinense para vir morar no Paraná.

Conta que a melhor madeira para trabalhar é o cedro, mas usou bastante o guapuruvu que, segundo ele, apesar de não ser a melhor opção, era a madeira mais abundante na mata, além de ser leve e macia, o que facilita o serviço de entalhamento.

Dentre os segredos do ofício, relata que a árvore só pode ser cortada quando a lua passa da fase minguante para a nova, para a madeira não rachar ou pegar carunchos. E que o melhor tempo para a derrubada são os meses mais frios e que não tem a letra R, porque nesse período a madeira está mais seca.

Até certa época sua atividade foi muito requisitada. Quando não havia os barcos de alumínio nem restrições para a derrubada de árvores, mestre Pituba conta que chegava a fazer duas canoas por mês. Guarda na memória a história de cada peça produzida: o tipo de madeira utilizada e onde, quando e para quem foi feita. Vive hoje com o pouco dinheiro da aposentadoria e da fabricação de colheres, pilões e gamelas de madeira, dessas que se encontram à venda em beira de estrada.

Antes, quando um temporal derrubava alguma árvore graúda na mata, sempre davam um jeito de avisá-lo para saber se queria utilizar. Alega que agora isso é muito difícil, porque os órgãos de proteção ambiental raramente autorizam retirar uma árvore caída. Por isso, só trabalha por encomenda e com madeira documentada. Sempre com o cigarro de palha no canto da boca, diz que hoje não se dá valor a essas coisas e que na beira do mar em Florianópolis não deve ter mais do que uma dúzia de mestres canoeiros. É uma profissão que se perdeu no tempo, lamenta.

Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA

mockup