O produtor londrinense João Francisco, que planta soja e algodão em uma área de 90 alqueires no distrito da Warta, a 15 km da cidade, é o típico agricultor persistente, que, mesmo sofrendo todos os anos com problemas climáticos, pragas ou preços instáveis, não desiste da atividade rural. Nesta semana, ele iniciou sua colheita de algodão e deve confirmar o que já viu nas lavouras dos vizinhos: uma quebra de produtividade de até 40%, resultado da seca que assolou a região Sul. Além de colher menos, ele deverá sofrer também na hora de vender a produção, pois o preço da arroba estava em apenas R$ 13 na semana passada, devido à grande oferta do produto no mercado interno.
O cenário era totalmente diferente quando João Francisco e os demais cotonicultores da região decidiram plantar algodão em novembro passado. Na época o preço médio era de R$ 20 a arroba, chegando até a R$ 22. O otimismo fez com os produtores ampliassem a área de plantio no Paraná de 45 mil hectares na safra passada para 53 mil ha na atual. Daí veio a seca e o tombo. No começo de abril, quando os produtores de algodão da Cooperativa Integrada, de Londrina, iniciaram a colheita mecanizada, o susto foi geral quando viram uma produtividade de apenas 250 arrobas por alqueire 50% de quebra em relação às 500 arrobas esperadas.
''Se eu colher também só 250 arrobas por alqueires vou pagar para trabalhar, porque o custo que tenho para produzir um alqueire, incluindo a colheita, é de quase R$ 4 mil, bem menos do que se ganha vendendo o algodão no preço em que ele está'', preocupa-se João Francisco. Colocando na calculadora, ele ganharia R$ 3.250 por alqueire (250 arrobas) considerando a cotação do início de abril (R$ 13 a arroba) , mas gastaria R$ 3.780 para produzir. ''O custo de produção do algodão é alto. Eu gasto R$ 3 mil por alqueire só com semente, adubo e aplicação de inseticida e herbicida. Depois ainda pago 60 arrobas por alqueire (R$ 780) só de aluguel da colheitadeira'', relata ele.
Apesar disso, Francisco não descarta a possibilidade de voltar a plantar algodão na próxima safra. ''Não sei, vamos ver como vai estar o preço na época. Em outubro a gente vai reunir os outros produtores da cooperativa para saber quem vai plantar algodão e se conseguiremos um grupo que some 100 alqueires para viabilizar a vinda de uma colhedeira'', diz o esperançoso agricultor. Seu discurso mostra que ele é um teimoso da lavoura. Em março já se frustrou com a soja, com a qual teve perda de 40% nos 80 alqueires plantados. Onde colhia 130 sacos por alqueire, colheu apenas 70 sacos este ano.
Mas não desiste porque sempre aposta que, na próxima safra, poderá cobrir o prejuízo que teve este ano. Agora, por exemplo, Francisco vai plantar o trigo, mesmo sabendo que o preço está baixo (o governo não garante preço mínimo) e que a cultura tem risco de geada e seca. ''A gente tem risco de todo lado, mas não pode deixar de plantar. Só mexo com agricultura e se parar fico pior. Vou emprestar semente e insumos e depois, no fim do ano, ver se dá para pagar a cooperativa. Vai que dá uma produção boa?'', aposta ele. Definitivamente, o que o move é a esperança: ''Ou eu aumento a dívida ou escapo de vez dela''.
Mão-de-obra escassa Pelo menos em uma coisa João Francisco está melhor que outros produtores da região que dependem de mão-de-obra para a colheita manual do algodão e estão enfrentando problemas. É que ele, como cooperado, integra um grupo que faz colheita mecânica, com máquinas emprestadas do Mato Grosso. ''Temos incentivado entre os nossos cooperados a colheita mecanizada porque assim não ficam na mão e colhem num dia só uma área de 5 alqueires que levariam um mês para colher se fosse no sistema manual'', compara o agrônomo da Integrada, Evandro Mendes. Fora isso, têm a vantagem da colheita mecanizada custar R$ 2,50 por arroba, contra R$ 3,50 a R$ 4,00 da manual.
A crise de mão-de-obra é resultado do acréscimo de 17% na área este ano. ''Estamos tendo problemas. As pequenas propriedades, que são 95% do total, ainda fazem colheita manual e a mão-de-obra está escassa'', afirma o presidente da Associação dos Cotonicultores do Paraná (Acopar), Almir Montecelli. Segundo ele, 80% das lavouras do Estado ainda mantêm colheita e capina manual.

mockup