Menos pobreza no campo - Roque G. Annes Tomasini
OPINIÃO
Menos pobreza no campo
Roque G. Annes TomasiniComo manter o pequeno produtor rural na sua comunidade, produzindo e obtendo uma renda que lhe permita viver com dignidade? Será que haverá lugar para todos continuarem como produtores, numa agricultura que já está sendo e será cada vez mais solicitada a produzir alimentos de baixo custo e de boa qualidade? Os conhecimentos tecnológicos gerados pela pesquisa são adequados às atuais e às futuras necessidades desses produtores? Pode o Governo, com sua estrutura técnica e política, enfrentar sozinho estes desafios, ou terá que aliar-se à iniciativa privada em programas que permitam a sobrevivência e o crescimento sócio-econômico desses produtores?
Na pequena propriedade os produtores podem ser agrupados nas seguintes categorias: produtores integrados com empresas privadas e com produção sob contrato (aves, suínos, leite, fumo, floricultura, erva-mate, fruticultura,uva, maçã, pêssego, figo e morango); produtores integrados com cooperativas, com ou sem produção sob contrato; produtores totalmente dependentes de intermediários e do mercado, sem produção com vínculo contratual.
No que se refere ao mercado, a tendência é haver maior concentração na área de compra da produção, ou seja, o agricultor perde, ainda mais, seu poder de formar preço. Os produtores, de modo geral, já são simples tomadores de preço, não mais influenciando, pela sua oferta, na sua formação, mesmo quando associados a uma cooperativa. Isto em relação aos grandes mercados.
Obviamente continuarão a existir pequenos nichos de mercado controlados por pequenos grupos de produtores. No geral, devido à grande competição, vale a lei da oferta e da procura, com forte influência de mercados localizados no Exterior ou em grandes centros de consumo nacionais. Muitas vezes, simplesmente por falta de canais de comunicação com o mercado, vale a lei do intermediário que se desloca até os produtores.
Além dessas categorias, ainda podem ser citadas duas outras: a dos que continuam a produzir em áreas próprias e/ou de terceiros, mas que complementam sua renda com atividades no meio urbano; e a dos moradores rurais que, embora morando no campo, não mais fazem parte do mercado de oferta de produtos agrícolas, produzindo mais para seu autoconsumo e vivendo basicamente com o dinheiro proveniente de aposentadoria rural. Esta duas categorias tendem a aumentar.
Ser pequeno não significa ser pobre e ineficiente. As ineficiências técnicas do pequeno proprietário decorrem de sua gradativa descapitalização e da sua não atualização em relação às novas tecnologias. Tamanho de propriedade pode dar status social, mas não garante o lucro. O que deve mudar na agricultura nacional é o tamanho das tecnologias de produção. Pequeno em área, mas grande nas tecnologias utilizadas na produção e na comercialização, significa menos miséria no campo.
O pequeno produtor não pode correr riscos, uma vez que tem muito pouco patrimônio para perder. Por esta razão o Governo tem obrigação de, sem paternalismos, executar as ações técnicas e políticas necessárias à sobrevivência e ao progresso da pequena propriedade.
Para os pequenos, não é aconselhável produzir commodities (soja, milho, trigo e cevada ), uma vez que sua pequena área de produção não lhes permite gerar renda suficiente para sobreviver com dignidade, como pequenos empresários rurais nestas atividades. Estas culturas agregam pouca mão-de-obra, principal insumo que os pequenos têm para adicionar no processo produtivo.
O grande desafio da pequena propriedade é encontrar atividades que absorvam a sua mão-de-obra excedente e/ou que reduzam o tempo gasto nas atuais atividades de produção de grãos, permitindo-lhes diversificar suas atividades. Condição importante: que tenham amplo mercado. Não há uma alternativa única de produção e de comercialização para todos, o que seria extremamente perigoso. Não há como sobreviver de forma isolada.
Os agricultores e suas lideranças, apoiados por cooperativas ou por empresas privadas, devem buscar soluções regionais. Decidido o quê e como fazer, para quem e quanto fazer, cabe a ação do Governo para dar o apoio aos projetos de produção, na forma de assistência técnica e/ou de crédito à produção e industrialização.
O autor, engenheiro-agrônomo, é pesquisador da Embrapa Trigo.





