O controle de mato é muito dependente de herbicidas e, como se trabalha mais com o sistema tradicional de cultivo, há pouca recomendação específica para uso de mata-mato em plantio direto (P.D.). Dois engenheiros-agrônomos, os pesquisadores Donizeti Aparecido Fornarolli, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Milenia Agrociências S.A., e Benedito Noedi Rodrigues, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), conseguiram diminuir a dosagem de um herbicida pré-emergente em plantio direto e controlar 85% de brachiaria, pastagem invasora de plantios agrícolas.
Uma das organizações envolvidas na pesquisa, a Milênia, é fabricante de herbicidas. Donizeti explica que a preocupação da empresa é fornecer a seus clientes as informações corretas, para uso de produtos sobre palha no plantio direto. ‘‘Achamos que em plantio direto pode ocorrer aplicação menor de herbicidas pré-emergentes e quisemos comprovar isso, para orientar corretamente os agricultores’’, acrescenta. Ele justifica ainda: ‘‘Se não fizéssemos isso, o próprio lavrador poderia, com o passar do tempo, perceber essa possibilidade, assim como o assunto poderia ser tratado por uma instituição oficial de pesquisa, como o Iapar. O que a empresa pretende é manter sua credibilidade.’’
Herbicidas utilizados na pesquisa foram aplicados em palhada para controlar, por exemplo, brachiaria. Donizeti apresentou no 3º Congresso Internacional das Ciências das Plantas Daninhas, dia 5 deste mês, o trabalho ‘‘A Influência das Coberturas no Comportamento de Herbicidas em Plantio Direto’’. O tema despertou o interesse dos pesquisadores presentes. Um africano do Quênia, por exemplo, quer mais informações a respeito do comportamento de herbicidas em plantio direto e um consultor científico australiano perguntou a respeito da influência das coberturas em plantio direto.
DúvidasQuando se começou a falar mais em plantio direto e aplicação de herbicidas para secar a palhada da lavoura anterior, deixada no campo, algumas dúvidas surgiram entre os próprios agricultores. Por exemplo: quanto herbicida pré-emergente ficava retido na palha e não chegava ao solo? Existem dois tipos de herbicidas: os pré-emergentes e os pós-emergentes – os primeiros atuam na germinação da planta; os outros, agem nos galhos verdes. Esse comportamento, explicam Fornarolli e Rodrigues, é parecido em todos os herbicidas, mas os pré-emergentes são mais conhecidos dos pesquisadores desde 83, quando o Iapar começou a trabalhar com eles.
Naquele ano um agricultor levantou a questão, durante palestra do pesquisador Noedi: quanto pré-emergente ficava na palhada do plantio direto e quanto ia para o solo, considerando que era uma técnica desenvolvida para plantio convencional, isto é, para ser aplicado no solo limpo?
Havia pouca informação e os difusores de agrotóxicos colocavam outra dúvida na cabeça dos lavradores, ao afirmarem que, aplicando herbicida pré-emergente misturado com dessecante foliar, o herbicida penetrava mais no solo e o efeito alelopático da palha, somado ao efeito físico, controlava a erva. ‘‘Então, era uma grande vantagem’’. Porém, não é bem assim.
O plantio direto ajuda a conservação do solo e se previa que o uso na palha possibilitaria a redução de herbicida, mas o custo seria muito alto. Era preciso descobrir metodologia, adaptando o herbicida para uso na palhada.
No Paraná, no método convencional, usa-se 1 litro de produto; no plantio direto, 1,3-1,5 para compensar a perda do produto que não chega ao solo.
O Iapar achava que podia reduzir o gasto de herbicida, porque a palha diminuiria a aplicação. Alguns falavam, sem pesquisar, que era preciso aumentar a pressão da aplicação. Na década passada o Iapar adquiriu um cromatógrafo líquido e gasoso, para fazer análises dos resíduos e calcular quanto herbicida chega ao solo. A cada hora o herbicida tem um comportamento diferente, assim como as palhas não têm comportamento igual.
Os pesquisadores escolheram milho, para observar o comportamento da dose reduzida de herbicida. Eles notaram que meia dose tinha o mesmo controle da dosagem cheia, desde que houvesse palhada no terreno onde seria plantado o milho.
A Milênia fez um acordo de cooperação técnica com o Iapar e ambas as instituições encamparam o projeto. ‘‘A influência da cobertura está na infestação de culturas e no controle das invasoras’’. É um modelo que reúne o efeito alelopático (efeito químico que uma planta pode ter sobre outra, para favorecer ou inibir o desenvolvimento dessa) e o controle físico da cobertura.
Com isso, nos últimos três anos, foram feitas mais pesquisas do que antes. Hoje os pesquisadores da Milênia e do Iapar já possuem um pacote de informações disponíveis até o nível do produtor e publicado em revistas científicas. Os pesquisadores pretendem fazer um livro, através do Iapar, para mostrar seu trabalho, inédito no mundo, sobre redução do uso de herbicidas. Agora, eles querem estudar também a degradação dos herbicidas no solo e, afirmam, estão ‘‘a um passo’’ disso.

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