Mercado dita qualidade da carne
Antes de fazer precoce ou superprecoce, produtor deve saber o que mercado melhor remunera
Cláudia Barberato
Arquivo FRNa propriedade
Manejo sanitário e boa alimentação colaboram para a qualidade da carneOs benefícios econômicos de se produzir uma carne de qualidade, maciez e suculência, dependem também das exigências do mercado onde o produto será ofertado. Tem que haver remuneração que compense os investimentos feitos pelos pecuaristas. Há a participação da indústria no processo de bom armazenamento e resfriamento da carne, e o envolvimento de associações representativas, de toda a cadeia produtiva, para ampliar mercados compradores e influir nas decisões políticas do setor.
Toda qualidade tem um custo. Maturar a carne no frigorífico, produzir o boi com preocupação conservacionista, além de ter a exata noção do que o mercado exige em termos de qualidade, deve ser a nova tendência da pecuária de corte, acredita o veterinário e professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, de Campinas (SP), Pedro Eduardo de Felício.
Felício foi um dos participantes do Nelore Whorkshop - Um Dia-de-Campo na Cidade, na última terça-feira, dia 26, em São Paulo. O evento foi promoção da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), com objetivo de abordar não só a qualidade, mas todo o processo produtivo da carne, com ênfase na produção de novilhos precoce e superprecoce, especificamente da raça nelore.
Ampliar mercadosDe acordo com Felício, toda cadeia produtiva deverá se organizar para que sejam adotadas normas de produção diferenciadas, segundo o que se pede nos mercados interno e externo. Nas exportações, por exemplo, atendendo não só Europa e Ásia, mas também os Estados Unidos.
No ano passado, as exportações brasileiras somaram apenas 2,3% do comércio mundial de carne bovina. Mas o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo; são 160 milhões de cabeças, segundo o ministro da Agricultura, Francisco Turra, e condições de exportar, aumentando rentabilidade para o País e todo o setor produtivo.
A liberação dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina para expotar carne bovina e suína em todo o mercado mundial, autorizada nesta semana pela Organização Internacional de Epizootias (OIE), deverá ampliar o índice de exportações.
AliançasOutro modo de ampliar as vendas, também no mercado interno, é fazer o que Felício chama de alianças mercadológicas, com apoio do Governo ‘‘ou não’’, envolvendo todo o sistema, desde fornecedores de insumos, pecuaristas, frigoríficos e postos de venda por região; ‘‘criando pequenas cadeias produtivas, destinadas a atender mercados pré-determinados’’.
Essas alianças, segundo Felício, serviriam para interpretar o mercado interno e externo. ‘‘O objetivo é recomendar o que produzir. O pecuarista tem que trabalhar cada item conforme necessidade de mercado e, desde que esse mercado possa remunerar a qualidade, terá grandes benefícios econômicos.’’
Na propriedadeNa propriedade o trabalho começa, preservando a sanidade dos rebanhos e com rastreamento de animais. Para isso o pecuarista precisará da ajuda de uma política nacional de controle sanitário. Cada Estado ou região terá que implantar seu controle.
Na Itália, por exemplo, conta Felício, o Governo faz uma vez por ano exames de sorologia nos criatórios. O trabalho é feito para detectar possíveis problemas na saúde dos animais. Além disso, fiscaliza-se toda a documentação das vacinações necessárias. No Brasil é preciso trabalhar também na inspeção sanitária dos etabelecimentos de abate da carne, atribuindo regras mais rígidas. ‘‘Hoje está tudo muito solto. Cada Estado faz o que quer e não se tem uma supervisão muito séria de como são feitos os abates, o que prejudica a imagem do País.’’
ExigênciasNo caso dos Estados Unidos, uma das exigências sanitárias é o Hazard Analises Critical Control Point (HACCP), que seriam testes para detectar perigos e pontos de controle de possíveis doenças na carne. A exigência, segundo Felício, começou em 1993, devido a mortes de pessoas por microorganismos patogênicos, detectados como provenientes da carne.
‘‘Nos Estados Unidos esse controle é obrigatório na indústria. Se o Brasil pretende vender carne naquele mercado, terá que provar que não tem o problema. Mas há dúvidas de que estes testes seriam realmente necessários aqui. O País tem um sistema de criação diferente. A maioria dos animais é criado a pasto; e o foco desses microorganismos, ao que parece, estaria no próprio animal criado em confinamento intenso’’.
No Brasil, segundo o veterinário, não se tem pesquisa na área. Mas a Nova Zelândia, onde a criação bovina é semelhante à que acontece aqui, não detectou o problema. Mesmo assim, países que desejam vender para as indústrias americanas têm que fazer as análises. Um impedimento é o custo.
Os testes são análises microbiológicas no processo de abate, na superperfície da pele e no pêlo dos animais. ‘‘Temos um gado mais limpo, que toma sol e não chega muito sujo ao frigorífico. Se o objetivo for exportar carne apenas para Europa e Ásia, não será necessário gastar dinheiro com isso. Daí a importância de organizar o sistema de produção e decidir o que vender e para quem sugere’’, comenta Felício.
PassaporteOutro ponto a ser adotado no Brasil, descreve o veterinário, é o sistema nacional de identificação de animais ou rastreamento. ‘‘O resto do Mundo já se prepara para implantar o passaporte animal’’. Um brinco na orelha do boi, criado na Europa, por exemplo, contém, em códigos, todos os dados, desde o nascimento até o abate. ‘‘Por enquanto esse trabalho ainda é manual. No futuro a idéia é substituir os brincos por códigos de barra.’’
O rastreamento, de acordo com o veterinário, resultaria numa ‘‘carteira de identidade dos animais’’, com código do País, Estado, município, proprietário e outras informações sobre o animal.

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