A pecuária viveu bons momentos no mercado interno.''É verdade que os custos de produção subiram, uma vez que a cotação dos principais insumos acompanhou a alavancada do dólar,'' explica Fabiano Tito Rosa, zootecnista e analista da Scot Consultoria. Porém, em função da disparada do dólar, além da entressafra prolongada e do crescimento das exportações, a cotação da arroba do boi gordo atingiu patamares elevados, R$ 60 em São Paulo e R$ 59 no Paraná. ''Por essa razão, a relação de troca entre o boi gordo de 16,5@ e os animais de reposição (magros) atingiu valores muito expressivos.''
Até meados de agosto, na média nacional, foi possível comprar 2,43 bezerros nelore de 12 meses com a venda de um boi gordo, a melhor relação dos últimos seis anos. O ano não foi bom somente para o invernista. O preço do bezerro está em alta há seis anos, atingindo em 2002 a cotação mais alta (em valores nominais), favorecendo também o criador.
Esses números, de acordo com o analista da Scot, garantiram a rentabilidade do setor que variou de 2% a 15% ao ano, dependendo do tipo de exploração (cria, recria e engorda) e da tecnologia empregada. ''É verdade que existem opções mais rentáveis, porém no Brasil, onde a diversificação é quase uma necessidade, a pecuária de corte é uma ótima opção.''
Segundo o analista nunca o governo investiu tanto no setor pecuário. Primeiro o até o nome do Ministério da Agricultura mudou, incluindo Pecuária. Depois foram estendidos programas de financiamento para recuperação de pastagens, compra de animais e equipamentos. O pecuarista, reforça Tito Rosa, também fez sua parte, investindo em tecnologia, melhoramento genético e sanidade.
Um dos reflexos dos investimentos feito por pecuaristas nos últimos anos, acentuado ultimamente, foi o aumento do desfrute do rebanho brasileiro (cabeças abatidas/total de cabeças). Em 10 anos, quase dobrou, passando de 11% para 20%. ''Isso só foi possível com a diminuição da idade de abate, redução do intervalo entre partos, entre outros manejos que possibilitaram avanços conquistados através do aprimoramento genético, nutricional e sanitário.''
O ano de 2002 foi marcado também pelo lançamento de marcas de carne e campanhas de marketing, buscando conquistar nichos de mercado e apostando no ''boi natural'' e verde. Na opinião de Tito Rosa, apesar de ocuparem ainda pouco espaço, essas marcas se constituem em uma tendência, ''que vêm premiar quem investe em tecnologia e qualidade.''
O lado negativo ficou no fraco consumo interno. De acordo com a CNA, consumo está em queda. Em 2001 ficou ao redor de 36 kg/per capita/ano, menor que o ano anterior; este ano tende a diminuir. ''O fraco poder aquisitivo da população é o grande vilão das vendas,'' afirma Tito Rosa. Em outubro, por exemplo, 19% da população economicamente ativa da grande São Paulo, maior mercado consumidor brasileiro, encontrava-se desempregada.
''Seria difícil que arroba do boi gordo chegasse aos patamares atuais se 3,8 milhões de cabeças não tivessem sido abatidas para atender ao mercado externo. Internamente, talvez toda essa carne não pudesse ser absorvida. Nesse sentido, fica a expectativa da ação do governo eleito. O projeto Fome Zero, que torcemos para que dê certo, tende a estimular o consumo de produtos de primeira necessidade, como é a carne vermelha.'' (C.B.).

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