O otimismo tomou conta do negócio soja no Brasil. Segundo o consultor em agronegócios André Pessoa, da Agroconsult, que faz análises de mercado há 15 anos, ''nunca se viu um cenário tão favorável à produção de soja como está sendo 2002 e será 2003.''. (A queda nos preços internos nos últimos dias já estava prevista; ocorre em todos os anos e não muda a trajetória de alta nos últimos anos).
Especialmente no caso da soja, segundo André Pessoa, 2002 marca o final da época ''das vacas magras'' com bons preços, perspectivas de alta produtividade e uma demanda no mercado internacional que outros países não terão condições de atender sozinhos.
Vários fatores, de acordo o consultor, influenciam o mercado da soja. O mais importante deles foi a quebra da safra americana, forçada pelas condições climáticas, e a provável estagnação da área de plantio daquele País, que não tem como mais expandir os cultivos.
Os Estados Unidos, o principal produtor mundial com 80 milhões de t de soja, de 1990 a 2002, tiveram seu plantio estagnado em 30 milhões de ha. Em 2002, segundo André Pessoa, houve até uma redução de 500 mil ha e há estimativa de reduzir um pouco mais no ano que vem. Só a redução americana dessa safra significa 1 milhão de t a menos. Somado a isto, com a ''ajuda'' do clima, é possível subtrair da produção cerca de 6 milhões de t esse ano.
No Brasil existe a perspectiva de crescimento de 4% ao ano nos próximos 10 anos. Segundo o consultor, a demanda de soja no mundo também deverá aumentar em cerca de 8 mil t/ano no mesmo período. Se os americanos já chegaram no limite cabe, ao Brasil e a Argentina, de acordo com André Pessoa, atender a essa demanda do mercado mundial.
''Para atender a essa demanda o desafio não é simples,'' avisa. É preciso, na opinião do consultor, ter recursos, desenvolver tecnologias, entre outras medidas para garantir não só ampliação de áreas, mas também qualidade e produtividade. ''O bom é que pela primeira vez o agricultor tem a perspectiva de fazer tudo isso com lucro, entrando num período em que seu negócio não será mais só para sobrevivência como foi até agora, mas de rendimento.''
O Brasil terá então que lidar com abertura de novas fronteiras para ampliar a produção e atender a demanda pela soja. Não há mais como ocupar áreas que eram do milho; algumas áreas de pastagens já estão sendo usadas para recuperação do solo, mas será preciso abrir novas áreas, como no norte do Mato Grosso, por exemplo.
Outros setores que merecem atenção, segundo André Pessoa, são a estrutura de escoamento da safra até os portos, melhorando as condições de atuais rodovias e apliando novos caminhos; a própria estrutura portuária e a redução do chamado custo brasil para que o produto brasileiro fique mais competitivo em tarifas, impostos, e outros.
A Argentina, outro importante produtor, que já colheu sua safra esse ano, passa por uma profunda crise econômica e não se sabe se haverá dinheiro para o próximo plantio. Os produtores estocaram muito da soja que colheram para usar como moeda a fim de comprar o necessário para a próxima safra. Mas, mesmo assim, tiveram que vender parte da produção e lutam para manter o posto de maiores exportadores de farelo e óleo e o terceiro em grãos no mundo. O reflexo da crise Argentina não é desprezível no mercado internacional.
No Brasil, 40% da safra que ainda será plantada (a época recomendada pela pesquisa começa a partir de 15 de outubro) já foi vendida. Na safra passada cerca de 50% da soja foi vendida antecipadamente e muitos agricultores chegaram a obter uma lucratividade de R$ 5 a mais por saca. ''O fenômeno de descolação de mercado deve se repetir esse ano,'' garante André Pessoa, com boas perspectivas de preços.
A estimativa é de uma produção de 49,5 milhões de t na próxima safra. A área plantada deve aumentar em 14% no Centro-Oeste, 15% em Goiás, 15% na Bahia e, de maneira geral, cerca de 11% em todo o País com aumento de 1,8 milhão a mais do que na safra passada que foi de 41,8 milhões de toneladas.

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