Menos gordura e economia na ração
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de fevereiro de 1999
Cláudia Barberato 
O Núcleo Experimental de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Dourados, desenvolve trabalho sobre uso de matéria seca de cará e de mandioquinha-salsa na composição da ração para frangos de corte desde 1997.
No primeiro experimento foram avaliadas quatro fórmulas de ração, em que a quantidade de mandioquinha-salsa e cará variou de 15% a 30%, na substituição ao milho, que representa 70% numa ração normal. O resultado foi um frango chamado de light, pelo menor teor de gordura em sua carne.
O objetivo principal era reduzir custos na produção, além de obter carne de melhor qualidade. As aves alimentadas com ração contendo resíduos de mandioquinha-salsa ou cará apresentaram sabor de frango-caipira e baixo teor de gordura. Feitas as contas do custo de produção, também outra boa notícia: o custo foi reduzido em 9,20%.
Opção lucrativaOs frangos alimentados com ração normal mostraram-se excessivamente gordurosos, provavelmente devido ao maior teor de extrato etéro (4,24% e/ou do valor calórico do milho utilizado na ração), explica o professor do curso de Agronomia da UFMS, Néstor Antonio Heredia Zarate. Segundo ele, o estudo demonstrou o grande potencial do uso de mandioquinha-salsa e a possibilidade de maiores lucros para o avicultor e para o agricultor.
É possível vender normalmente as raízes, para consumo ao natural ou processado, assim como utilizar os resíduos da planta para composição de rações para frangos de corte. Isso porque o custo da matéria seca dos resíduos (R$0,0325) representaria 29,55% em relação ao custo do milho (R$0,11) e que após seu uso percentual no formulado da ração induziria diminuição de 9,20% no custo.
Normalmente, quando o avicultor prepara a ração para as aves na propriedade, usa 30% de concentrado e 70% do milho. O estudo da Universidade foi feito com objetivo de tentar substituir parte do milho, portanto reduzindo custos da alimentação.
Outro objetivo do trabalho é incentivar o cultivo de hortaliças como alternativas de renda. No caso do cará, por exemplo, o clima da região favorece o cultivo. Não há muitos problemas de doenças e pragas; e a planta não precisa de muita água. O cará pode ser visto como hortaliça ecológica e uma alternativa para o pequeno agricultor; ou até mesmo nos assentamentos, para consumo e fonte de renda com venda do produto.
O professor ressalta que em todas as hortaliças usadas na mistura à ração é utilizado somente o resíduo das plantas. O avicultor, então, poderia obter a raiz comercial e vender, o que representa somente 30% da planta inteira e, os outros 70%, que normalmente jogaria fora, usar na alimentação das aves, com aumento dos seus lucros. O uso também é vantajoso para quem vai consumir o frango; resulta numa carne mais saudável, reforça.
Há experimentos em andamento, segundo Heredia, até com a cenoura misturada a outras hortaliças, para ser componente da ração. Estamos testando também a retirada de parte dos hormônios de crescimento que são fornecidos às aves, também com uso do cará e mandioquinha-salsa. Embora a redução de custos não fique nos 9% ou 10%, seria um produto também mais saudável, numa época de tanta preocupação em consumir alimentos menos gordurosos.
ResistênciaMesmo tendo comprovado a eficácia da substituição de componentes alternativos na ração, os resultados do trabalho da UFMS, até agora, não estão sendo usados na prática, fora dos terrenos da Universidade. Há resistência de produtores e da indústria. O professor garante que quem já consumiu o frango light sabe a diferença no sabor e qualidade da carne. Não sei porque a tecnologia ainda não foi adotada pelos produtores, estranha.
Os cálculos, na ponta do lápis, incentivam à produção dessas hortaliças para alimentar frangos de corte e atender o consumo de granjas espalhadas pelo País. No entanto, como as áreas de cultivo ainda são pequenas, se adotado o método alternativo de alimentação, haveria necessidade de incentivo para aumento das áreas de plantio dessas hortaliças.
O professor Heredia defende que o frango light é um produto tipo exportação, já que atende o mercado que busca carne com menos gordura, capaz de mudar o perfil de muitos avicultores, trazendo a opção de venda do frango e da produção das hortaliças.


