É possível modificar a qualidade do ambiente produtivo, modernizando a agricultura sem provocar os prejuízos que o modelo produtivista acarretou aos recursos naturais do Estado? Os 143 agricultores da Microbacia do Rio do Campo estão provando que sim. Numa ação em conjunto, eles desenvolvem uma série de atividades que transformaram a área de 7.076 hectares em modelo não só para o Brasil, como também para vários outros países do mundo.
Tudo começou há mais de 22 anos, quando o Rio do Campo se tornou uma das primeiras bacias hidrográficas do País. Os primeiros passos foram o terraceamento mecânico, a adequação de estradas e o reflorestamento às margens do Rio do Campo, de onde saem 90% da água consumida pelos moradores de Campo Mourão. O trabalho preservacionista se intensificou na década seguinte, com a implantação do plantio direto, que hoje ocupa 94% da área de soja, e o controle da poluição por agrotóxicos no rio através da instalação de abastecedouros comunitários.
Elson Buaski: trabalho dos produtores mereceu o prêmio Paraná AmbientalTrabalho pioneiroAinda na metade dos anos 80, a microbacia voltou a sair na frente com o controle biológico de pragas. Foi quando começou a ser utilizado o Baculovirus anticarsia no combate à lagarta-da-soja. E não parou por aí. Há quatro anos a microbacia ganhou, com ajuda da prefeitura, o primeiro laboratório comunitário do País voltado à produção da Trissolcus basalis, a ‘‘vespinha da soja’’, que vem sendo usada para o controle natural do percevejo-da-soja.
‘‘As duas principais pragas da soja são combatidas de forma natural na microbacia do Rio do Campo’’, comemora o agrônomo Roberto Carlos Guimarães, da Emater. Os números são animadores. A média de aplicação de inseticidas caiu de 2,80, na safra 1993/94, para 1,23 em 1997/98. ‘‘É menos da metade’’, frisa Guimarães. Na região de Campo Mourão a média foi de 2,20 aplicações e, no Paraná, 2,25, na safra 1996/97.
Menos venenoSegundo um estudo elaborado pelo agrônomo João Francisco Marchi, também da Emater, a redução de aplicação nas últimas cinco safras fez com que cerca de 4.400 litros de inseticidas deixassem de ser utilizados na área. ‘‘Isso promoveu economia aos agricultores e diminuição nos riscos de intoxicação humana, de animais e de contaminação dos mananciais. A média de aplicação para a lagarta chegou a 0,93, contra 0,19 para o percevejo da soja.
Simone GirotoOvos de percevejo são parasitados pela vespinha Trissolcus basalis, no laboratório comunitárioO uso cada vez maior de inseticidas biológicos e fisiológicos também anima os técnicos. Na safra 1996/97, por exemplo, eles representaram 76% das aplicações de inseticidas na microbacia. Para Marchi, houve um gradativo avanço da conscientização dos produtores. Na safra 1993/94, o uso de inseticidas biológicos e fisiológios, juntos, mal chegava a 2,5%, contra 70% dos organo-fosforados, 16% dos organo-clorados e 11,50% dos piretróides.
De lá para cá, porém, a realidade mudou. Os inseticidas biológicos subiram para 21,90% em 94/95, caíram um pouco para 18,6% em 95/96, voltaram a subir para 30,80% no ano seguinte e chegaram a 39,10% na safra 97/98. Em segundo lugar, seguindo bem de perto, vêm os fisiológicos, com 36,20%. Os organo-fosforados, que lideravam com folga, despencaram para 9,5%, ficando empatados com os organo-clorados. Já os piretróides caíram para 5,12%.
Se os inseticidas ‘‘mais fortes’’ estão em baixa na microbacia do Rio do Campo, o baculovirus faz sucesso entre os produtores. A aplicação, que não passou de 5% na safra 93/94, saltou para 62% em 97/98. Isso significa que o sistema, que era usado em 205 hectares, agora atinge 2.730 dos cerca de 4.400 hectares destinados ao plantio de soja. Na região de Campo Mourão, a aplicação do baculovirus chegou a apenas 15,90% na safra 96/97.
VespinhaNo total, os 143 produtores da microbacia realizaram, na safra 97/98, 46 aplicações de baculovirus. Foram 16 aplicações puras e 22 misturadas com inseticidas fisiológicos, três com organo-fosforados e piretróides e cinco com o B. turigiensis (Dipel). Na maioria das vezes, os inseticidas foram aplicados com redução de 50% da dose recomendada. Marchi alerta, no entanto, que para o combate à lagarta, isso pode ser feito com 25% da dose.
Enquanto o baculovirus vem dando conta da lagarta-da-soja, quem cuida do percevejo é a vespinha. Na safra 97/98, foram liberadas 310 mil vespinhas nas plantações de soja. Desse total, 220 mil foram produzidas no laboratório montado na comunidade do Alto Alegre e outras 90 mil foram repassadas pela Embrapa Soja. A liberação das vespinhas, no entanto, chegou a ser maior na safra 95/96, quando 500 mil foram soltas, sendo 410 mil produzidas no laboratório próprio.
Apesar da redução na soltura das vespinhas, atribuída a problemas técnicos durante o ano, a diminuição do número de aplicações de inseticidas para o controle do percevejo da soja impressiona. Até a safra 1993/94, os agricultores da microbacia faziam, em média, 0,80 aplicação por ano. A média era a mesma do Estado e estava acima até mesmo da região de Campo Mourão, que registrava 0,69 aplicação por safra.
Água limpaNa safra 97/98, a média de aplicação caiu para 0,19, enquanto ela subiu para 0,82 na região de Campo Mourão e para 0,93 no Estado. Em 95/96, quando a soltura da vespinha bateu o recorde, a média de aplicação foi ainda menor, com apenas 0,09, enquanto no Estado a média chegou a 1,03. Os técnicos acreditam que a redução das aplicações acontece devido não só à vespinha, mas também à somatória das ações do manejo integrado de pragas.
Não são, porém, apenas os agricultores da microbacia do Rio do Campo que saem ganhando com as técnicas conservacionistas e ‘‘ecologicamente corretas’’ adotadas na área. Graças ao controle da erosão do solo e à recuperação das matas ciliares, a água do rio está cada vez limpa. A Sanepar que o diga. A companhia de saneamento faz a captação da água que abastece Campo Mourão no Rio do Campo e vê, a cada ano, diminuir o índice de turbidez da água.
Em 1982, o índice de turbidez da água tratada no Rio do Campo era de 286 NTU. Agora esse índice não passa de 40. Nesse período, a quantidade de sulfato de alumínio usado para o tratamento subiu de 2759 quilos para 3996 quilos. O aumento foi de 44,5%, pouco se comparado com o crescimento de 123% no volume de água que passou a ser tratada. Eram 187.057 metros cúbicos em 1982 e agora são 417.302 metros cúbicos.
Com a água mais limpa, a Sanepar não teve mais problemas de interrupções na estação de captação de água. Nem durante os períodos mais intensos de chuva. Além do manejo integrado de pragas, que reduziu uso de agrotóxicos mais nocivos ao meio ambiente, a microbacia do Rio do Campo também ganhou uma série de abastecedouros comunitários, usados pelos produtores para o abastecimento de pulverizadores, o que garante menos veneno despejado no rio.ConservacionismoLavouras são cultivadas sem veneno e em sistema de plantio diretoSid Sauer

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