Mercado está abarrotado do produto
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sexta-feira, 12 de setembro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaQueijosIndústria brasileira concorre diretamente com o produto importado que entra via MercosulAo contrário do que se podia esperar de uma entressafra, com menor oferta ou até falta do produto, este ano existe sobra de leite no mercado. Não houve inverno e, consequentemente, nem queda na produção interna (estimada em 21 bilhões de litros/ano). Aliado a isso, as importações, desde o começo do ano, abarrotaram o mercado. Além desses fatores fala-se numa estagnação de consumo interno, provocada pelo desvio de dinheiro para outros produtos (como frango, frutas e verduras), além do maior comprometimento do consumidor com dívidas em outros setores, como o de eletrodomésticos, por exemplo.
Nos últimos três anos o atacadista brasileiro promoveu importações que culminavam no período de menor oferta do leite, no inverno. De olho nesse mercado, os argentinos, por exemplo, se esforçaram para aumentar a produção. Mas o incremento da atividade leiteira dentro do País, segundo as lideranças do setor, tornou a importação prejudicial. Ao autorizar a compra do produto importado, o Governo pensou que poderia estar ajudando o consumidor, colocando produtos mais baratos dentro do País, mas prejudicou o produtor, que também é um consumidor.
Situação difícilNo mercado interno a produção de lácteos - garantem as lideranças da cadeia produtiva - está normalizada. O produtor mais tecnificado programou suas vacas para parirem no início do inverno, quando se consegue melhor preço pelo leite. Também aumentou o número de produtores fazendo comida suplementar para o rebanho na época de pastos ruins. Na indústria foram feitos investimentos no incremento dos produtos lácteos para atender diversas faixas consumidoras.
O diretor-secretário da Cooperativa Agropecuária de Londrina (Cativa) e integrante da Comissão de Pecuária Leiteira da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Osmar Buzinhani, afirma que as importações colocaram não só produtores, mas as empresas nacionais em situação difícil.
Dados da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) mostram que as indústrias de leite em pó, por exemplo, vêm perdendo cada vez mais participação no mercado. Hoje os chamados sem-fábrica ou os importadores ocupam mais de 20% do mercado doméstico do leite em pó, e nas compras governamentais a participação é superior a 70%. No segmento de queijos, a concorrência causou o fechamento de 25 empresas nos últimos dois anos.
Os produtores rurais e cooperativas, segundo Buzinhani, motivados pela estabilização da economia fizeram investimentos para aumentar a produtividade. No Norte do Paraná, pela proximidade com os outros países do Mercosul, as cooperativas enfrentam a concorrência dos produtos importados.
De acordo com Buzinhani, se a situação não for controlada a médio prazo, corre-se o risco de os preços pagos ao produtor no mercado interno serem ainda mais reduzidos do que estão agora. O presidente da Centralnorte, de Apucarana, João Cardnes Marques, conta que o leite C é comercializado a R$0,55 a R$0,60 e o longa vida a R$0,68 a R$0,80, enquanto que o produto importado chega a R$ 0,54. Num ano como esse, em que o clima colaborou para a produção, que teve um aumento ao redor de 30%, o produtor poderia estar ganhando mais.
SubsídiosOs produtores brasileiros, de maneira geral, não estavam preparados para enfrentar a abertura de mercado. As importações dos produtos lácteos é subsidiada no país de origem. Em outros países o subsídio para a produção começa na própria fazenda; está na redução de tributos para compra de equipamentos e insumos e na exportação do excedente da produção, afirma o dirigente. Consequentemente, segundo Buzinhani, nesses países, o produtor acaba tendo menor custo para produzir. Na Argentina e no Canadá, por exemplo, chegam a bancar as exportações para não baixar o preço interno.
O produtor de leite de outros países já enxergou que só ganhará mais através da produção em escala, afirma Buzinhani. No Brasil essa visão começa a chegar aos mais tecnificados. Buzinhani alerta que os produtores devem trabalhar com a possibilidade de aumento de consumo no País baseada na estabilidade econômica proposta pelo Governo. A concorrência está atenta a essa possibilidade.
O possível aumento na produção interna, segundo Buzinhani, deverá vir baseado em custo baixo, qualidade e regularidade de produção. Para isso o produtor terá que dimensionar melhor a propriedade para a atividade leiteira. Saber a área ideal, produzir com rentabilidade, definir rebanho, padrão genético, instalação de acordo com o local onde está, entre outros. Definir também sua participação para fora da porteira, informando-se dos riscos de mercado, administrando e gerenciando a propriedade.
Só vai permanecer na atividade aquele produtor que determinar os índices ideais que interferem no custo da produção dentro da sua realidade. Muitas vezes o produtor encontra essa otimização através das parcerias, organizando-se em grupos para investimentos conjuntos.


